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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1 grau: Montevideo - New York

Fotografias de Pedro Costa

- Histórias de Viagem - Episódio 2 -

   21 de julho, 2013 - domingo - Cidade de Montevidéu, capital do Uruguai.

   Ainda pela manhã, próximo ao meio-dia e um frio de 1 grau centígrado com sensação térmica de bem menos..., o suficiente para doer os dentes ao sorrir. Nuvens escuras, um vento forte vindo do Mar del Plata (Rio da Prata – que emoldura toda cidade).
   Montevidéu é uma capital peculiar, com um centro de arquitetura clássica em art-deco e art-noveau, convivendo com prédios mais modernos e ecléticos. Apesar de concentrar praticamente a metade da população de todo o país, incluindo a região metropolitana, conserva recantos de cidade do interior, por vezes; e um centro de grande cidade, que bem pode lembrar Nova Iorque, mas... será que não é?






  Caminhando na principal avenida, a 18 de Julio, observei que algumas quadras estavam fechadas ao trânsito. Havia uma grua com luz, fumaça de gelo seco, luz, câmera..., ación? Mas o que é isso?
   Sim, era o que eu pensava, um set de filmagens em plena 18 de Julio. Coisa possível nesta cidade que é grande, comporta o status de capital, mas ainda assim não fica em caos tendo algumas quadras fechadas. Não, se isso for num domingo de 1 grau centígrado.




  

   Soubemos que se tratava das gravações de uma propaganda do café de uma indústria Suíça muito conhecida. Qualquer publicitário adoraria acompanhar essas filmagens, e por acaso, eu estava lá.
   Ainda nos inteiramos que têm sido realizados com certa frequência comerciais de grandes empresas mundiais de diversos segmentos ambientados no centro de Montevidéu. Recentemente, passa um no Brasil de marca famosa de calçados esportivos que foi feito na Plaza Independencia.
   Entrando nas duas quadras fechadas ao trânsito, mas não aos pedestres curiosos, parecia que se estava caminhando mesmo em Nova Iorque. As placas das ruas, dos carros e outras das calçadas foram trocadas por simulações norte-americanas.



   Quietinhos mas nem tanto, observamos: a cena consistia na filmagem do casal protagonista no trânsito movimentado. Ao ouvir o chamado do diretor, os mesmos figurantes atravessavam a avenida, os automóveis davam a partida, o guarda de trânsito fazia os sinais. Tudo do mesmo jeito nas várias tomadas que acompanhamos. E algumas curiosidades: os figurantes usavam roupas de meia-estação, dispensa dizer que não era tarefa fácil naquele frio todo. Além disso, o carro dos protagonistas não pegou num primeiro momento, para riso geral.

Figurantes na pausa das gravações.
Automóvel com os protagonistas.

   
   A sensação foi de estar em Nova Iorque ou qualquer outra grande cidade dos Estados Unidos. O cuidado com os detalhes na produção, por instantes, me fez pensar em ter viajado para um país e chegado em outro. Quase uma viagem dentro de outra. Sensação quebrada pela conversa aqui e ali com os simpáticos figurantes uruguaios. Nesse momento, voltei ao Uruguai, ainda que ali tudo parecesse ter sotaque mais longínquo, tínhamos o vento charrua, o sorriso e a disposição de quem não tem medo do frio. E a certeza: Montevidéu é uma capital tão especial que nela cabe o mundo.


Dedico ao Pedro, meu companheiro de todas viagens.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Banho à francesa

Paris, 2002 - fotografias ainda em câmera analógica.

   - Histórias de Viagem - episódio 1 -

      Paris, 2002.

   Minha professora de francês já havia me ensinado o verbo “débrouiller”, o famoso “se virar”, ou ainda o mais famoso: “jeitinho brasileiro”. E que em algum momento na França eu teria que dar esse jeitinho, considerando que tinha apenas um semestre de estudo em língua francesa. Isso estava me tirando o sono tanto quanto o medo de subir no avião.
   E não foi, mesmo, que precisei usar o tal jeitinho?
   Finalmente eu e o marido em Paris – Cidade Luz! Uh lá lá! Desde meus nove anos sonhava em conhecê-la, quando a professora de Educação Artística projetou slides da Notre Dame, Museu do Louvre e de muitos dos encantos da capital francesa. Minha decisão de menina: vou conhecer Paris!

Museu do Louvre
   2002 - época em que fomos pela primeira vez, não havia ainda a difusão de sites de reservas de hotéis, que geralmente são confiáveis, onde se procura ofertas adequadas ao bolso, localização e tipo de dormitório pretendido. Tínhamos, então, o endereço de uma pousada recomendada por uma amiga, localizada não muito distante da estação ferroviária, e com disponibilidade de leito.
   Chegando lá, um prédio muito antigo, mas reformado. Fomos até a recepção e tentei arriscar uma das poucas frases que sabia em francês, mas esqueci..., então: “Vous parlez espagnol?” – foi o que me ocorreu, se a moça da recepção falava espanhol, no que me respondeu: “poquito”. E assim “hablamos”.
   Descobrimos que havia duas opções de dormitório: com banheiro apenas com a privada; ou com banheiro apenas com a ducha. Não perguntem por que... Optamos pelo banheiro com a ducha.
   Pelo menos tudo era limpinho e acolhedor, mas na hora do banho... Olhei para a ducha e mais abaixo o botão do registro. Torci para um lado e outro. Mas como se liga isso? Fazia um frio de menos de 10 graus, e eu desafiando meu pobre Q.I. cansado da viagem de trem. Foi quando apertei o tal botão, coloquei a mão para testar antes de entrar: a água quentinha, maravilha! Entrei no box, e a água parou... Como assim, a água parou? – Peeeeeeeeedrrrrrrrooooo, me salva! – gritei ao marido.
   Ficamos os dois tentando entender aquilo tudo, até que ele apertou novamente o tal botão e veio a água, mas percebemos que o botãozinho começava a voltar para frente até que a água parava. E ali estávamos numa nova descoberta: um banho com temporizador que mais parecia uma torneira de shopping center. Mas detalhe: a água escorria por no máximo 30 segundos. What?!
   Então entrou o famoso “jeitinho brasileiro”. Descobri que se ficasse de costas, poderia pressionar o botão com o tronco e obter uma água contínua por muitos minutos. E se ficasse de frente, poderia apertar com uma das mãos o tal botão e passar o sabonete com a outra..., mas uma vez vacilando, logo a água parava.
   E assim, foi meu primeiro banho à francesa: inesquecível e sinistro.

Eis aqui a "prova do crime" - o banho à francesa!
   No final da noite, salmão, queijo brie e vinho Beaujolais.
   Na manhã seguinte, depois de um ‘petit déjeuner’ com mini pão e xicrinha de café frio, fraco e... Para quem está acostumada ao café da manhã gaúcho? Nem pensar, tchê! Solução: novo hotel. Mas isso é outra história...

Café da manhã... e minha insatisfação...


... por sorte, em Paris sempre se dá um jeitinho!

Novas viagens......................................................

   Pessoal, vou intercalar as crônicas de assuntos diversos que publico em jornais do país e já venho postando aqui no blog; com histórias verídicas de viagens, que não tem a pretensão de serem dicas, mas curiosidades bem-humoradas e algumas até assustadoras...
   Senti a necessidade de registrar o que nem sempre os turistas contam, ou o que nem sempre contam aos turistas.
   Relatos ainda em preparo: o fantasma de Veneza; Hallstat - a cidade encantada na região dos Lagos, Áustria; o dia que comprei um bumbum, em Praga, na República Tcheca; abraço brasileiro em Nice, França; Hungria para inglês ver: uma conversa esquisita com o clone de John Lennon; first class, em Heidelberg, Alemanha; a senhorinha do metrô de Paris - visão ou fato?; o choro em Fátima, Portugal; dolce far niente, em Camogli, Itália; flores roubadas ao mestre Wilde, no cemitério Père Lachaise, em Paris; o inusitado arco-íris no Cabo da Roca; a mística de Santiago de Compostela e o que nem sempre se conta sobre o caminho...; brasileiras em Gênova - um almoço inusitado; a Casa da Águia, no Uruguai; o dia da devolução, em Niterói, Rio de Janeiro; Pampas do Rio Grande do Sul e mais sobre a excêntrica capital porteña de Buenos Aires.
   Como o tempo é curto para quem escreve, e também para quem lê, seguirei postando com intervalo maior entre as publicações como já venho fazendo, mas agora intercalando as crônicas com as histórias de viagens.

   E fica aqui o convite para viajarem comigo, o que não significa dizer que vai ser uma coisa necessariamente segura...

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando"
- Mário Quintana -
(fotografia- no hotel Laje de Pedra, em Canela - RS, 5 de maio de 2013)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Domingo diferente

Fotografias de Pedro Costa - Autódromo de Estoril, Portugal

"...da quando Senna non corre più... non è più domenica e non si dimentica."

Desde que Senna não corre mais... não é mais domingo, e não se esquece.
(música de Cesare Cremonini – Marmellata #25)

   28 de agosto de 1992 – Treino de classificação do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, o francês Érik Comas sofreu um acidente e seu carro ficou atravessado na pista ainda ligado. O piloto que vinha atrás, quebrando o protocolo, parou e foi ao encontro de Érik, desligando o motor para evitar uma explosão. Nome do piloto: Ayrton Senna.
   1 de maio de 1994 – Curva Tamburello, Grande Prêmio de San Marino. Um piloto, ao ver que Ayrton Senna havia se acidentado gravemente, saiu do box com seu carro, chegou ao local passando a barreira da segurança, mas foi impossibilitado de prestar socorro. Nome do piloto: Érik Comas.
   Mais tarde, Comas afirmou em entrevista à rede francesa: “Ele salvou minha vida, mas cheguei muito tarde. Fui o último piloto a vê-lo. Foi difícil aceitar que tive a honra de fazer a última visita antes de ele ir embora. Para mim foi o fim do livro da Fórmula 1” (fonte: globoesporte.com).
   A consagração na revista inglesa Autosport em 2009 por 217 ex-pilotos que o elegeram como o maior de todos os tempos; o que também fez a britânica BBC em novembro passado (fonte: Gazeta Press), legitimou o que todos seus fãs já percebiam.
   Ao lembrar de Senna pelo que mais me tocou, diria que ele proporcionou aos torcedores da Fórmula 1 um domingo diferente. Aquele em que acordávamos mais cedo para passar o café, pois sabíamos que assistiríamos no mínimo a um espetáculo. E isso aconteceu a diversas famílias do mundo, independente do continente ou fuso horário.
   Ayrton fez um domingo diferente no GP de Mônaco em 1984, quando seu limitado Tolemans saiu do 13º lugar no Grid e chegou em primeiro sob chuva torrencial; mas com a prova paralisada, foi concedida a vitória à Alain Prost, que havia sido ultrapassado pelo brasileiro momentos antes. Até que em 21 de abril de 1985 aconteceu sua primeira vitória no autódromo de Estoril em Portugal, abaixo de mais chuva. Fora das pistas, suas colocações inteligentes e energia na defesa da segurança dos pilotos também se fez domingo diferente em qualquer dia da semana.



   


   25 de outubro de 2012 – quinta-feira, chuva no autódromo de Estoril, e lá estava eu no cenário da primeira vitória de Senna. Na noite anterior, a recepcionista do hotel, ao nos perceber brasileiros, comentou sobre o piloto; depois foi o garçom e um rapaz no autódromo, todos com saudosismo. E agora eu observava a pista e as arquibancadas vazias. Não ouvia o ronco dos motores, nem a Lotus passar em primeiro na linha de chegada, mas tive a certeza de que nosso brasileiro também era português, japonês, italiano, francês..., era do mundo.
   Muitas vezes me perguntei por que algumas pessoas chegavam mais cedo para a festa lá no Céu, quando ainda queríamos tanto a companhia delas. Hoje sei a resposta: porque Anjos sempre voam mais rápido.


   “Há um grande desejo em mim de sempre melhorar. Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos, que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja o que for, e então não fico muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente como piloto, mas como pessoa.” - Ayrton Senna     


Senna salvando Érik Comas - 1992

Érik Comas vai à Tamburello - 1994

Primeira vitória de Senna em 1985 - Estoril, Portugal


*Crônica publicada também no Diário Popular de Pelotas,
Diário de Viamão, VS (São Leopoldo).

sábado, 8 de dezembro de 2012

Vo-voar é para pa-pássaro

Desenho de autoria da minha filha Luíse de 5 anos.

   Contam que um instrutor de voo que era gago falava com certa frequência: “vo-voar é para pa-pássaro”. Nunca con-concordei tanto com a-a-algo.
   Quem tem ‘respeito’ por avião tem certeza que voar é para pássaro. Na eminência de pegar um voo direto Porto Alegre-Lisboa no último dia 4 de outubro, para driblar esse ‘respeito’, comprei um colar com círculos de todos os tamanhos, logo pensei que na hora de decolar poderia ser boa estratégia para despistar meu inimigo interior, se ficasse contando as bolinhas, mas enquanto aquela coisa subia nem me lembrei se tinha pescoço, quanto mais colar.
   Dias antes, visitando amigos, um recomendou-me tomar um remedinho “você dorme e só acorda quando chega lá”, logo descartei isso, pois dizem que tudo que ingerimos tem o efeito dobrado lá no ar... humm.... pressão baixa, medo, e remedinho vezes dois? O outro amigo disse que eu não me importasse, porque se acontecer algo é tudo muito rápido... (rápido?... O quê?), foi quando marido assinalou com a fala definitiva: “Ana tu não vai acabar assim”, (mas existia essa possibilidade de... de...? SOCORRO!).
   É entrar no avião e começa a seção tortura: livrinho com ilustrações de “o que fazer em caso de emergência”, com bonequinhos sorridentes, - se as companhias aéreas fossem francas, seria um livro em branco. “Cairão máscaras de oxigênio”, “embaixo da poltrona você encontrará o colete salva-vidas”... (SOCORRO!)
   Nessa hora todas as frases clichês do tipo: “você tem que enfrentar seus medos”, parecem clichê em dobro, talvez efeito dos pés de altura. E ainda mais o voo teria 10h45 de duração, simmmm... significa ter medo de uma coisa e ter que ficar dentro dessa coisa todo esse tempo: o regulamentar, mais prorrogação e pênaltis.
   Entre decolar e até o avião emparelhar, se é que aquilo emparelha, tenho vertigem e descobri que existe um cardápio delas – vertigens para frente, para os lados..., e nada de sentir minha fisgadinha da sorte no joelho. Pois tenho há muitos anos “uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito” – foi assim que o ortopedista se referiu. Não sei por que, mas toda vez que sinto a dorzinha da lesão acontece algo bom, mas nada de senti-la... Depois de algumas horas de voo, ela começou. Aleluia! Para comemorar, levantei-me – sim eu caminhei no avião! – e me dirigi aos fundos para pegar um copo de suco ‘natural’ de laranja.
   O que me impressiona é como dormem dentro daquilo, tinha um sujeito atrás de mim que roncava! Será que tomou o remedinho? Lembrei-me de algumas milongas preferidas, esse ritmo dos pampas que sempre me acalma, e arrisquei ir ao toillet, foi quando descobri que não sentia medo dentro do banheiro do avião, por quê? E tornei-me assídua frequentadora.
   Nunca entendi também porque as turbulências se intensificam na hora da refeição. Será que só eu percebo isso? Mas..., não comer a sobremesa no último jantar do Titanic pode não ter sido a opção certa. Então, minha comida sumiu rapidinho.
   Durante o voo, não consegui assistir ao filme ‘El cuento chino’, com meu ator preferido Ricardo Darín, não me concentrei, - perdón, Darín. Então deixei no desenho dos Flintstone, e o “Yaba Daba Dooo” funcionou! Digamos..., mais de duzentas vezes.
   E finalmente o comandante anunciou os procedimentos de aterrissagem. De novo esqueci de contar as bolinhas do meu colar, mas me agarrei ao golfinho de pelúcia que minha filha levava, até ouvir o ruído do ‘puf’. Estamos em terra firme, é a glória do puf! Além disso, a certeza de que se vo-voar é para pa-pássaro, viver é para todos nós.
   Por terra, mar ou ar, nos agarremos às oportunidades sem pensar se serão únicas, porque tentar viver vale mais que muitos me-medos. Boa viagem!

Durante o voo, tentando disfarçar o me-medo,
enquanto um sujeito lá atrás dormia e ainda com a janela aberta (SOCORRO!)

Iahuuuu! Chegada no aeroporto de Lisboa! 
Viva à Terra-Mãe!
Recompensa: sentir a liberdade ao lado de um penhasco em Zambujeira do Mar,
ali, pertinho do céu!
Nem me lembrei que tenho medo de altura.

No penúltimo dia, em Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa,
foi quando me dei conta que não poderia regressar nadando...

Sugestão de música para tranquilizar - milonga uruguaia para a alma.

Amargo de caña - Ana Prada

sábado, 30 de junho de 2012

Jet lag emocional


Eu e meu amigo Luciano Werhli.
Pessoal, fiquem com esta crônica* que escrevi inspirada em conversas com meu grande amigo Luciano Werhli.

   O jet lag é uma fadiga que acontece quando viajamos de avião e atravessamos diversos fusos horários, e ocorre uma descompensação entre o ritmo horário em que e a pessoa estava habituada, e o novo horário do local de destino. O ritmo padrão que o corpo respondia às necessidades básicas é alterado. Entre as consequências, ocorre uma espécie de insônia, pois o organismo não consegue adequar-se ao novo horário de dormir; ou mesmo a pessoa tem sono, quando não deveria.
   Conversando sobre viagens com grande amigo, pois concordamos ser uma das melhores coisas que se pode fazer na vida, começamos a trocar experiências, dicas e curiosidades, e a falarmos de lugares e países inesquecíveis. Não demorou para que escolhêssemos Paris, a “Cidade Luz”, como talvez a mais belíssima experiência como viajantes que tivemos até então.
   Paris é uma cidade que se descobre aos poucos. Quando estive por lá pela primeira vez, cheguei de trem da Espanha, ao desembarcar e sair da estação ferroviária caminhei um tanto, e pensei: “É só isto? Isto é Paris?”. Já instalada no hotel, fui explorar o território, mas a cidade – antiga Lutécia como batizada pelos romanos - é sedutora sutil e envolve nos detalhes. Nas ruelas, nos cafés, num arabesco incrustado na ponte, no velho do realejo na rua Mouffetard, na abóboda do Petit Palais, no quiche lorraine da padaria que tem mais de 200 anos. E assim, eu e meu amigo concordamos sobre Paris e logo começamos a sentir uma fadiga que nomeei como: jet lag emocional.
   O jet lag emocional, expressão que criei, penso que se faz adequada quando se tem a sensação de descompensação entre o lugar em que se está e onde se desejaria estar. E ali, dois amigos com vontade de retornar à Paris, mas estando a mais de 10.000km de distância, o que causou tamanha nostalgia e a fadiga eminente mesmo entre xícaras de café.
   E quantas vezes não nos encontramos numa absurda distância entre dois cenários? Ou a expectativa e a realidade? Os sonhos e sua concretização?
Há os que digam que não se deve criar expectativas nas coisas, para que não haja a decepção. Na minha visão, a expectativa caminha junto com os sonhos; e a decepção com a ilusão. Qual você escolheria?
   Correr o risco do jet lag emocional parece-me mais sábio. A vida é curta, e Paris - aqui um cenário de sentindo amplo, o destino desejado há muito - é logo ali, para quem sabe honrar cada dia de sua existência.










Dedico ao meu amigo Luciano e a todos apaixonados por viagem.

*Crônica publicada nos jornais: NH (Novo Hamburgo), Diário Popular (Pelotas), 
VS (São Leopoldo), Correio de Gravataí e Diário de Viamão.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De volta a Porto Alegre

   
    Saindo de Buenos Aires, voltei para Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, estado mais ao sul do Brasil, cidade com aproximadamente um milhão e trezentos mil habitantes, e onde nasci.
   Estranha ligação que qualquer pessoa tem com o local em que nasceu, mesmo que não more mais lá, que é meu caso, mas ficamos com um fio de Ariadne, invisível que nos orienta.

Hospital Moinhos de Vento, onde nasci.
Igreja católica Nsa. Sra. Auxiliadora,
participei do grupo de jovens daqui,
discussões importantes para a formação social e política.
Parque Moinhos de Vento,
conhecido como Parcão.
Rua Gonçalo de Carvalho.
Porto Alegre é uma das
cidades mais arborizadas do país.

Sede antiga dos Correios.
Museu de Artes do Rio Grande do Sul.
Catedral Metropolitana de Porto Alegre.

Avenida Júlio de Castilhos. À direita, Mercado Público;
à esquerda, Palácio do Comércio.
   Porto Alegre reflete a alma gaúcha com perfeição. Nos antepassados, a revolução de 1923: Chimangos ou Maragatos. Na política: esquerda ou direita. No futebol: Grêmio ou Inter.

Teatro São Pedro.




Palácio do Governo do estado do Rio Grande do Sul.
Estádio do Sport Club Internacional.

Usina do Gasômetro.
Hoje, local de exposições, oficinas artísticas e montagens teatrais
.
Cais do Porto.
Estádio do Grêmio Foot-Ball Portoalegrense. (!!!)
   Quem nasceu por aqui, sabe muito bem o que quer e o que não quer, apareceu nesse mundo numa cidade que é preta ou branca, com poucos meios tons que sempre têm contraste definido. Talvez por isso fale, teorize, argumente até chegar ao ponto final, que sempre parece distante. Grande esporte praticado por portoalegrenses, a troca de ideias, que até pode se transformar em verdadeira peleia.
   Porto Alegre, cidade dos encantos do poeta gaúcho Mário Quintana, nascido no Alegrete, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, em minha opinião. Muitos testemunharam suas caminhadas pela rua dos Andradas, conhecida como Rua da Praia, fechada aos automóveis, onde as pessoas podem circular livremente. Dizem que ele parava e observava os prédios, ou olhava para o chão concentrado. O certo era não interromper o poeta. E assim foram fecundados muitos de seus poemas.

Antigo Hotel Majestic,
onde residia Quintana...

   


...hoje, Casa de Cultura Mário Quintana.
   Porto Alegre, um dos antigos nomes: Porto dos Casais. Homenagem à chegada de casais açorianos em meados do século XVIII. Nestas terras que tem um lago que chamam rio, uma alma disso ou daquilo, e talvez o por do sol mais lindo do mundo. Será? Para quem nasceu aqui, sim!


   Quando o sol briga para pousar no rio Guaíba, este cede depois de muito diálogo para formar um dos maiores espetáculos da natureza. Nesse momento, se o Porto não era Alegre, ele se transforma, se reinventa, na cidade de Porto Alegre.



O Mapa
Mário Quintana*

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

* Nascido em Alegrete no dia 30 de julho de 1906.
Saiu de Porto Alegre em 5 de maio de 1994, para a festa do Céu.

Dedico ao poeta maior, Mário Quintana.