quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sobre o nada

Fotografia de Pedro Costa - Reserva ecológica do Taim - RS

Procuro a voz do sereno
Nesses versos que componho;
Não sou grande, nem pequeno:
Meu tamanho é do meu sonho!
(fragmento de Milonga de andar caminhos, de Marcelo Dávila).


   Hoje decidi escrever sobre o nada. Nada não é o algarismo 1, nem sua escala negativa, o -1. Nada é como se fosse o zero que apesar de ser um número, coisa alguma representa. Mas como tudo é relativo, um zero à esquerda é o próprio número; e à direita, outro número.
   Recordo que quando cursei a oficina de contos do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, houve exercício literário em que precisávamos descrever um molho de chaves caindo de uma mesa e deveríamos usar o máximo de palavras para essa única cena que, em tempo real, não dura mais que alguns segundos. Maravilhoso exercício de forma, tecer letras em urdidura de um quase-nada que me rendeu em torno de duas laudas de... quase-nada.
   Por falar em quase-nada, fiquei pensando em quantas amizades de anos e votos de amores eternos terminam por quase-nada. Porque um disse tudo sobre nada; e o outro disse nada sobre tudo, gerando desproporções de algarismos sensoriais para além do número zero, ao criar vácuos de linguagem e abismos sem passagem. Prenúncio de fim até a fossilização do sentimento que talvez seja redescoberto na escavação arqueológica do próximo relacionamento, e dimensionado com cuidado em carbono-14 para não haver repetições dos ‘quase’ definitivos.


Fotografia de Pedro Costa - Reserva ecológica do Taim - RS
   
   O nada também pode ser um silêncio, a ausência de palavras, a ausência de carinho, a ausência em si. É quando deixamos de ser plenos porque sentimos falta, e o que sobra não sustenta a existência. As reticências mudas abrem inúmeras interpretações: não existe palavra mais cruel do que a que não é dita. Não existe maior tortura do que um carinho esperado que não chega.
   O nada pode ser a falta de ousadia, de projetos, de objetivos. Se não damos um passo à frente, ou mesmo um passo atrás para dar dois à frente, estamos estagnados. É quando assistimos a nossa vida sem perceber que todos os capítulos são iguais: o roteiro é o mesmo da novela anterior, repleto de clichês e bordões.
   O verdadeiro preencher do ser talvez esteja numa pequena soma aqui e ali de realizações quase imperceptíveis, quando tomamos a decisão de sermos mais que nada, de fazer valer os números do dia: minutos, segundos. Ainda que partamos sempre da mesma hora zero, nossa vida valerá mais que nada sem despender de calculadora científica para essa grande matemática-desafio que é a própria existência.
   Somos do tamanho dos nossos sonhos, e isso é mais do que nada: é tudo que podemos.

Crônica também publicada nos jornais: 
NH (Novo Hamburgo)
Diário de Cachoeirinha/Sinos
Correio de Gravataí/Sinos

Jorge Drexler - Todo se transforma

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   Não irei anunciar pausa, porque cheguei a conclusão de que a vida é assim mesmo: uma sucessão de coisas imprevisíveis. As pausas imaginadas com duração de meses, podem se transformar em dias; o adeus, apenas um breve tchau, para na manhã seguinte se compartilhar o café. Então deixo a todos, como diz meu amigo Felisberto Júnior: bom dia, boa tarde, boa noite! Pelas dúvidas, mas, principalmente, pelas certezas! 

Em Punta Ballena, Uruguay

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ser humano, eis a questão

   
Fotografia de Pedro Costa


Pensemos nos bichinhos como iguais a nós. Cada ser vivo é uma bênção sobre o mundo 
e deve ser cuidado, seja ele gente, animal, ou vegetal.
(Isabel Rodrigues)


   Uma coisa que sempre me incomodou é o desrespeito com os animais. Jamais entenderei o que motiva o dito ser humano a cometer crimes, seções de torturas e atrocidades, e o abandono de seres tão indefesos. Difícil ser humanista e ao mesmo tempo acreditar no ser humano.
   Retornando a casa, dia muito chuvoso e frio, testemunhei uma cena: um cachorro com dificuldade para caminhar atravessava a rua. Parei o carro, e percebi que uma senhora o esperava do outro lado. Disse-me ela que era um cão que perambulava pela região há dias, e decidiu por adotá-lo e, exatamente no momento em que eu passava, ela o atraia para dentro de sua casa. Ainda assisti aos dois entrando pelo portão: novo lar de um; antigo lar de outro.
   Se existe um prazo de validade para a felicidade de se presenciar uma cena assim, penso que serei feliz por alguns dias.
  



   Gestos como esse nos dão uma espécie de sobrevida de ânimo frente ao ceticismo que por vezes instala-se de forma inevitável, tendo em vista tudo o que se presencia, ou se fica sabendo: crimes contra os animais que são crimes contra nossa própria espécie.
   Pessoas que não valorizam os animais não valorizam outras pessoas. Quem interage em perfeita harmonia e respeito com toda a natureza é mais altruísta e evoluído, consegue distinguir a essência dos sentimentos e das relações, e entregar-se ao código de um idioma reconhecido em todo Universo.
   Ser humano transcende o estar humano, é quando consideramos o outro como uma vida também, em outro corpo e alma. Alguém a quem devemos consideração seja quem for, e muito dessa postura passa pela questão de termos o mesmo respeito pelos outros seres vivos que diariamente nos trazem lições preciosas.
   Quando o gato faz seu assédio felino, nem sempre seu pratinho está vazio, por vezes ele só quer carinho. Quando o cachorro abana o rabo e sorri, porque algo na boca dele modifica e parece um sorriso, nem desconfiem, é sorriso mesmo. Mas quantos seres humanos estão prontos para pedir ou dar carinho e sorrirem uns para os outros?
   Ser humano, eis a questão. Temos de honrar todos os dias o fato de termos nascido com o que se chama de "raciocínio". Que ele sirva então para considerarmos todas as vidas, não somente a nossa, como algo pleno. Afinal, quem não respeita a vida, não merece dela o respeito, simples assim.




*Crônica publicada também nos jornais:
Jornal do Comércio (Porto Alegre)
VS (São Leopoldo)
Diário Popular (Pelotas)
NH (Novo Hamburgo)



**A todos os bichinhos, em especial ao Lito, meu filho-gato. 
Com ele aprendi o "miadês", idioma que me ensinou a ser mais humana.
(02-02-2000/27-08-2013)

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Aviso: 
Neste momento, terei de fazer uma pausa. Visitarei a todos que vierem nesta postagem, e seguirei contato via facebook, embora com menos frequência, onde também continuarei postando meus textos. Até o retorno! Grande abraço!
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Às três horas

Fotografia de Pedro Costa
Aos 'desaparecidos' pela ditadura militar.


Lustre escuro
estrelas opacas
regurgitam hélices
líquido
arrebenta e esvazia
coral e ouriços

Ele desapareceu às três horas.

Ninguém mais ouviu suas nuvens
sentiu perfume dos tantos
dos prantos
acariciou suas digitais

Ele desapareceu às três horas.

des...
apare
o
Céu
às três

Pálpebras cerradas
suas digitais
amaciou coral
ouriços
no mar respingou
líquido se fez pó
Desapareceu,
e foi às três horas.

Nadie más ha visto a su cuerpo
sus nubes
sus llantos
Desapareció
a las tres.

Sentiu perfume dos tantos
dos prantos
tocou em estrelas:
lustres-ilustres-escuras.

Às três horas,
desapareceu...


- Ana Cecília Romeu -

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1 grau: Montevideo - New York

Fotografias de Pedro Costa

- Histórias de Viagem - Episódio 2 -

   21 de julho, 2013 - domingo - Cidade de Montevidéu, capital do Uruguai.

   Ainda pela manhã, próximo ao meio-dia e um frio de 1 grau centígrado com sensação térmica de bem menos..., o suficiente para doer os dentes ao sorrir. Nuvens escuras, um vento forte vindo do Mar del Plata (Rio da Prata – que emoldura toda cidade).
   Montevidéu é uma capital peculiar, com um centro de arquitetura clássica em art-deco e art-noveau, convivendo com prédios mais modernos e ecléticos. Apesar de concentrar praticamente a metade da população de todo o país, incluindo a região metropolitana, conserva recantos de cidade do interior, por vezes; e um centro de grande cidade, que bem pode lembrar Nova Iorque, mas... será que não é?






  Caminhando na principal avenida, a 18 de Julio, observei que algumas quadras estavam fechadas ao trânsito. Havia uma grua com luz, fumaça de gelo seco, luz, câmera..., ación? Mas o que é isso?
   Sim, era o que eu pensava, um set de filmagens em plena 18 de Julio. Coisa possível nesta cidade que é grande, comporta o status de capital, mas ainda assim não fica em caos tendo algumas quadras fechadas. Não, se isso for num domingo de 1 grau centígrado.




  

   Soubemos que se tratava das gravações de uma propaganda do café de uma indústria Suíça muito conhecida. Qualquer publicitário adoraria acompanhar essas filmagens, e por acaso, eu estava lá.
   Ainda nos inteiramos que têm sido realizados com certa frequência comerciais de grandes empresas mundiais de diversos segmentos ambientados no centro de Montevidéu. Recentemente, passa um no Brasil de marca famosa de calçados esportivos que foi feito na Plaza Independencia.
   Entrando nas duas quadras fechadas ao trânsito, mas não aos pedestres curiosos, parecia que se estava caminhando mesmo em Nova Iorque. As placas das ruas, dos carros e outras das calçadas foram trocadas por simulações norte-americanas.



   Quietinhos mas nem tanto, observamos: a cena consistia na filmagem do casal protagonista no trânsito movimentado. Ao ouvir o chamado do diretor, os mesmos figurantes atravessavam a avenida, os automóveis davam a partida, o guarda de trânsito fazia os sinais. Tudo do mesmo jeito nas várias tomadas que acompanhamos. E algumas curiosidades: os figurantes usavam roupas de meia-estação, dispensa dizer que não era tarefa fácil naquele frio todo. Além disso, o carro dos protagonistas não pegou num primeiro momento, para riso geral.

Figurantes na pausa das gravações.
Automóvel com os protagonistas.

   
   A sensação foi de estar em Nova Iorque ou qualquer outra grande cidade dos Estados Unidos. O cuidado com os detalhes na produção, por instantes, me fez pensar em ter viajado para um país e chegado em outro. Quase uma viagem dentro de outra. Sensação quebrada pela conversa aqui e ali com os simpáticos figurantes uruguaios. Nesse momento, voltei ao Uruguai, ainda que ali tudo parecesse ter sotaque mais longínquo, tínhamos o vento charrua, o sorriso e a disposição de quem não tem medo do frio. E a certeza: Montevidéu é uma capital tão especial que nela cabe o mundo.


Dedico ao Pedro, meu companheiro de todas viagens.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clichê celeste

Fotografia de Ana Cecília Romeu - Atlántida, Uruguay

E até eu, que fora destinada 
da palavra divina a ser a assassina, 
calei-me, quase com devoção, 
para poder prolongar esse instante abençoado.
(fragmento de Treze versos, de Anna Akhmatova)



   Seus olhos azuis e o falar doce e explicativo a extasiaram por minutos. Não contou o tempo nem o que aconteceu, porque qualquer palavra para descrever pareceria clichê: comparar seus olhos a um oceano infinito de onde saíam ondas suaves cor lilás, agarrando-lhe dos braços até o ventre.


Ana Prada - Dulzura distante

Na próxima postagem, o segundo episódio das histórias de viagem.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Banho à francesa

Paris, 2002 - fotografias ainda em câmera analógica.

   - Histórias de Viagem - episódio 1 -

      Paris, 2002.

   Minha professora de francês já havia me ensinado o verbo “débrouiller”, o famoso “se virar”, ou ainda o mais famoso: “jeitinho brasileiro”. E que em algum momento na França eu teria que dar esse jeitinho, considerando que tinha apenas um semestre de estudo em língua francesa. Isso estava me tirando o sono tanto quanto o medo de subir no avião.
   E não foi, mesmo, que precisei usar o tal jeitinho?
   Finalmente eu e o marido em Paris – Cidade Luz! Uh lá lá! Desde meus nove anos sonhava em conhecê-la, quando a professora de Educação Artística projetou slides da Notre Dame, Museu do Louvre e de muitos dos encantos da capital francesa. Minha decisão de menina: vou conhecer Paris!

Museu do Louvre
   2002 - época em que fomos pela primeira vez, não havia ainda a difusão de sites de reservas de hotéis, que geralmente são confiáveis, onde se procura ofertas adequadas ao bolso, localização e tipo de dormitório pretendido. Tínhamos, então, o endereço de uma pousada recomendada por uma amiga, localizada não muito distante da estação ferroviária, e com disponibilidade de leito.
   Chegando lá, um prédio muito antigo, mas reformado. Fomos até a recepção e tentei arriscar uma das poucas frases que sabia em francês, mas esqueci..., então: “Vous parlez espagnol?” – foi o que me ocorreu, se a moça da recepção falava espanhol, no que me respondeu: “poquito”. E assim “hablamos”.
   Descobrimos que havia duas opções de dormitório: com banheiro apenas com a privada; ou com banheiro apenas com a ducha. Não perguntem por que... Optamos pelo banheiro com a ducha.
   Pelo menos tudo era limpinho e acolhedor, mas na hora do banho... Olhei para a ducha e mais abaixo o botão do registro. Torci para um lado e outro. Mas como se liga isso? Fazia um frio de menos de 10 graus, e eu desafiando meu pobre Q.I. cansado da viagem de trem. Foi quando apertei o tal botão, coloquei a mão para testar antes de entrar: a água quentinha, maravilha! Entrei no box, e a água parou... Como assim, a água parou? – Peeeeeeeeedrrrrrrrooooo, me salva! – gritei ao marido.
   Ficamos os dois tentando entender aquilo tudo, até que ele apertou novamente o tal botão e veio a água, mas percebemos que o botãozinho começava a voltar para frente até que a água parava. E ali estávamos numa nova descoberta: um banho com temporizador que mais parecia uma torneira de shopping center. Mas detalhe: a água escorria por no máximo 30 segundos. What?!
   Então entrou o famoso “jeitinho brasileiro”. Descobri que se ficasse de costas, poderia pressionar o botão com o tronco e obter uma água contínua por muitos minutos. E se ficasse de frente, poderia apertar com uma das mãos o tal botão e passar o sabonete com a outra..., mas uma vez vacilando, logo a água parava.
   E assim, foi meu primeiro banho à francesa: inesquecível e sinistro.

Eis aqui a "prova do crime" - o banho à francesa!
   No final da noite, salmão, queijo brie e vinho Beaujolais.
   Na manhã seguinte, depois de um ‘petit déjeuner’ com mini pão e xicrinha de café frio, fraco e... Para quem está acostumada ao café da manhã gaúcho? Nem pensar, tchê! Solução: novo hotel. Mas isso é outra história...

Café da manhã... e minha insatisfação...


... por sorte, em Paris sempre se dá um jeitinho!

Novas viagens......................................................

   Pessoal, vou intercalar as crônicas de assuntos diversos que publico em jornais do país e já venho postando aqui no blog; com histórias verídicas de viagens, que não tem a pretensão de serem dicas, mas curiosidades bem-humoradas e algumas até assustadoras...
   Senti a necessidade de registrar o que nem sempre os turistas contam, ou o que nem sempre contam aos turistas.
   Relatos ainda em preparo: o fantasma de Veneza; Hallstat - a cidade encantada na região dos Lagos, Áustria; o dia que comprei um bumbum, em Praga, na República Tcheca; abraço brasileiro em Nice, França; Hungria para inglês ver: uma conversa esquisita com o clone de John Lennon; first class, em Heidelberg, Alemanha; a senhorinha do metrô de Paris - visão ou fato?; o choro em Fátima, Portugal; dolce far niente, em Camogli, Itália; flores roubadas ao mestre Wilde, no cemitério Père Lachaise, em Paris; o inusitado arco-íris no Cabo da Roca; a mística de Santiago de Compostela e o que nem sempre se conta sobre o caminho...; brasileiras em Gênova - um almoço inusitado; a Casa da Águia, no Uruguai; o dia da devolução, em Niterói, Rio de Janeiro; Pampas do Rio Grande do Sul e mais sobre a excêntrica capital porteña de Buenos Aires.
   Como o tempo é curto para quem escreve, e também para quem lê, seguirei postando com intervalo maior entre as publicações como já venho fazendo, mas agora intercalando as crônicas com as histórias de viagens.

   E fica aqui o convite para viajarem comigo, o que não significa dizer que vai ser uma coisa necessariamente segura...

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando"
- Mário Quintana -
(fotografia- no hotel Laje de Pedra, em Canela - RS, 5 de maio de 2013)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Batom coral e saudades do novo Brasil

   
Fotografia de Ana Cecília Romeu


   Levanta-se, caminha lentamente até o espelho, passa batom coral e sai às  ruas.

   Observou suas linhas de expressão, a pele aveludada de tessitura adulta se fazia depoimento vivo: sorrir e chorar geravam vincos e vínculos.
   Lembrou-se do medo de falar e das muitas vezes que lhe taparam a boca. Que havia chorado ao depositar seu primeiro voto; de quando era adolescente e debutou como um pequeno ponto em sua primeira multidão, fora em noite chuvosa e fria no centro de Porto Alegre, não coloriu os lábios e vestiu-se de negro.
   Na fronte, imagens difusas de espinhos e pétalas. Ainda acreditava nas flores e no visto de ida ao país que não conhecia, mas sentia saudades.
   Levantou-se, caminhou lentamente até o espelho, passou batom coral e saiu às ruas de um Brasil que não era mais o mesmo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Isso que chamam de amor

Alma II - giz de cera sobre papel Canson, por Ana Cecília Romeu


Se te quero é porque és
meu amor minha cúmplice e tudo
e na rua lado a lado
somos muito mais que dois.
(fragmento de Te quiero – de Mário Benedetti)


   Não somos uma metade que procura outra metade para se completar, somos um inteiro que procura outro inteiro para transcender.
   O amor nos acrescenta para além de mera unidade, nos transformamos pelo olhar do outro, é quando se dá o complemento. Uma matemática toda esquisita e subjetiva para além da lógica: quando um somado a um é mais que dois, como nas sábias palavras do poeta uruguaio Benedetti.
   Nessa equação sentimental, alguns dizem que o problema é que se acredita no ‘romance rosa’; no que contraponho, penso que a questão é quando não se crê nele. Temos direito a sermos princesas ou príncipes. Não matem a cinderela, por favor! Como chegar à majestade de nosso reino amoroso, sem antes experimentarmos ser filhos dele, e se deixar levar, simplesmente? É quase como decorar o ato de contrição sem mesmo ter pecado. Entendendo que isso é uma fase, pois que ela seja ‘eterna enquanto dure’, como disse o poeta.
   A vivência do paraíso nos trará mais adiante a certeza da continuidade, ou das trevas. Quem inventou essa coisa de amor planejou para que o Gênesis fosse a paixão, que nem sempre significará prenúncio de Apocalipse.
   Quando amamos, olhamos para trás e não conseguimos imaginar o que já fizemos sem ser com aquela pessoa. Até os momentos de discussão foram os mais belos, nossa melhor atuação, mas porque foi compartilhado com aquele ator, não com outro.
   O amor não é morno, ele oscila, passa por todas as estações, todos os nossos tempos. É como um morrer e permanecer vivo, como dizia Quintana. E um saber-se acabar no outro para se reiniciar: “não morro de amor, morro de ti, amor”, sentenciou o mexicano Jaime Sabines.
   E é um sentimento exigente. O amor altruísta é o fraternal; o amor a dois é troca, o famoso ‘dar e receber’ para além da permuta de fluídos, e não perdura se não temos a contrapartida, é quando nos dispomos a ser cadastrados numa espécie de fila do sopão, mas queremos que o outro também tenha se credenciado.
   Só amamos quem conhecemos o suficiente para perceber que o som nos agrada quando ouvimos, e ansiamos por repetição, sonhando ser possível o lado B nesse CD, pois o ser amado é como aquele seriado que colocamos em horário nobre e aguardamos cada capítulo: ainda que alguns episódios nos decepcionem, esperamos nova temporada.
   O amor deixa nossa alma tão hipercalórica que já não cabe mais no corpo, é quando somos mais que um. E mesmo que o tempo desbote, aqui e ali, o frescor das primeiras cores, desejamos a aquarela inteira: o ontem que queremos hoje, porque nos trará nova manhã. Isso para mim é o que chamam de amor.


Crônica publicada também nos jornais: 
O DIA (Rio de Janeiro);
NH (Novo Hamburgo); 
Diário Popular - seção Análise (Pelotas) 
e site do jornal Correio Rural.


Carinhoso - com Marisa Monte & Paulinho da Viola

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A marca da elegância

Fotografia de Ana Cecília Romeu


   Um comportamento tem me chamado a atenção nas redes sociais da internet, a necessidade das pessoas em expor o lado bom da vida, ou o que elas julgam bom. Até aí não há nenhum problema quando se quer socializar, angariar amigos ou contatos, se divertir; a questão é quando isso se torna viral, o que é uma das características do meio virtual, e temos então um efeito dominó ao som de La vie en rose, numa busca incessante do parecer-se elegante ao alcance de um clique.
   A favor disso, precisamos de escapes para deixar nossa vida mais leve, o que nos define os afetos, as histórias que temos com as pessoas que amamos. E todos criamos nossa própria política do “pão e circo” para poder respirar um pouco num mundo que pode nos tirar o ar a qualquer momento. E assim nos apegamos ao lazer, em algum hobby, no futebolzinho de fim de semana, o bar com amigos, uma saída às compras, e isso é ótimo e necessário.
   Todavia ainda que a fronteira da comunicação não seja exata, tudo tem seu limite. Quando fazemos um perfil público para nos socializarmos virtualmente, está ali nosso rosto, nossas viagens, múltiplos happy-faces em todos os ângulos, mas também tem que estar presente o que pode acrescentar a quem interagimos, nossas indagações para além da crise existencial sobre qual marca de roupa é melhor, ou qual iogurte frozen convém consumir.
   Assinar para receber atualizações da grife de alta costura, da boutique famosa de decoração, do restaurante badalado, tudo bem; no entanto fazer suas atualizações apenas em torno disso, enquanto que o país vive uma crise crônica, onde o cidadão não se mobiliza, ou quando o faz não se leva a sério, - apenas para citar um exemplo -, me diz sobre essa pessoa que a sociedade como está, se mantém graças a esse tipo de atitude.
   Como versa o dito popular: “o que é moda não incomoda”; mas como seria bom que ter uma opinião formada, levar adiante o que se pensa na voz e no ato também fosse moda, para além da alta costura, da perfeição do corte, do uso do tecido, das cores e adereços da nova estação.
   Saber usar a cabeça é uma arte: ter uma postura diante das coisas que não estão corretas em nossa vida, na comunidade, no país, no mundo; focar no “fazer” sem imposições, mas agregações. Desejar uma sociedade mais humana e vestir-se dela: não existe atitude mais elegante à prêt à porter, seja se você está de salto alto ou calçado esportivo. 


Crônica publicada também nos jornais: Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário de Cachoerinha/Sinos e Correio de Gravataí/Sinos.


La vie en rose - Iggy Pop 


Agradecimentos............
   Agradeço a minha amiga, a escritora Mariazita, Maria Caiano Azevedo, por ter colocado no banner de seu blog "A Casa da Mariquinhas - com Lírios e Histórias de Encantar", o último parágrafo da minha crônica: Domingo diferente. 
   A Mariazita é uma pessoa que tem se tornado muito especial para mim, alguém que sinto como uma forte e indispensável presença. E o além-mar se faz único oceano, perto, bem pertinho de nós.
   Obrigada, querida amiga, por seres ponte e caminho!
   Convido vocês a conhecerem seu blog: http://acasadamariazita.blogspot.com.br/

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Domingo diferente

Fotografias de Pedro Costa - Autódromo de Estoril, Portugal

"...da quando Senna non corre più... non è più domenica e non si dimentica."

Desde que Senna não corre mais... não é mais domingo, e não se esquece.
(música de Cesare Cremonini – Marmellata #25)

   28 de agosto de 1992 – Treino de classificação do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, o francês Érik Comas sofreu um acidente e seu carro ficou atravessado na pista ainda ligado. O piloto que vinha atrás, quebrando o protocolo, parou e foi ao encontro de Érik, desligando o motor para evitar uma explosão. Nome do piloto: Ayrton Senna.
   1 de maio de 1994 – Curva Tamburello, Grande Prêmio de San Marino. Um piloto, ao ver que Ayrton Senna havia se acidentado gravemente, saiu do box com seu carro, chegou ao local passando a barreira da segurança, mas foi impossibilitado de prestar socorro. Nome do piloto: Érik Comas.
   Mais tarde, Comas afirmou em entrevista à rede francesa: “Ele salvou minha vida, mas cheguei muito tarde. Fui o último piloto a vê-lo. Foi difícil aceitar que tive a honra de fazer a última visita antes de ele ir embora. Para mim foi o fim do livro da Fórmula 1” (fonte: globoesporte.com).
   A consagração na revista inglesa Autosport em 2009 por 217 ex-pilotos que o elegeram como o maior de todos os tempos; o que também fez a britânica BBC em novembro passado (fonte: Gazeta Press), legitimou o que todos seus fãs já percebiam.
   Ao lembrar de Senna pelo que mais me tocou, diria que ele proporcionou aos torcedores da Fórmula 1 um domingo diferente. Aquele em que acordávamos mais cedo para passar o café, pois sabíamos que assistiríamos no mínimo a um espetáculo. E isso aconteceu a diversas famílias do mundo, independente do continente ou fuso horário.
   Ayrton fez um domingo diferente no GP de Mônaco em 1984, quando seu limitado Tolemans saiu do 13º lugar no Grid e chegou em primeiro sob chuva torrencial; mas com a prova paralisada, foi concedida a vitória à Alain Prost, que havia sido ultrapassado pelo brasileiro momentos antes. Até que em 21 de abril de 1985 aconteceu sua primeira vitória no autódromo de Estoril em Portugal, abaixo de mais chuva. Fora das pistas, suas colocações inteligentes e energia na defesa da segurança dos pilotos também se fez domingo diferente em qualquer dia da semana.



   


   25 de outubro de 2012 – quinta-feira, chuva no autódromo de Estoril, e lá estava eu no cenário da primeira vitória de Senna. Na noite anterior, a recepcionista do hotel, ao nos perceber brasileiros, comentou sobre o piloto; depois foi o garçom e um rapaz no autódromo, todos com saudosismo. E agora eu observava a pista e as arquibancadas vazias. Não ouvia o ronco dos motores, nem a Lotus passar em primeiro na linha de chegada, mas tive a certeza de que nosso brasileiro também era português, japonês, italiano, francês..., era do mundo.
   Muitas vezes me perguntei por que algumas pessoas chegavam mais cedo para a festa lá no Céu, quando ainda queríamos tanto a companhia delas. Hoje sei a resposta: porque Anjos sempre voam mais rápido.


   “Há um grande desejo em mim de sempre melhorar. Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos, que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja o que for, e então não fico muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente como piloto, mas como pessoa.” - Ayrton Senna     


Senna salvando Érik Comas - 1992

Érik Comas vai à Tamburello - 1994

Primeira vitória de Senna em 1985 - Estoril, Portugal


*Crônica publicada também no Diário Popular de Pelotas,
Diário de Viamão, VS (São Leopoldo).