O cantor e compositor gaúcho Filipe Catto, um dos expoentes
da nova geração da MPB, disse num programa de TV que não existe música brega. Para
ele há apenas duas classificações de música, a que o comove e a que não o
comove. Ousado, gravou em seu primeiro CD, “Garçom”, de Reginaldo Rossi, um dos
ícones do chamado brega nacional.
Concordo com Filipe, pois penso que a arte verdadeira se
funda além-fronteiras, é democrática, rompe paradigmas: ela própria
é o alicerce da vanguarda e abre novas possibilidades.
Quando Andre Rieu, famoso regente e violinista holandês,
conhecido como “embaixador das valsas”, veio ao Brasil, causou certo alvoroço
no meio dito intelectual ao apresentar com arranjo erudito a música “Ai se eu
te pego”, popularizada na voz de Michel Teló. Para além de um possível jogo de
marketing, creio que Andre acertou na dose a proposta do que seja arte, ao transcender
o preconceito e o transformar em música acessível, agradável e impecável.
Não entrando aqui nos deméritos do lixo cultural, pois
existem ruídos que sequer podem ser chamados de música; mas o que é brega ou não,
talvez não tenha tanta importância mesmo. Impossível não reconhecer poesia, por
exemplo, na música “Fio de cabelo”, da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó,
onde um fio de cabelo comprido da amada encontrado no paletó “é um pedacinho
dela que existe”, que sacramenta o amor vivido. É a síntese da perda, do
desamor, da falta.
Outro exemplo, na música “Sabanas frías”, do grupo mexicano
Maná, a expressão “quisera viver, amor, amarrado a teus ossos”, pode parecer piegas
ou de uma dramaticidade exagerada se compreendermos apenas a imagem literal, porém,
se abstrairmos e pensarmos em existência, talvez não seja. Nessa ou em tantas
músicas, as possibilidades estão abertas a vereditos, interpretações, mas
também podem transcender a quem se comover com elas, e neste momento, estará se
cumprindo a arte por excelência.
Saber conviver e estar disponível à harmonia com o diferente,
aberto às possibilidades da arte, às pessoas, à vida, isso é ser elegante. É
pedir ao garçom uma cerveja, se é o que você quer beber; e não Veuve Clicquot
apenas para impressionar. Eis a lição para nossa vida da música como arte: transcender-se,
simplesmente.
Garçom - interpretação de Filipe Catto
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Pessoal, o blog completou dois anos no dia 18 de novembro. Agradeço imensamente a todos que fazem parte
dessa história, acompanhando com a leitura, comentários e toda interação
possível dentro dessa magia chamada blogosfera. Agradeço também aos amigos que fizeram parceria literária comigo, com certeza cresci muito com esses diálogos.
A partir de
agora, as postagens serão esporádicas, mas sempre preparadas com todo o
carinho. Também decidi manter o nome de origem: Humor em Conto, apesar de que os
textos serão bem variados, mas fieis a marca que sempre os caracterizou.
Um abraço do
tamanho do mundo para vocês!
