quarta-feira, 23 de março de 2011

Quindim e Merengue

É o título da minha crônica no site:

www.portuguesepoesia.com


Pessoal, em muitas regiões do Brasil, o docinho Merengue tem o nome de Suspiro.

Roger Tavares, obrigada pelo espaço.

terça-feira, 8 de março de 2011

A dor e a delícia de ser Mulher


   Sempre tive vontade de fazer uma tatuagem, mas adiei por anos. A ideia daquela agulha furando minha pele, não me era boa. Quando finalmente me animei, já na sala de espera, falei à minha amiga escudeira que estava com muito medo da dor. Um garotão que aguardava para colocar um piercing me disse:
   - Você é mulher, vai aguentar a dor.
   Sábio garoto, concordo totalmente. Nós mulheres temos uma estranha mania de aguentar as dores do mundo. Como a representação de Maria, em Magnificat? Talvez.
   Quando eu estava na sala de parto, a anestesista me perguntava a todo instante qual porcentagem de dor sentia, para verificar o efeito da peridural. Esquisito tudo aquilo. Quase questionei se podia ser uma periódica: 33,33%? Mas passei, apartir dali a quantificar as dores. E não são poucas que nós mulheres sentimos.
   Dor menstrual; da primeira, menarca; da ausência, menopausa. A dor da falta de um único telefonema de quem gostamos. Será que o cara leva um choque nos dedos toda vez que digita o meu número: 32...? Pensei na adolescência, e essa dor foi para mim, na época, de quase 100%. A dor da injustiça, quando o colega (sexo masculino), que trabalhava só meio turno, ganhava o dobro do meu salário que trabalhava full time, e tinhamos currículo e tempo de serviço semelhante. A dor de um fim de relacionamento, da troca, da incompreensão.
   Talvez por essas coisas da natureza, nós mulheres temos a inteligência intuitiva bem desenvolvida, que nos permite sentir mais dores, mas também percebermos detalhes com nitidez.
   É certo que somos de fases, e isso às vezes é incompreensível até para nós mesmas. Em um único mês somos várias, e a dor em nós muda de intensidade. Tem semana que me sinto a Escrava Isaura; em outra sou a Mulher Maravilha; dias em que parece que ouço e vejo melhor, a própria Biônica; e em outros uma verdadeira Barbie pateta que não sabe nem somar um mais um, hã? Coisa da dança de hormônios, quem sabe?
   Mas para não parecer que este texto é um mero manifesto feminista, ou coisa que o valha, vou citar a contribuição de alguns homens em minha vida, por exemplo, o meu escritor preferido Oscar Wilde, que em plena Irlanda do século 19 me sai com essa frase: "Permitam às mulheres as mesmas condições e elas conquistarão o mundo"; ou de outro Oscar, meu pai, agora o velho Rodrigues, que me ensinou a vencer tudo com um simples sorriso. Reverter dores, mágoas. Mais ou menos como o ser transcendente do simbolista Cruz e Souza, o "ficar tranquilo num sorriso justo, enquanto tudo em derredor oscila".
   Uma coisa é certa, essa capacidade que nos foi dada de sermos intuitivas, nos deve vir a favor. Temos essa impressionante capacidade de reverter as dores, e transformá-las em prazer e humor, mesmo que não saibamos disso.
   Aconselho amigas, a nunca chorarem mais que cinco minutos por seja lá o que fôr. No dia seguinte, incríveis bolsinhas de água vão se alojar embaixo de seus olhos. Quando chegarem ao emprego, na aula, na casa de um amigo vão ter que dar algumas desculpas do tipo: "estou me gripando", ou, "a insônia foi terrível essa noite". Eu faço assim, se começo a chorar, já cronométro: 4.59; 5.00, acabou! Olho para o espelho e tento sorrir. Até bom que o lábio fique todo torto, vai ser engraçado, aí vocês vão rir mesmo. Uma vez sorrindo, é incrível, mas começam a mudar as coisas. Rir de nós mesmos, ou da situação, transforma tudo em humor. E o bom humor vence tudo!
   Podemos transformar até a pior dor, em momentos bons de lembrança, por exemplo. Ou quando acabamos o relacionamento com aquele cara, podemos pensar que mandamos o tal palhaço de volta para seu circo, e que vá procurar sua turma em outro picadeiro, e isso será humor.
   Mesmo que estivermos por dentro como gelos despedaçados, um simples riso para nós mesmas é possível. Somos mulheres, temos essa capacidade, e a principal de todas, de percebermos coisas nos detalhes, como a simples intenção de uma alegria furtiva, que pode por fim resgatar a maior de todas: nossa dignidade.

Dedico às mulheres do mundo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O amor em uma flor... de ébano

   Esse é o título do poema que fiz em conjunto 
com o amigo Jim Carbonera.
  Um dia atrás, o convidei para fazer uma estrófe de poema, tema livre, como quisesse; eu completaria com uma segunda estrófe, 
e assim por diante, numa espécie de conversa poética.
   O resultado vocês podem conferir aqui.
   1ª, 3ª e 5ª estrófes do Jim. 2ª e 4ª, minhas.
 Obrigada Jim por aceitar o desafio!

Gostaria de presentear
todas mulheres com uma flor
mas do que adianta uma flor
se nela não conter o amor?

Corta as pétalas com facão, 
indignada morena.
Corpo roliço, 
roça, toca,
molhado, molha,
segura, se vira e pára:
amor, para quê? Diz ao homem.

Porque só do amor 
sobrevive uma flor
irei tocá-la
despedaçá-la
e até penetrá-la
e amanhã?
o que restará?
nem lembranças
nem perfume
nem paixão
irei de novo 
ter que conviver
trancado na minha solidao.

Quadril, pernas, peito, revira.
Enrola na mão restos da flor,
aperta e suga,
esquece o facão.
Corpo grita:
mágoa, calor.
Comi e bebi,
me falas de solidão?
Desfalece morena.

Mas essa flor,
insaciável morena
também tem sabor
é um sabor doce
que nem o suor
que escorre pelo 
seu corpo
é marcante
é cruel
fere a alma
fazendo assim
desistir do amor
em uma flor.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar

   Hoje faleceu em Porto Alegre, o grande escritor gaúcho Moacyr Scliar.
   Nesta singela homenagem, gostaria de ressaltar  um aspecto de sua personalidade: a generosidade.
   Sempre muito disposto a ajudar os novos escritores, levou também a literatura para às escolas, onde ministrava palestras, falava de sua obra, muito solícito. Atendia com presteza as tantas perguntas que faziamos, escritores, aspirantes, estudantes e a mídia em geral.
   Por sua generosidade impar, meu agradecimento.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tratado sobre a paixão literária

É o título da minha crônica literária no
site: www.portuguesepoesia.com

Roger Tavares, obrigada pelo espaço.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mamãe do futebol

   Contratada para fazer matéria sobre futebol, jornalista tentava começá-la.  Cansada, insônia, visita em casa e filha exigente.
   Quem sabe faço crônica sobre o jogo do Tamoios aqui da cidade? Pouco conhecido, mas show a parte. Goleiro muito ruim e novo craque atacante apareceu, pensou.
   — Mãe — interrompeu a filha
   Nossa, preciso fazer essa crônica logo, tenho que entregar amanhã.
   — Manheeeeeee.
   — Que houve, filha? — disse jornalista
   — Mãe, mãe, mãe.
   — Fala, minha filha.
   — Quero brincar de informática — disse a menina puxando o braço da mãe
   Como vou explicar que preciso entregar essa crônica para ser publicada amanhã para uma criança de três anos?
   — Agora não dá, estou usando o computador minha filha — disse a mãe
   Sozinha em casa com a criança. Marido tinha saído com visitas, e jornalista precisava fazer o texto.
   — Mãe — a criança novamente falou, puxando o braço de sua mãe
   — Filha, mãe precisa trabalhar, tenho que escrever, entende? Vai ali brincar com a pista da Polly — disse carinhosa
   A menina saiu com beiço grande e bochechas rosadas. Cabisbaixa, foi procurar brinquedo.
   — Por onde começo? Tem atacante novo do Tamoios, um tal de Zezinho Borba que ninguém ouviu falar, mas fez dribles maravilhosos e um super gol. E o goleiro do Tupandi ficou sem defesa, acho que é por aí. A crônica tem que ser em cima disso. Depois vou ter que achar o tal Zezinho Borba, ver se consigo uma entrevista — a jornalista falava alto como se em reunião estivesse. Uma conversa do eu consigo mesma. Verdadeira sessão de psicanálise.
   — Bem vamos começar...
   — Mãe — voltou a menina
   — Que houve agora minha filha? — perguntou irritada.
   — Mãe, mãe, mãe — insistia a filha
   — Minha filha vamos fazer assim, quando a mamãe está trabalhando, você brinca. Quando a mamãe acabar, brinca com você. Tá bom? — disse com calma
   — Mãe — a menina disse sorrindo — Quero cocô.
   A jornalista pegou sua filha no colo e saiu em disparo como se estivesse em competição nos 100m rasos. Nada de africanos, no pódium só dava: mamãe!
Chegou no banheiro. Assistiu a criança e retornou ao computador.
   Concentrando, preciso fazer esse texto. É fácil. É fácil. Respirando, com calma. Consigo.
   — Mãe — disse novamente a criança, já ao lado da jornalista
   — De novo?
   — Mãe, mãe, mãe.
   — Preciso trabalhar, daqui há pouco papai chega e brinca com você, tá bom?
   Menina começou a chorar.
   — Quero você, mamãe!
   Jornalista tocou na cabeça da filha e disse:
   — Já brinco com você.
   No jornal da manhã seguinte:
   Jogo: Tamoios x Tupandi
   Camisa 10 do Tamoios matou no peito, ajeitou na ponta da chuteira e sacudiu a rede.
   Goleiro do Tupandi disse:
   — Nossa mãe!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Alma cabeluda


O Humoremconto, como o próprio nome diz,
é um blog de contos de humor.
Mas às vezes quebrar algumas regrinhas é bom, se faz necessário.
Neste post, uma crônica que fiz baseada num sentimento e
em algumas pessoas que me inspiraram definitivamente.
Espero que aproveitem e se permitam entrar no clima de Hair!
"When the moon is in the seventh house And Jupiter aligns with Mars..."
   Aquarius, música tema de Hair, filme dirigido por Milos Forman (EUA/1979), consegue materializar como película todos os anseios de uma geração. O roteiro é baseado em espetáculo homônimo da Broadway. Conta a história de um rapaz do interior que passa por Nova Iorque um dia antes de se alistar para a Guerra do Vietnã, e conhece um grupo de hippies, com os quais passa a conviver.
   "Quando a lua estiver na sétima casa, e Júpiter alinhar-se com Marte, então a paz guiará os planetas, e o amor dirigirá as estrelas".
   O filme marcou história, mas não parou no tempo.
   Pensando assim, depois de algumas décadas de vida, descobri que alma tem cabelo. Pois é! Alma tem cabelo sim! Tudo pelo amor ao equilibrio da tal "paz mundial", talvez a grande utopia pregada desde o século passado, mas um acordo de cavalheiros com o presente. Um nirvana de conceitos, onde o respeito ao diferente impera. Tendo consciência que somos seres em constante transformação, absorvendo, construindo; reconstrução e destruição, no acertar e errar: a iconoclasia cotidiana; mas buscando nossas histórias nas pegadas em conjunto, na areia marcada por outros pés. O respeito ao planeta, a natureza, ao próximo, até ao vizinho que mora ao lado, que deve lá ter seu motivo de ser tão chato.
   Tudo na vida pode dar certo, mesmo que pareça que está errado. É o desafio constante. Se fosse fácil e bonitinho, era só resolver algumas fórmulas no café da manhã e teriamos um dia perfeito.
   O Hair é mais que isso. Propõem o desafio do dia-a-dia. O choque de gerações e até de nós com nós mesmos, num constante divórcio do ir e vir individual. O descobrir suas capacidades e testar seus limites, de outra forma não tem como evoluir.
   A alma que tem cabelo está pronta para novos penteados. Um dia quer prendê-lo, em outro soltá-lo, colocar adereços, lavar, escovar. O careca não, almas com alopecia não se permitem opções e nem pentes usam. Costumam a conceber tudo em regras pré-determinadas. Privilegiam à técnica; ao bom senso. A si próprias; ao coletivo. Por isso são carecas de alma, sem opções de ter o privilégio de soltarem seus cabelos esvoaçantes por aí numa brisa da manhã.
   É meus caros, quem tem alma cabeluda reconhece nos outros todos os cabelos que têm, e propõem uma marcha quase silenciosa em busca de uma magia, um "clic" do destino: a grande utopia, a mística, que possa trazer melhor vida a todos. A verdadeira lei da compensação. Se eu fizer o bem; o bem retornará. Lei da física? Quem sabe? Mas calcada no respeito, apesar do desafio. Ser pacífico, mas sem atitudes estanques. "Viver, e não apenas aguentar". Esse é o Hair.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Francamente, senhor Wilde

É o título da minha crônica literária no site:www.portuguesepoesia.com

Roger Tavares, obrigada por ceder seu espaço.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nostálgico


   Sempre que ouvia letra da música do cantor e poeta brasileiro Cazuza: "Meus heróis morreram de overdose...", Astrogildo tinha certeza de uma coisa: "Meus heróis morreram de tuberculose". Oscar Wilde e Casemiro de Abreu, dois deles, mas poderia citar mais.
  Astrogildo vivia assim, calça risca de giz, sapato brilhoso e pensando em como se sentia deslocado naquele mundo: internet, celular, carros automáticos, sem falar na tal máquina doméstica que fazia pães, era só colocar os ingredientes e "plin" depois "plun" e estava pronto. Que sem graça.
  Na sua vida amorosa, flores para a amada, canções no ouvido e muito tango. Tango? Mas o que é isso? Perguntou Tininha, filha do vizinho. Se assustou com aquilo, apesar de Astrogildo ser bonitinho. Foi embora.
  — Astro, meu bem, isso é macumba, reza, calma, carma, o quê? — disse Tininha
   Depois disso, nunca mais a viu.
Mas recordava dos discos do pai. Carlos Gardel, seu favorito. Ainda defendia por ser uruguaio:
  — Não era argentino, não! Tem até museu lá em Tacuarembó provando isso! — desafiava Astrogildo
  Pedia licença, desculpas e falava muitas vezes o obrigado, até sem motivo, mas ia marcando presença. Foi assim atraindo as moças mais recatadas, e as sem recato algum, que viam nele um desafio.
 Muito estudioso, bom nas letras e galante nas palavras. Excelente no discurso, foi escolhido por brincadeira dos colegas, como orador da turma. Pois, sorte a dele. Apresentação impecável, suscinta, garbosa, vocabulário trabalhado. Escrevera o tal discurso em manuscrito, e ainda por teimosia em caneta verde, como Pablo Neruda; mas muito míope, de noite não conseguia ler nada. Mas mesmo assim, se inquietava com o computador: letras pretas em tela branca, muito impessoal.
  Mas anos passando, e Astrogildo se atualizando, já lia livros da geração beatnik e ouvia rock dos anos 70, isso já no século 21. Se lembrava com saudosismo do seriado de Buck Rogers, do cara que tinha sido congelado e depois acordava nessa época. Assim vivia Astrogildo, contemplando o passado e se esquivando do presente.
  Certa vez foi convidado por namorada, para festa:
  — É reunião dançante — disse a namorada para convecê-lo a ir
  — Claro que vou! — disse Astrogildo.
 Mas chegando lá, teve a própria visão do inferno: purgatório, diabinhos, música muito alta, do tipo "tuc-tuc", gente fumando de tudo, se sacudindo, gritando, um horror! Mas Astrogildo não podia sair dali, muito apaixonado pela moça. Ela toda certinha, bonita, alta, magra, mas gostava daquele inferno. Fazer o quê? Para fugir daquilo tudo, Astrogildo foi no bar e pediu um drink
  — O quê? — perguntou o bar man
  — Um drink, por favor — falou Astrogildo
  — O quê? — perguntou novamente o barman
  — Um drink. Drink, entendeu?
  — Um o quê? Pinki, Dinki, Doo? Mas isso não é um desenho animado infantil? — disse o barman
  Tudo bem, Astrogildo ficou num canto, calado, pensativo, sem palavras, sem ouvidos e sem bebida, apenas observando namorada que dançava com duas amigas.
  Pensou mais um pouco, foi até ela, agarrou-lhe a cintura, puxando-a:
  — Posso dar-lhe um beijo? — disse alto no ouvido da moça
  — O quê? — disse a namorada.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Mosca



   O zumbido era ensurdecedor. Dentro do carro, dirigindo do shopping até a casa, e a filhinha sentada no banco traseiro, dizia insistentemente:
   - Mãe, tem uma mosca.
   Lembrou-se por segundos do filme "A Mosca", uma produção norte-americana dos anos oitenta, onde o personagem principal se transformava numa mosca após passar por uma experiência científica. O CD estragado, sem Elvis ou o Raul já estava difícil. Ajeitou os óculos de sombra. O ruído era tão intenso, nem parecia vir de uma única mosca, talvez o personagem do filme que havia ressuscitado?
   O carro fechado, verão, muito calor e o ar condicionado no máximo.
   Sinal vermelho. A moça abriu as janelas dianteiras tentando tirar a tal mosca. Esperto, o insetinho decidiu-se pelo ambiente mais fresco, encolhendo-se debaixo do banco.
   - Mãe, tem uma mosca! - disse a filhinha
   - Eu sei minha filha, mas não consigo tirá-la.
   Abriu semáforo. Fechou janelas, primeira marcha, segunda marcha, e a criança lembrava da tal mosca, zuuummmm...., terceira marcha, zuuummm..., mãe tem uma mosca, quarta marcha.
   A colega de ginásio, Laura Sardentinha, não seria tão companheira. A tal mosca parecia ouvir seus pensamentos. Em mesma sintonia, quando a moça tentava um golpe fatal, a bendita se esquivava.
   - Mãe, ainda tem mosca! - filha insistia
   - Falta só uns 2km e já chego em casa, já tiro essa coisa para fora do carro - disse a moça indignada.
   Mas tinha que dirigir dentro dos conformes, desde que sua filha nascera, decidira dirigir mais como o Brabinho e menos como o Montoya, da Fórmula 1. Nada de "muro ou vitória", agora só pensava em chegar, mesmo que fosse a última na corrida.
   Zuuummmmm.
   - Mas que m..... - gritou a mãe
   - Que é "m" mãe? - disse a filhinha
   - Filha, "m" é a letra de mosca, entendeu? É a primeira letra da palavra mosca - explicou atenciosa
   - Mas mãe..., a mosca ainda está aqui!
   Quinta marcha, acelerou, reduziu. Curva para a direita, sinal verde, zuummm, tem mosca mãe, curva para esquerda, conversão, reta, outro semáforo aberto, curva para a direita, casa, garagem, manobra, desligou o carro.
   Abriu as portas, tirou a filha da cadeirinha, e as duas sairam com pressa.
   - Mãe a mosca saiu! - disse a filha sorrindo
   A mulher comemorou abraçando a criança, um grande feito, guerra vencida. Nem sinal da mosca.
   Ainda segurava as compras, quando chegou na cozinha.
   - Vou preparar uma sopinha gostosa - disse a mãe
   Cortou os legumes com cuidado, separou temperos, adicionou água aos poucos, cozinhou em fogo brando.
   - Hora da janta, vem meu amor - disse a moça
   Serviu no pratinho com desenho do Mickey Mouse, exigência da filha, separou a colherinha e o suco.
   - Vem, filha! - disse mãe
   E a menina começou a comer o caldo com cheirinho de abóbora.
   A moça serviu seu prato, colocou-o na mesa, começou a comer.
   Zuuuummmm.
   - Será? - disse a mãe
   Zuuummmm.
   - Ai não acredito! - disse - A mosca de novo?
   Parecia maldição, feitiço, mambo jambo, mas o tal bichinho rondava de novo e dentro de casa. Fazia verdadeira vigília perto da cabeça da mãe.
Fechou os olhos, tentando esquecer a mosca, não sabia como se livrar daquela coisa, precisava tomar uma decisão, e seguiu comendo a sopa.
   O ruído acabou.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Futebol em dois tempos


   Os dedos grossos e quadrados do marido deslizavam com maestria sobre o controle remoto. Deixaria até Mozart com inveja, tamanha rapidez e eficácia com os teclados. Verdadeiro escort na arte de procurar canais de TV.
   Olhou no relógio, hora do futebol, pensou, buscou o canal e ali ficou.
   — Uau! Vai começar o jogo — disse marido
  Esposa sentada ao seu lado, quieta, braços cruzados, batendo pé direito sobre tapete peludo da sala.
   — Sensacional! — marido se empolgou com a entrada dos times em campo
   — Preciso te falar algumas coisas — disse esposa mordendo o lábio inferior
   — Olha lá! Olha lá! — disse marido — sabia que o Lesminha ia jogar.
   — Querido, preciso te falar algumas coisas — disse esposa
  — Olha lá, o Lesminha, lateral direito, sabia que estava escalado. Sem o cara não dá — disse marido
   — Querido, veja bem...— esposa foi imediatamente interrompida
   — Vai Lesminha, vai!
  Esposa mordeu ainda mais forte o lábio inferior, ignorando a "hora do marido", pretendia conversar. Teimosa, insistiu.
  — Querido, ultimamente você não está me dando a atenção suficiente — começou esposa — Tenho que praticamente implorar sua atenção, o vizinho da casa azul, conversa mais comigo que você — completou esposa
   — Lesminha! — disse marido, sem olhar para a moça
   — Não é o Lesminha querido, é o Alex da casa azul.
   — Não o Alex não, nem fala um troço desses, aquele cara não joga nada — disse marido indignado
   — É o vizinho, não o jogador — corrigiu esposa
   — O vizinho tá jogando, onde? Não vi ele — disse marido sempre olhando a TV
   — Olha é o seguinte meu amor, o Alex, o vizinho da casa azul, me dá mais atenção ultimamente que você que nem me olha. E vai pensando, pensa bem....— esposa fez uma pausa
  Segundos depois, seguiu desenvolvendo sua tese de grande mestre em relacionamentos.
  — Vai pensando bem, viu? O Alex é um homem bem bonito, tá bom? Está divorciado, não tem filhos, nem mulher traz na sua casa — disse esposa
  — Que é isso mulher, sou mais o Lesminha, o que as pernas do cara fazem com a bola, Alex nenhum faz — defendeu marido
  — É o Alex vizinho, entende? — disse esposa — Mas... espera aí, o nome do cara é mesmo Lesminha?
  — Olha lá, o grande mestre Osvaldir Lesminha com a bola, grande lateral direita, olha lá — disse marido
Esposa levantou-se do sofá, descruzou os braços e falou alto com voz firme.
  — Então quer dizer que o tal Lesminha é mais importante que eu? Quem mais? O insetinho, mosquitinho, bonequinho? Quem mais? Sim, porque você coloca todo mundo na minha frente — gritou esposa
  — Não faz isso. Oh Lesminha! Essa foi muito ruim, passou pro pior cara, o Alex Tufão, não dá! — disse marido
  — Alex Tufão? Tem esse bicho também? A propósito... — seguia teorizando esposa — O Alex, o vizinho, não o Tufão, nem o outro que joga mal, é muito interessante. Conversa comigo todas as tardinhas, sobre muitas coisas...
  — Mulher, futebol a gente não conversa, a gente joga. Não, não, assim não dá certo — marido sacudiu a cabeça
  — Ele é muito bem apessoado. Moreno, alto, musculoso, sorriso lindo, e muito inteligente. Ah! E está disponível, porque, como já te disse e você não me escutou, ele nem traz mulher pra casa — falou calmamente esposa
  — Ai mulher, pára de gorar, tá querendo dizer que o Alex Tufão é o quê?
  — Estou falando do Alex vizinho, da casa azul, recém pintada e reformada. Outro dia ele me convidou para conhecer a nova decoração. Cozinha de revista! Maravilhosa! Sala com componível de couro e no quarto, o colchão é daqueles duplos, que eu sempre quis — disse esposa — Mas entrei no quarto só para dar uma espiadinha. não te preocupa com isso ainda
  — Ainda? O quê? — disse marido, sem olhar para a moça
  — Ainda ... — fez suspense a esposa
  — Ainda não ganhamos, esse jogo parece de várzea, isso vai dar empate — disse marido
  — Ainda ... — disse esposa — ainda não te traí, mas experimenta ficar só olhando essa coisa aí, o tal de futebol. Inglês maluco que inventou isso. Será que tinha esposa?
  — Não o inglês não! Contrataram aquele cara, caríssimo, as luvas milionárias, em euro, idiotice dos caras, veio todo lesionado — disse marido
  — Olha, sabe de uma coisa, eu desisto! Vou embora! — disse esposa, saindo da sala
  — Tudo bem meu amor — marido viu a esposa sair — Que bom! Se foi! Agora posso ver meu jogo sem aquele blá, blá, blá — disse em voz baixa
Esposa saiu e caminhou determinada até a casa ao lado e tocou a campainha de Alex, o vizinho.
 — Nossa! Não acredito! Quem toca numa hora dessas, bem no melhor do jogo? — disse Alex, levantando-se da poltrona

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lindo

   Um amigo me disse que o sujeito conseguira finalmente uma garota em tanto. Alta, coxas bem definidas, bumbum macio e empinado, algumas sardas no nariz. Pintada de cor jambo, com lábios brilhantes, ainda chamava o Arlindo de lindo. Como se não bastasse, esperava herança milionária de uma tal tia Vera, lá de Santa Maria. Fazendas com campos intermináveis, que sobrevoando, levava uns vinte minutos para ver tudo. Arlindo já se imaginava dono das terras ao lado da deusa, com um chicote em punho comandando a pionada. Até mesmo adotou no vestuário um estilo country, e nas lojas de CD's, procurava Chitãozinho e Chororó, como se fossem velhos amigos.
   Não demorou para o primeiro encontro privado com Wanda, a mulher da cor jambo, que de minissaia, exibia as pernas como se fossem chocolates ambulantes. Arlindo pediu para o primo um dinheiro emprestado, levou a moça no motel mais caro do bairro Ipanema. Todo entusiasmado, acelerava seu carro, modelo noventa e dois, entre carícias e beijinhos na orelha.
   Com beliscões e mordidinhas, entraram no quarto, uma imensa suite com cama redonda, piscina, cortinas peroladas, iluminação multicor e espelhos no teto e nas paredes. Puxava, amassava e era correspondido. Wanda piscou o olho direito e entrou no toalete. Arlindo aumentou o som, uma balada instrumental, e que, diferença fazia? As luzes deixou difusas. Separou o preservativo. A moça voltou vestindo calcinha e sutiã de cetim rosa antigo, foi logo abrindo os botões do colete de couro do rapaz. Arlindo ficou ainda mais entusiasmado com o reflexo de Wanda no espelho do teto. O corpo simétrico, rolava em cima do seu, não tão perfeito. Fiz horas de musculação essa semana, mas pelo que vejo não adiantou grande coisa, meus bíceps lembram dois mamões murchos. As pernas, muito finas. Nem parece que corri quilômetros. Ainda esqueci de cortar as unhas dos pés.
   - O que é isso cara? - disse ela - te beijo a mais de cinco minutos e nada - falou, protestando seus direitos de consumidora.
   Arlindo tirou-a para o lado. Um beijo excitante e olhou novamente para o teto. Agora a barriga, de perfil era como uma das inúmeras cachoeiras do Brasil com nome de Véu de Noiva. Toneladas em queda.
   - Parou o beijo por quê?
   Arlindo pensou que Wanda só poderia estar se divertindo. O que ia querer com um cara dez anos mais velho, sem grana e num completo estado de aposentadoria física ?
   Olhou para ela. Seria tão ingênua? Para todos os lados eram espelhos, até atrás da cama. Com um empurrão distanciou-se da moça. Escondeu nos lençóis escorregadios, o corpo ainda vestido com a cueca de algodão. Wanda insistia. Perguntou se ele viu o filme Priscilla mais de uma vez; se ouvia o Village People ou precisava mesmo de umas tais pílulas azuis.
   Arlindo olhou à direita, lá estava o maldito; à esquerda, lá estava o maldito; para frente ou para trás e aquela massa disforme e sebosa, no que se transformara o garanhão: um pangaré metido a besta.
   A tal Wanda se ofereceu até para pagar motel, pediu um vermute gelado, ensaiou streap tease e Arlindo, hipnotizado com os reflexos, ignorava por completo a exibição.
   Quase hora, com o rosto suado, finalmente olhou para os lados. Estava sozinho na suíte. Ele e os espelhos. Wanda sumira.
   Me disseram que, dois meses depois, o Arlindo foi visto comprando um terno completo risca de giz com gravata de seda italiana. Quem assinou o cheque foi uma tal de Eulália, a viúva de cinquenta e seis anos que mora numa cobertura de andar inteiro em bairro nobre da capital, e que por acaso é minha mãe.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O gato dá sorte!

    — Lito? Mas que é Lito? — indagou Rodolfo.
   — A descrição que consta nos autos refere-se a um filo chordata da classe mammalia, de ordem carnívora, da família felidae, do gênero felis, espécie f.silvestris, cujo nome trinomial é Felis Silvestris Catus — leu o homem de óculos grossos.
   — Puxa que legal! — sorriu Rodolfo — Mas onde ficam as terras mesmo?
   O homem ajeitou os óculos no nariz e seguiu lendo:
   — Consta que o Felis Silvestris Catus em questão denomina-se Lito e foi deixado como único item a ser herdado pelo senhor Rodolfo Hernani Perez, de sua tia Amanda Filomena Perez...
   — Só um pouquinho — interrompeu Rodolfo — Deixa eu entender, o que é Lito?
   O homem seguiu:
   — Consta pela descrição tratar-se de um felino domesticado, SRD, sem raça definida — completou o homem.
   — Não é arenito, basaltito, pedrito, qualquer coisa em cima de uns 50 hectares, não? — disse Rodolfo perplexo.
   — É um gato, meu senhor! — por fim, explicou o homem.
   Puff!
   Rodolfo, homem muito alto e de peso avantajado, resvalou no assoalho lustroso da peça. Ficou estirado que nem massa de panqueca.
   — Um gato? O senhor quer me dizer que eu herdei só um gato? — gritou Rodolfo, ainda estirado no chão.
   — Sim e vem acompanhado de uma carta de sua falecida tia. Agora,  será feita a leitura da mesma para ser registrada como tornada pública.
   — Que vergonha, tia sovina! — Rodolfo disse com muita raiva levantando devagar.
   O homem abriu a carta em papel linho, com cuidado, e leu:
   — Meu caro Rodolfo, o que te deixei parece pouco, mas tenho a lhe dizer, meu sobrinho querido, é que o gato dá sorte.
   Rodolfo começou a chorar descontrolado.
   Um dia depois e o gato foi entregue a Rodolfo em sua casa. Olhou para o bichano, um gato simplezinho, amarelo de peito branco.
   — Olha senhor Lito, vou te aceitar porque gostava daquela tia sovina. Mas não me incomoda, senão tu vai virar comida de cachorro, ok? — disse olhando o gato no olho.
   Mas o tal gato era muito fino. Veio com carta de recomendação. Horário certo para as refeições; só comia ração importada; atum nos fins de semana, mas sem óleo, tinha que ser o natural light. Levar no veterinário uma vez por semestre; e na petshop, todas as semanas para escovar o pêlo com mousse.
   — Amanhã estou dando o senhor para a vizinha, a mulher está viúva e já tem seis gatos, mesmo! — disse furioso.
   Mas naquela noite Rodolfo teve pesadelo muito real. A tia Amanda, tocando na barriga do gato, dizia que se ele fizesse isso também, "com muita fé, meu sobrinho", o gato ia dar sorte. Sentiu até o perfume de violeta que tia usava nas missas dominicais.
   Na terceira noite com o mesmo sonho, acordou suado, passou lenço umedecido no pescoço e foi procurar o gato. Lito estava na poltrona da TV dormindo em cima do controle remoto.
   — Agora eu te pego cara, vem cá! — falou alto Rodolfo.
   Esfregou com muita força a barriga do gato, ficou com um quilo de pêlos nas mãos.
  — Agora tu vai me dar sorte! Tô precisando de grana, tô quebrado! Vai me ajudar, ou te levo pra vizinha! — disse furioso.
   O gato olhou para Rodolfo e depois para a lata de atum, que estava sobre o aparador da cozinha.
   Meses passaram e Rodolfo insistia, afinal a tia seguia aparecendo em sonhos. Todas as noites e o mesmo sonho. Chamou padre, macumbeiro, o síndico, a ex-namorada, a vizinha, o médium, até o padeiro, e o sonho seguia.
   — O gato dá sorte! — falava em todos os sonhos a tia Amanda, esfregando a barriga do Lito.
   Nada acontecia. Rodolfo cansou e deu o tal gato para a vizinha viúva.
   — Pelo menos ela não vai sonhar com a tia, nem a conheceu mesmo!  — conformou-se Rodolfo.
   Alguns dias depois, e a vizinha foi acometida de mal súbito. Faleceu na cama, abraçada ao Lito e seus outros gatinhos. Rodolfo deu graças a Deus, que havia dado o tal gato.
   — Esse gato dá é azar! — disse ele.
   A irmã mais nova da vizinha herdou tudo e os gatos também. A última vez em que foi vista por amigos íntimos, estava esfregando a barriga de Lito, tem gente que ainda ouviu ela dizer:
   — Obrigada meu gato preferido, amanhã vamos para Paris, ganhei em concurso passagem e estadia em hotel cinco estrelas e você vai comigo! — disse soridente.

Dedico a todos que amam os animais, em especial à minha irmã Bel, com seus seis cachorros e cinco gatos (por enquanto), e que me ajuda um montão aqui no blog!

Ah! E o gato Lito é meu, não dou ele, mesmo!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Série "O" - Conto 10: O Ecologista

    Biodesagradável, era como o chamavam seus inimigos. De nome, José, também conhecido como Zé Plantinha para os parentes. Tia Dora dizia: "vem, a lasanha de espinafre está pronta". Família inteira vegetariana. Carne, nem o cheiro do churrasco do vizinho era permitido. Quando vinha forasteiro em primeira visita à família, era bem acolhido na sala. Aguardando bebida descafeinada, assistia ao DVD sobre dieta saudável. Se a pessoa se arriscasse em segunda visita, Dieta Saudável Parte 2. E sempre era assim.
 Ainda adolescente, Zé Plantinha abraçou árvore centenária. Gritou, argumentou, queria fato político. No mínimo dois jornais da cidade foram cobrir tamanha notícia, para desespero do agente municipal que tentava explicar o motivo da poda. Ops! Era apenas uma poda, mas vai explicar para o cara.
   Desespero de sua mãe, cinco anos depois, Zé Plantinha conseguiu namorada adepta do junke food: batata frita, cheeseburguer, refrigerante e ainda um salgadinho, um tal de Pegaditos com 100% de gordura trans. Mas apaixonado pela primeira vez, abriria tremenda exceção para aquela loira que nunca engordava, apesar do alto colesterol.
  Por vezes a questionava, afinal, quando se conheceram, por que ela tinha aquele adesivo do Greenpeace bem no meio do vidro traseiro do carro, e na direita o selo de proteção às tartarugas marinhas? Bem, mulher tem dessas coisas, pensou. Mas vou ficar com ela, é linda prá caramba.
  Com o tempo pensou em constituir família, mesmo que fosse com alguém assim tão diferente. Logo vieram os filhos. Zé Plantinha sugeriu nomes indianos tipo Shiva Alguma Coisa 1, Shiva Alguma Coisa 2, e assim por diante. Dessa forma tiveram três filhos: José Júnior, Paulo e João. Hoje, homens feitos, criados com boa picanha, cervejinha e ... batata frita. Colesterol alto é genético, diz a loira.
  E o casamento foi seguindo rumo certo até o dia do quinquagésimo aniversário de Zé Plantinha. Em visita aos pais para provar o mingau de banana. Na sala, Dieta Saudável Parte 1, para a vizinha nova da casa azul. Mas a moça morena, forte e peituda, estava com expressão normal. Quando disse nos créditos finais do DVD, olhando para todos que já conhecia aquele filme, Zé Plantinha se sentiu no auge. Encontrara a mulher da sua vida!
   Dias mais tarde, arrumando pretexto para vê-la novamente, foi devolver a tigela refratária que sua mãe havia pedido emprestada. Tocou a campainha. Tocou a campainha novamente e uma terceira vez. Morena atendeu Zé Plantinha com enorme sorriso, um gordo "oi" e uma coxa de galinha na mão esquerda, com pelanca e tudo.

Dedico a uma família que é muito unida e preza pelas questões ambientais e do próximo, meus amigos: Raquel (Rashmi), Fábio (Prasant), Joãozinho e Tainara.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Série "O" - Conto 9: O Novo Ano

   Madrugada do primeiro dia do ano, Bento retornava de cidade vizinha com a sogra, cunhada, esposa e filha. Passaram reveillón na casa da irmã dele. Boa comida, champagne, risadas, música e todos estavam cansados.
   Chegando na casa da sogra, às 3h, e cunhada de Bento dera pela falta da cachorra caçula, que ocupava a vaga de número seis no pátio. Os outros cinco caninos pulavam na roupa branca de Bento.
   — Mas onde está minha Kíki? — disse cunhada
   Kíki era o nome da fera. De apenas três meses, a pequena pastorazinha já media, em pé, quase a altura da sogra de Bento. Tinha as patas enormes, não a sogra; a cachorra da cunhada, ops! Não a cunhada cachorra, tá bom? O bichinho, mesmo!
  Logo se perceberam uivos, bem baixinhos, vindos da garagem. Numa excepcional obra arquitetônica, os pedreiros da sogra deixaram um vão de uns 15cm entre a garagem e o muro, não me perguntem porquê. Não deu outra, Kíki estava presa no vão, emparedada, de barriga para cima, usufruindo de sua infância canina e sua vida de cachorro, literalmente.
   Após conversa de minutos:
   — Preciso fazer um buraco na garagem para puxar a cadela — disse Bento
   — Tudo bem! — disse sogra com rosto verde e olhos gigantes
   E Bento começava o tuc-tuc. Mesmo não querendo assumir mais tarde, sentia um certo prazer em abrir buracão na garagem da sogra, no bom sentido, claro.
   Foi quase hora. Aberto o buraco, começava a sessão puxa-puxa. E nada. Puxa-puxa..., e nada. A cadela estava presa. Nova conferência: Bento, sogra, cunhada, esposa e até a filhinha opinavam. Conclusão: abrir buraco no muro pela parte externa, ficaria mais fácil puxar a bichinha. Cunhada, no desespero, chamou bombeiros e melhor amigo. Bento seguia sua romaria de preces e tuc-tuc.
   5h da madrugada, "tenho que tirar esse bicho, não pensei que passaria assim minhas primeiras horas do ano", resmungou Bento.
   — Estou pegando ela, alcancei! — gritou ele
  Puxou com força, entre latidos e mordidas, Bento, com a roupa toda manchada, mãos trêmulas, retirava Kíki do vão, após exaustivas horas.
   No mesmo momento, chegou a cavalaria. No Velho Oeste, sempre pontual; mas na vida real, a estatística era outra. Bombeiros e amigo da cunhada, tudo junto, para testemunhar grande feito.
   Bento ainda segurava a cadela, como se um bebê fosse, quando levou uma lambida gosmenta, do queixo até a testa. Se ouviu um "chulap" há metros de distância. Assim, Kíki fez seu primeiro agradecimento do ano.

Créditos do salvamento ao marido "Bento".
Agradeço também ao Volnei, sempre muito solicito, nosso grande amigo!



Essa é a nossa amiga Kíki, parece mentira, mas a história é real.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Série "O" - Conto 8: O Cunhado


   O cara é muito alto, 1,89m em pé, mas deitado parece que tem no mínimo 2,15m. Incrível como o sujeito cresce deitado no sofá da nossa sala. Esse é o meu cunhado. Ajeitadinho, loiro, olhos verdes, um pouco quieto, no peso certo e tem apenas duas paixões na vida: o computador e o nosso sofá. Até pensei em lançar novo conceito na arquitetura mundial, ao invés de sala de estar, por que não mudar a nomenclatura para sala de ficar? Cunhado sabe bem disso, se instala e vem para ficar. Anuncia fim de semana, mas emenda com o feriadão da outra semana.
   Se cuida e se alimenta muito bem. Café da manhã: dez pãezinhos franceses com muita manteiga, 800ml de leite, no mínimo, e ainda exige uma geleinha, quando não quer queijo e presunto. Ah! Ovos, somente cozidos, mas mal cozidos, molinhos, quase crus. É, cunhado dá prejuízo e sei bem disso, meu marido, irmão do talzinho, separa verba mensal para a hospedagem do moço, todo santo mês. Bem que poderia abater no imposto de renda. Sem falta, e o cara chega. Sempre com fome, simpático coitado, mas com todas exigências.
  Durmo pouco, sofro de insônia há muito tempo. Mas cunhado nem aí com isso, acorda sempre às 6h em ponto e já vai logo mexendo na geladeira, quando não liga o som e a TV. Mesmo em volume baixo, reduzo de cinco, para três horas, as poucas que tenho de sono.
   No último fim de semana, depois de repetir quatro vezes a lasanha, cunhado anuncia grande mudança em sua vida, que deveria ser comemorada por todos, inclusive por ele que, literalmente, comeria metade da torta de nozes.
  — Consegui emprego na área de informática em grande empresa — disse orgulhoso, engolindo a torta.
   — Parabéns! — fiquei contente.
   Cansado, com responsabilidade, talvez venha menos, ou traga um ranchinho, será?
  O tempo passando e cunhado engordando, criando barba, falando mal dos outros e juntando dinheiro. Apareceu menos vezes, mas as poucas, com mais fome ainda.
  — Trabalho cansativo, estou estressado — disse cunhado, entre uma dentada e outra no churrasquinho de domingo.
  Depois do almoço, se estirava religiosamente na rede, se tornava paisagem do jardim esverdeado. Dormia e dormia.
  Assim cunhado foi juntando muito dinheiro. Bom salário, economizando os fins de semana na casa do irmão e arranjara namorada rica que pagava tudo, mas feinha a pobre.
   — Mano, comprei casa lá no interior — disse cunhado — Vou demorar para vir em outro fim de semana.
   — Que pena... — eu disse aliviada.
  E a casa era muito boa, pequena, mas uma gracinha. Bem decorada, caprichada, geladeira cheia e TV bem grande.
   Meu marido e eu fomos visitá-lo. Ficamos todo fim de semana. Vingativa, abri toda hora a geladeira, me servi de tudo, exigi marca de refri e que fosse geladinho com pedaço de limão, e por aí afora. Chegada a noite, iríamos dormir na sala. Cunhado preparou confortável sofá-cama com lençóis cor lilás e cherinho de amaciante.
   — Boa noite! — disse cunhado, apagando a luz da sala.
   Minutos depois.
   — Meu amor — disse a meu marido.
   — Que houve mulher?
   — Que sofá booommmm!
   Dormi muito bem naquela noite.


Feliz ano novo a todos!
Que em 2011 tenhamos menos "malas" para aguentar; mas que seja um ano de boa bagagem de saúde, paz, amor e acréscimo em coisas boas!!!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Série "O" - Conto 7: O Papai Noel

   O nome dele era mesmo Noel. Desde pequeno adorava festas e distribuir presentes. Pais muito ricos, e Noel tímido. Com presentes caros, ganhava novas amizades e mantinha as velhas. Virou a sensação do bairro: o cara que distribui presentes. Mas Noel fazia isso em qualquer época do ano, nem esperava o Natal, para quê? Assim que sentia mau olhado, fofoca, inveja e mulher bonita. Mais presentes!
   Dinheiro não lhe faltava, seu pai era dono de uma rede de ferragens que dava muito lucro com o "boom" da construção. E Papai Noel, como ficou conhecido mais tarde, se beneficiava disso, tornando-se cada vez mais popular. Tinha até comunidade no orkut.
  Natal, e Noel trabalhava muito. Comprava brinquedos em quantidade e distribuía para as crianças. Cigarros para trabalhadores e charutos para empresários. E muitos presentes, em especial para as mulheres, sua segunda paixão depois de presentear.
   Mariana, Eufrásia, Godofreda, não interessava o nome, contanto que fosse volumosa. Não precisava nem falar, mas se quisesse agradecer, Noel tinha boa sugestão.
   Certa vez, a esposa de Cláudio, dono da academia de karatê do bairro, foi presenteada com finos brincos de ouro por Noel. Cláudio veio querer satisfação, tirando a camisa para o primeiro soco.
   — Ho, ho, ho — disse Noel.
   — Tá pensando o quê? — gritou o Cláudio furioso.
   — Ho, ho, ho — repetiu Noel.
   — Qué leva um soco agora, ou daqui a dez segundos?
   — Ho, ho, ho — novamente Noel — Tenho um presente para você.
   — Não vem com essa — disse Cláudio.
   — Ho, ho, ho. Tenho presente para você — disse Noel.
   — O que tu qué cara?
   — Ho, ho, ho. Tenho presente. Aceita?
   — Tá falando a verdade Papai Noel de araque? — disse Cláudio.
   — Juro pelo Papai Noel verdadeiro! — disse Noel.
   — O que é?
   — Ho, ho, ho. Antes tem que dizer se aceita.
   — Qual é, cara? — disse Cláudio.
  — Papai Noel só dá presente se você aceita. — disse Noel, enrolando a barba com o dedinho mingo.
   — Eu topo!
  Semanas depois, Cláudio foi visto em carrão sedã azul calipso, dupla carburação, pisando firme em primeira marcha.
  — Viu, esse foi fácil. Me livrei daquela bomba. Meu amigo chapeador fez a lata toda, parece novinho, mas o motor..., ho, ho, ho — disse Noel, agarradinho na mulher de Cláudio. Ops! Na ex-mulher.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Série "O" - Conto 6 - O Futebol 2


   Até um ano de casado, meu marido nunca me respondia a simples pergunta que vez por outra lhe fazia:
   — Para qual time de futebol você torce, meu amor?
   O cara ficava parado, olhava para os lados, depois sempre dizia:
   — Tanto faz..., não gosto de futebol, mesmo...
   Era sempre a mesma resposta. Tudo nas reticências...
   Eu sou roxa de tão azul pelo meu querido time tricolor gaúcho, Grêmio. E ele sabendo disso, esperou os 365 dias de casamento. Passado o primeiro ano de "ajuste" matrimonial, me olhou de soslaio e disse, num tranquilo café da manhã dominical:
   — Meu amor, acho que torço para o Internacional.
  Imagina, era só o Internacional, time arquirival do Grêmio. Coisa pouca... Sem dor nenhuma. Mas naquele dia, tive que dormir de tarde, a famosa "sestia", como dizem aqui no sul. Fiquei calma e a tal coisa foi ficando menor, menor, e fui esquecendo. Mas, algumas semanas depois, em visita a casa do sogro, conversando com uma cunhada, descobri que meu marido "achava" que torcia para o Internacional, há muito tempo, provavelmente desde que nasceu. Penso que na maternidade do Hospital de São Sebastião do Caí, tinha um menino chorando no ritmo da musiquinha: "Inter, clube do povo!" Um horror! Me senti traída. Produto defeituoso, sem possibilidade de troca. Passado um ano de uso, nem tinha como devolver o cara para seus pais, já tinha perdido a garantia.
   O cara é colorado? Tudo bem, fica calma... Espera aí! O cara é colorado? 
   Tudo bem se ele torcer para o Inter, é só futebol... Mas o cara é colorado?
   — Por que tu não me falou que era colorado? — disse furiosa.
   — Achei que não era importante — disse o marido.
   — Pois é, a questão não é tu torcer para um time adversário, é tu nunca ter dito nada. Parece traição, escondendo informação. Agente duplo da CIA? — disse mais furiosa ainda.
   — Quando a gente se conheceu, tu disse teu nome e logo já foi dizendo para que time de futebol torcia, como se fosse teu sobrenome: "Ana Grêmio" — disse marido.
  — Eu estava me apresentando para o senhor Pedro Internacional, que na época se chamava, Pedro não gosto de futebol — eu disse muito irritada.
  — Tu sempre falou que só ia casar com gremista, que a metade da cama estava reservada para um torcedor do Grêmio. Se eu dissesse a verdade... — disse o marido
  — Se eu dissesse a verdade, o quê? — perguntei.
  — Ora, não teria casado contigo! — disse marido.
  Segundos depois da última afirmação, que considerei algo do tipo: declaração de amor meio torta, deixei por isso mesmo. Afinal, é só futebol, deixa o cara se expressar. Fazer o quê, se meu princípe encantado era um príncipe encantado colorado? o que poderia tê-lo rebaixado a sapo...., mas tudo bem, de sapo não tinha nada. Tudo bem.
 Passados alguns anos da famosa revelação de meu marido, mais precisamente hoje, dia 20 de dezembro, há pouquinhos minutos atrás, minha filha de três anos, me olhou no café da manhã, deu sorrisinho e cantou:
  — Inter, clube do povo! Inter, clube do povo!— no ritmo certo, sem desafinar
 
Bom que tivesse sido ficção, mas tudo aí acima, com alguns enfeites, foi verdade, mesmo!


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Série "O" - Conto 5: O Futebol

   
   Vitor tem duas paixões, seu time de futebol e a esposa. Exatamente nessa ordem. Três anos de um casamento bem negociado, do tipo um cozinha e o outro lava a louça. O casal estava à espera de seu primeiro filho que nasceria em quinze dias.
   Naquela terça-feira, Vitor, entusiasmado, final de campeonato e seu time com chances de campeão. Amigos viriam buscá-lo para ir ao estádio. Tudo combinado, sem atrasos. Buzinaram na hora marcada.
   — Meu amor, o pessoal chegou, estou indo — disse Vitor.
   — Não sei não, tem uma coisa estranha, meu bem — disse esposa.
  — O que tem de estranho é que tenho que ir. É meu time, querida — deu beijinho no rosto da moça.
  — Não, espera meu bem! — disse esposa — minha barriga tá com umas dorzinhas.
   — Ah, não! Diz pro garoto se acalmar!
   Vitor tocou na barriga da esposa e falou:
   — Meu filho, dá um tempo, hoje é a final do nosso time, se acalma tá? Dá 
uma dormidinha aí, que te vejo na volta — disse, esfregando a barriga da esposa.
   Amigos buzinaram novamente.
   — Já vou! — gritou Vitor aos amigos.
   — Não, meu bem, espera! — disse esposa.
   Chuammmmmmm!
   — Que é isso? — perguntou Vitor assustado.
   — Meu bem, estourou a bolsa! O bebê vai nascer!
   — Essa não! — Vitor disse não acreditando — Que faço?
   — Meu bem, temos que ir ao hospital! — disse esposa.
   Vitor saiu para fora da casa, falou com os amigos, pediu conselhos, pensou em reza braba, até no professor de alemão da escolinha dos padres.
    — Faz assim, pessoal, vão para o estádio! Coloco ela no hospital e voo para lá — disse Vitor — Não perco mesmo esse jogo! Não sei como vou fazer, mas dou um jeito.
   Amigos foram ao estádio. Vitor tirou o carro da garagem e colocou esposa dentro. Em minutos, estavam no hospital. Em Fórmula 1, teria vencido Vettel muito fácil.
   — Aqui está! — Vitor disse à recepcionista, colocando a esposa numa cadeira de rodas.
   — Mas meu bem...— a esposa falou baixinho.
   — Meu senhor, tem que encaminhar a papelada, dar entrada nos 
 documentos, entendeu? — disse recepcionista.
   — Só faltava essa! — disse Vitor — Sempre a tal burocracia.
  Minutos passaram. Vitor sempre olhando no relógio. Como faço? Pensou. Assinara os papéis de entrada. Tudo estava encaminhado. Mas como faço? Orientaram que deveria colocar roupa adequada e se dirigir a sala de pré-parto. Mas como faço? Pensava Vitor.
  Como naquelas coisas que só acontecem em novela das oito, passou ex-colega do banco e reconheceu Vitor na recepção.
   — É você mesmo, cara? — disse Vitor, puxando o moço pelo braço.
   — Mas quanto tempo! — disse o moço — O que houve, parece assustado?
   — Me salva, cara, preciso que tu acompanhe minha mulher na sala de parto, é coisa simples, é só ficar com ela — disse Vitor — Preciso ir no jogo!
   — Tá louco? — disse moço.
   — Não te lembra que já te salvei da tua esposa, quando ela ia te flagar com outra? — disse Vitor nervoso.
   Não precisou mais que isso. Quando a enfermeira chamou o nome de Vitor, moço foi entrando e fazendo às vezes na sala de pré-parto.
   Horas depois, Vitor retornava ao hospital com rosto vermelho e voz rouca. 
Esposa deitada com bebê ao lado, quase dormindo, muito cansada, como se tivesse subido ao Everest duas vezes. Vitor olhou emocionado. Se sentiu duas vezes campeão.
   — Meu amor, te amo! — disse esposa, acordando.
   — Também te amo! — disse Vitor.
   — Você foi maravilhoso — esposa sorria — Será um ótimo pai! — disse com 
vagar — Segurou minha mão todo tempo na hora do parto e ainda me disse que nosso bebê é a sua cara.
   — Disse? — Vitor coçou a cabeça.


Time de futebol campeão do Humoremconto:
Deixe nos comentários por qual(is) time(s) de futebol você é apaixonado.
Qual será o time campeão dos seguidores do blog?