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| O Peixe - nanquim sobre papel couchet - de Ana Cecíla Romeu* |
Foi divulgado pelas redes sociais a comemoração de dois dias: o dia das saudades - 30 de janeiro (como se essa velha senhora tivesse um dia certo para aparecer); e o dia do publicitário - 01 de fevereiro, minha profissão desde meus 17 anos. Compartilhei fragmentos que por aqui também deixo.
Primeiro tempo: saudades
- Último parágrafo de uma crônica ainda em construção -
Sal-dades
Saudades se resolvem no cartão de crédito com saldo ilimitado, assim se viaja por ar, mar e terra; se ama, (re)ama e conjuga o verbo (a)mar, porque só no crédito incondicional temos mais tempero no prato do dia, aquele prato simples, o pronto que nada se espera, mas quando provamos, sentimos o gostinho de comida da mãe, - até se o arroz está um pouco empapado, ou o feijão grudou no fundo da panela -, mas a memória do paladar se transforma em saldo perene. E assim se cumprem as saudades: na presença da ausência que ainda se fará.
Segundo tempo: o publicitário
Essa profissão nos faz descobrir que podemos sobreviver apenas com 4 horas de sono, e às vezes nenhuma; que podemos contar o mundo em 15 segundos; que criatividade não é obrigação, é matrimônio; que público-alvo é a pessoa por quem nos apaixonamos e a única que devemos ouvir sem questionar; que as críticas devem ser selecionadas e quase sempre ignoradas; que as críticas sempre virão, então existe a palavra "foco" - com esta namoramos, noivamos, casamos, mas principalmente temos que fazer amor; que discutir a relação com o cliente sempre é uma coisa boa; que podemos escrever a qualquer hora e sob quaisquer condições; e que os rabiscos nem sempre precisam de uma arte-final; que muitas vezes a Grande Ideia vem sem avisar, e precisamos estacionar o carro no acostamento, ou sair da piscina correndo para buscar o bloco de anotações no vestiário; que devemos ler de tudo, prosa, poesia, bula de remédio e anedota de marciano, mas principalmente, ler pessoas, são elas as que mais nos ensinam; que o serviço não é para ontem, é para anteontem; e por fim, descobrimos que o relógio é sempre pontual.
Ser publicitário não é fácil, mas ninguém nos enganou, já sabíamos disso, pois amamos o difícil!
Prorrogação
E tanto em comum nos dois tempos, e quanto das saudades e do nosso trabalho pontuam esse tempo, o relógio que cronometra e o que esquece; o tempo passado que teima em ser futuro; o impossível, a luta contra o impossível e todos os possíveis que podem se fazer numa Grande Ideia, num Grande Amor ou tudo aquilo que for digno de saudades e o que for digno do ofício; ou o ofício das saudades, ou as saudades do ofício. E o foco: no trabalho, a concentração; nas saudades, a desconcentração e o desconcerto. Arrumando a vida em fusos e confusos, o trabalho e os sentimentos; em inverso, os sentimentos com e sem trabalho, a vocação, o ofício, a profissão, os amores, as amizades, o que gostamos e o que evitamos, o que apagamos e o que salvamos, tudo que nos compõe nesse encaixe de peças que chamamos de vida, em dois tempos ou mais.
*Mostrei essa ilustração, O Peixe, em entrevista para meu segundo emprego.
Guardo ela como um pedaço daquele tempo de muitas tentativas.
Guardo ela como um pedaço daquele tempo de muitas tentativas.
