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sábado, 8 de dezembro de 2012

Vo-voar é para pa-pássaro

Desenho de autoria da minha filha Luíse de 5 anos.

   Contam que um instrutor de voo que era gago falava com certa frequência: “vo-voar é para pa-pássaro”. Nunca con-concordei tanto com a-a-algo.
   Quem tem ‘respeito’ por avião tem certeza que voar é para pássaro. Na eminência de pegar um voo direto Porto Alegre-Lisboa no último dia 4 de outubro, para driblar esse ‘respeito’, comprei um colar com círculos de todos os tamanhos, logo pensei que na hora de decolar poderia ser boa estratégia para despistar meu inimigo interior, se ficasse contando as bolinhas, mas enquanto aquela coisa subia nem me lembrei se tinha pescoço, quanto mais colar.
   Dias antes, visitando amigos, um recomendou-me tomar um remedinho “você dorme e só acorda quando chega lá”, logo descartei isso, pois dizem que tudo que ingerimos tem o efeito dobrado lá no ar... humm.... pressão baixa, medo, e remedinho vezes dois? O outro amigo disse que eu não me importasse, porque se acontecer algo é tudo muito rápido... (rápido?... O quê?), foi quando marido assinalou com a fala definitiva: “Ana tu não vai acabar assim”, (mas existia essa possibilidade de... de...? SOCORRO!).
   É entrar no avião e começa a seção tortura: livrinho com ilustrações de “o que fazer em caso de emergência”, com bonequinhos sorridentes, - se as companhias aéreas fossem francas, seria um livro em branco. “Cairão máscaras de oxigênio”, “embaixo da poltrona você encontrará o colete salva-vidas”... (SOCORRO!)
   Nessa hora todas as frases clichês do tipo: “você tem que enfrentar seus medos”, parecem clichê em dobro, talvez efeito dos pés de altura. E ainda mais o voo teria 10h45 de duração, simmmm... significa ter medo de uma coisa e ter que ficar dentro dessa coisa todo esse tempo: o regulamentar, mais prorrogação e pênaltis.
   Entre decolar e até o avião emparelhar, se é que aquilo emparelha, tenho vertigem e descobri que existe um cardápio delas – vertigens para frente, para os lados..., e nada de sentir minha fisgadinha da sorte no joelho. Pois tenho há muitos anos “uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito” – foi assim que o ortopedista se referiu. Não sei por que, mas toda vez que sinto a dorzinha da lesão acontece algo bom, mas nada de senti-la... Depois de algumas horas de voo, ela começou. Aleluia! Para comemorar, levantei-me – sim eu caminhei no avião! – e me dirigi aos fundos para pegar um copo de suco ‘natural’ de laranja.
   O que me impressiona é como dormem dentro daquilo, tinha um sujeito atrás de mim que roncava! Será que tomou o remedinho? Lembrei-me de algumas milongas preferidas, esse ritmo dos pampas que sempre me acalma, e arrisquei ir ao toillet, foi quando descobri que não sentia medo dentro do banheiro do avião, por quê? E tornei-me assídua frequentadora.
   Nunca entendi também porque as turbulências se intensificam na hora da refeição. Será que só eu percebo isso? Mas..., não comer a sobremesa no último jantar do Titanic pode não ter sido a opção certa. Então, minha comida sumiu rapidinho.
   Durante o voo, não consegui assistir ao filme ‘El cuento chino’, com meu ator preferido Ricardo Darín, não me concentrei, - perdón, Darín. Então deixei no desenho dos Flintstone, e o “Yaba Daba Dooo” funcionou! Digamos..., mais de duzentas vezes.
   E finalmente o comandante anunciou os procedimentos de aterrissagem. De novo esqueci de contar as bolinhas do meu colar, mas me agarrei ao golfinho de pelúcia que minha filha levava, até ouvir o ruído do ‘puf’. Estamos em terra firme, é a glória do puf! Além disso, a certeza de que se vo-voar é para pa-pássaro, viver é para todos nós.
   Por terra, mar ou ar, nos agarremos às oportunidades sem pensar se serão únicas, porque tentar viver vale mais que muitos me-medos. Boa viagem!

Durante o voo, tentando disfarçar o me-medo,
enquanto um sujeito lá atrás dormia e ainda com a janela aberta (SOCORRO!)

Iahuuuu! Chegada no aeroporto de Lisboa! 
Viva à Terra-Mãe!
Recompensa: sentir a liberdade ao lado de um penhasco em Zambujeira do Mar,
ali, pertinho do céu!
Nem me lembrei que tenho medo de altura.

No penúltimo dia, em Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa,
foi quando me dei conta que não poderia regressar nadando...

Sugestão de música para tranquilizar - milonga uruguaia para a alma.

Amargo de caña - Ana Prada