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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Das ruas de um Porto-artista aos Alegres

Porto Alegre e o rio Guaíba - fotografia de Ana Cecília Romeu

Mesmo que esteja sangrando de um golpe fatal,
quero uma estrela no instante final.
(Nico Nicolaiewsky, na música: Só cai quem voa.)


Nico Nicolaiewsky - músico, compositor, ator, cantor, humorista - foi mais cedo para a festa lá do céu, aos 56 anos, no dia 7 de fevereiro. Artista que deixava a todos mais alegres, uma alegria furtiva, mas que ajudava a viver como tudo que nos cria degraus para dentro, feito chá de mãe em dia febril. Uma irreverência desacompanhada, a que encontramos em pessoas impares, em quem deixa obras relevantes, em cenários que são somente um.

Fotografia de Raul Krebs

   Recordo-me que assisti pela primeira vez à comédia musical Tangos & Tragédias, que fazia em parceria com Hique Gomez, na praia de Capão da Canoa. Eu ainda era criança, e em esquetes eles apresentavam o mundo fictício da “Sbórnia” e seus personagens: Kraunus Sang e Maestro Plestkaya. Nunca tinha visto nada parecido. E cantavam: “Ana Cristina eu não gosto de você, tô amando loucamente a tua mãe”. Será que meu futuro namorado pensaria assim também? E ali todos os efeitos da arte nas sensações da menina que, depois adulta, assistindo ao mesmo espetáculo que teve vinte e oito temporadas, esta última incompleta, teria a mesma impressão, de que nada era perecível, pois sempre estreia. O Tangos & Tragédias tinha também uma versão em espanhol que foi apresentada na Argentina, Equador, Colômbia e Espanha. Em Portugal, foi eleito pelo público no Festival Internacional de Teatro de Almada, em 2003, como o melhor espetáculo; e de honra em 2004.
   Fiz o caminho inverso, conheci depois o trabalho anterior do Nico, Saracura, uma das bandas gaúchas de maior relevância de todos os tempos, inaugurada nos anos setenta.
   Mais atual e caminhando junto ao projeto do Tangos & Tragédias, seus álbuns solo, as entrevistas, os shows, o espetáculo Música de camelô: universo de artista plural que respondia com surpresas à plateia ávida pelo inusitado.
   E assim, Nico partiu em voo da mesma cidade em que nasceu: Porto Alegre. Capital espelho desse artista: em suas ruas uma certa melancolia feliz; ironia sutil e inteligente em seus passeios; meio preto e branco, outro tanto a cores, mas com nuances sem uso de papel celofane, tal e qual o Theatro São Pedro, tantas vezes palco dele mesmo e seu último. Uma timidez de quem não precisava mostrar para aparecer, das ruelas do Parcão à Redenção, dos recantos da Rua da Praia aos cantos do Bomfim, aqueles, os irreverentes ao ponto certo. Luz própria de quem assistia ao sol laranja-vermelho se deitar sobre o Rio Guaíba, momento em perspectiva de quem era e sempre será: porto, cais e quebradouro. Reflexo e imensidão do Porto até todos os Alegres, nós, a quem a sua arte fez despretensiosamente mais Felizes.
                                                                               
Crônica publicada também nos jornais: 
Jornal do Comércio – Porto Alegre / NH – Novo Hamburgo 

Feito picolé ao sol - Nico Nicolaiewsky (com imagens de Porto Alegre)

 

Tangos & Tragédias - Aquarela da Sbórnia

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Na próxima semana a postagem: Des. caminhos entre pétalas e fulgurações - um brinde com alguns poemas de Adri Aleixo e mais o posfácio de minha autoria publicado no livro Des. caminhos dessa que é uma grande poeta e amiga.