El Ateneo Grand Splendid - não encontrada referência autoral da imagem
Sempre foste meu espelho, quero dizer que para me ver, tinha que olhar-te.
(Julio Cortázar in
Bolero - tradução livre)
Buenos Aires, janeiro
de um ano qualquer.
A mulher
estava no café da livraria, alojado no palco do que antes fora o teatro
homônimo, atestando se aquela de fato era a segunda mais bela loja de livros de
todo o mundo. Há o aspecto subjetivo, pensou. Sentou-se à mesa no canto
segurando uma antologia de Cortázar, edição de luxo, capa dura em dedos macios.
Sorvia o
café meio-forte, folheando-a aleatoriamente ao deixar que o destino e seus
sortilégios elegessem um futuro mais claro, como quem se esquece da bola de
cristal, mas ainda crê nos reflexos das bolhas de sabão. Com os aromas do
café, de seu perfume preferido e da tinta fresca na parede lateral, abriu à
página 44:
“Fui uma letra de tango
para tua indiferente melodia.” *
Depois de
ler, a mulher apertou com o indicador direito as duas gotas de café que,
indisciplinadas, caíram para fora da xícara. Entre suas digitais, sonhos
furtivos, impossibilidades e toda a eternidade, disse-lhe o poeta o que não
ousou contestar. Estava ali, na El Ateneo
Grand Splendid, onde na plateia há livros sentados e amor na próxima
página, na de número quarenta e cinco.
Recordas
de quando tentamos dançar uma valsa em Viena, na frente daquele palácio no
centro...? Teus pés sambavam de um lado a outro, parecia que usavas os sapatos
de Aladim. Algo na ponta dos teus calçados chegava às minhas canelas, ainda que
um tanto suave, mas era incômodo. Um blues desafinado, uma descoordenação em
sintonia. Sim, fui ao chão, mas me levantaste, recordas?
Estávamos
em Viena na frente daquele palácio no centro, não, nunca vou me lembrar do nome
do palácio..., mas sei que escutei a Two uf us do Supertramp, e estou te dizendo
isso agora, depois de anos. Há músicas compostas para todas as ocasiões, e essa
foi minha canção de queda, do nosso rodopio que não deu volta alguma. Nos
acordes, falsetes atrevidos; nas letras, dislexia. Algo do fim para o início interrompeu
nosso andamento e não processou senha de permissão, mas prosseguimos. (Des)valsamos
os dois, mas sempre estaremos juntos.
Two of us - Supertramp
Interpretação de Roger Hodgson, ex-integrante da banda
Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre...
(Mário Quintana)
Uma viagem insólita está prestes a acontecer.
Grande aventura no melhor estilo surreal, mas de roteiro que não parte de um
filme de ficção científica com naves interplanetárias à velocidade da luz. Essa
viagem tem início no estacionamento, na garagem, na rua, em qualquer cenário
urbano onde esteja o nosso veículo, e começa ao darmos a partida no motor,
quando imaginar a próxima cena é uma coisa impossível.
Capacidade
mediúnica é o que precisaríamos no trânsito brasileiro. Nunca se sabe o que
o motorista do carro da frente fará, visto que poucos usam a sinalização; e
mensurar as ações do sujeito que dirige o carro detrás, visto que poucos usam
os freios.
No trajeto que percorro todos os dias, recordo do grande ídolo Senna e
que ele foi, sim, o maior. Muito disso, provavelmente, se deveu a ter dirigido
nas ruas e enfrentado o trânsito caótico e sinistro que temos. Tudo, exatamente
tudo, parece se atravessar na nossa frente num piscar de olhos ou sem mesmo
piscá-los.
Sempre
ouço CD no carro para suavizar um pouco a situação e outro dia escutando Bendita la luz de tu mirada, do grupo
Maná, bem na hora em que eles cantam: "Bendito Diós por encontrarlo en el
camino", se atravessa em pleno voo, não sei de onde..., um pneu inteiro,
repetindo, um pneu inteiro; não apenas a calota. Por sorte, muita sorte e
milésimos de segundos, o tal pneu voador encontrou um terreno baldio. Tipo de
situação que a gente chora e sorri ao mesmo tempo e que meteria pavor até mesmo
nos terríveis personagens hollywoodianos como o Jason, do clássico Sexta-feira
13.
O
GPS deveria vir com consulta on-line de um clarividente, com sinal sonoro de
"piii" prenunciando mensagens do tipo: "Altere seu trajeto, não
pegue a RS 118, porque voará um pneu bem na frente do seu carro.”
Vê-se
de tudo, desde o sujeito que quer vencer a “corrida” a todo custo: para ele não
existe sinal vermelho e sequer outros carros na pista. E ainda os desatentos,
os despreparados, os brigões: uma reprodução do nosso universo social em
amostras sobre rodas.
O
trânsito nos impõe sermos Sennas, mas eu não passo de mais uma motorista que precisa se deslocar de um lado a outro. E quando ligo o carro, meu sagrado ritual: agradeço
pela vida. Quando retorno a casa e o desligo em definitivo, agradeço pela
vida duas vezes. Isso, todo santo dia.
Posfácio de minha autoria publicado no livro Des. caminhos, de Adri Aleixo:
Des. caminhos entre pétalas e fulgurações
Há uma mulher sentada em imenso campo. Segura uma flor cor
areia e carmim por entre os dedos e desfolha mundos ao sussurrar do vento: “bem
me quer, mal me quer...” Pétala a pétala desenha caminhos em dia de céu azul. O
sol sela cumplicidade ao cortejá-la sem cerimônias. Ele sabe serem dela as muitas
eternidades, as que começam na palma de sua mão de traços finos, serenos e
sutilmente assertivos, e que alçam voo elegante ao tocar em nuvens de algodão e
cintilar matizes com luz própria, fertilizando gotas e sementes: o
transcendente, que letra por letra despetala em vidas, as muitas que o olhar do
leitor pode colher e replantar.
Sinto a obra de Adri Aleixo, Des. caminhos, como se a poeta
deslizasse delicadamente seus dedos ao despetalar rotas e reconstruir
horizontes.
A tessitura de seus poemas possui a marca do olhar feminino
sobre tudo que a habita. Por vezes, os detalhes, ou apenas um; em outras, a
flor inteira.
Em Des. caminhos, Adri Aleixo conduz o leitor ofertando com
carinho um fio de Ariadne, que longe de asfixiar ou amarrar, o envolve em
guirlandas de letras que situam e instigam sua imaginação no perder-se de
tantas trilhas. Dentro desse inusitado labirinto construído pelo traço longilíneo
e profundo, a escritora permite ao leitor criar outra dimensão, que em
neologismo meu chamei de imã-ginação: a capacidade de atrair outros mundos ao
seu próprio.
O onírico, o telúrico, as forças da natureza, o ser em toda sua
plenitude abordados na voz franca de suas indagações existenciais ao deslindar suas
relações como quem conversa com amigo íntimo, marcam o Des. caminhos. Não
existe nesta obra bússola ou termômetro, nada é mensurável, mas são tantas as
pétalas de aromas vários e sabores à fruta fresca da estação que audazes tocam o
intangível, traçando pequenos ângulos sem perpendiculares, onde aparentemente
não haveria frestas a passar.
A obra de estreia dessa nova escritora nos propicia perder-se
em Des. caminhos para, pouco a pouco, pétala a pétala, sermos conduzidos ao
profundo, onde tudo se faz mais claro e sereno. Lá, algures entre sinapses e fagulhas;
em terra firme ou no alto mar, nos deixando livres na escolha entre o mergulho ou
a exposição da claridade nos poros.
Nunca me fez tanto sentido a pequena frase que rabisquei em
um canto de página qualquer, como quando o olhar poético de Adri Aleixo a
atestou: a beleza é anterior ao que se vê. Assim, a poeta escreveu seus Des.
caminhos, entre pétalas e fulgurações.
Porto Alegre e o rio Guaíba - fotografia de Ana Cecília Romeu
Mesmo que esteja sangrando de um
golpe fatal,
quero uma estrela no instante final.
(Nico Nicolaiewsky, na música: Só cai quem voa.)
Nico Nicolaiewsky - músico, compositor, ator, cantor, humorista - foi mais cedo para a festa lá do céu, aos 56 anos, no dia 7 de fevereiro. Artista que deixava a todos mais alegres, uma alegria furtiva, mas que ajudava a viver como tudo que nos cria degraus para dentro, feito chá de mãe em dia febril. Uma irreverência desacompanhada, a que encontramos em pessoas impares, em quem deixa obras relevantes, em cenários que são somente um.
Fotografia de Raul Krebs
Recordo-me que assisti pela primeira vez à comédia musicalTangos & Tragédias, que fazia em parceria com Hique Gomez, na praia de Capão da Canoa. Eu ainda era criança, e em esquetes eles apresentavam o mundo fictício da “Sbórnia” e seus personagens: Kraunus Sang e Maestro Plestkaya. Nunca tinha visto nada parecido. E cantavam: “Ana Cristina eu não gosto de você, tô amando loucamente a tua mãe”. Será que meu futuro namorado pensaria assim também? E ali todos os efeitos da arte nas sensações da menina que, depois adulta, assistindo ao mesmo espetáculo que teve vinte e oito temporadas, esta última incompleta, teria a mesma impressão, de que nada era perecível, pois sempre estreia. OTangos & Tragédiastinha também uma versão em espanhol que foi apresentada na Argentina, Equador, Colômbia e Espanha. Em Portugal, foi eleito pelo público noFestival Internacional de Teatro de Almada, em 2003, como o melhor espetáculo; e de honra em 2004.
Fiz o caminho inverso, conheci depois o trabalho anterior do Nico, Saracura, uma das bandas gaúchas de maior relevância de todos os tempos, inaugurada nos anos setenta.
Mais atual e caminhando junto ao projeto do Tangos & Tragédias, seus álbuns solo, as entrevistas, os shows, o espetáculo Música de camelô: universo de artista plural que respondia com surpresas à plateia ávida pelo inusitado.
E assim, Nico partiu em voo da mesma cidade em que nasceu: Porto Alegre. Capital espelho desse artista: em suas ruas uma certa melancolia feliz; ironia sutil e inteligente em seus passeios; meio preto e branco, outro tanto a cores, mas com nuances sem uso de papel celofane, tal e qual o Theatro São Pedro, tantas vezes palco dele mesmo e seu último. Uma timidez de quem não precisava mostrar para aparecer, das ruelas do Parcão à Redenção, dos recantos da Rua da Praia aos cantos do Bomfim, aqueles, os irreverentes ao ponto certo. Luz própria de quem assistia ao sol laranja-vermelho se deitar sobre o Rio Guaíba, momento em perspectiva de quem era e sempre será: porto, cais e quebradouro. Reflexo e imensidão do Porto até todos os Alegres, nós, a quem a sua arte fez despretensiosamente mais Felizes.
Crônica
publicada também nos jornais: Jornal do
Comércio – Porto Alegre / NH – Novo Hamburgo
Feito picolé ao sol - Nico Nicolaiewsky (com imagens de Porto Alegre)
Tangos & Tragédias - Aquarela da Sbórnia
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Na próxima semana a postagem: Des. caminhos entre pétalas e fulgurações - um brinde com alguns poemas de Adri Aleixo e mais o posfácio de minha autoria publicado no livro Des. caminhos dessa que é uma grande poeta e amiga.
Quem disse alguma vez: até aqui o homem, até aqui não? Somente a esperança tem joelhos nítidos. Sangram. (Juan Gelman in Limites)
*
A tragédia da boate Kiss - em Santa Maria, Rio Grande do Sul - vitimou fatalmente 242 pessoas e feriu mais 116 na madrugada de 27 de janeiro de 2013, em incêndio causado pelo acendimento de um sinalizador para efeito pirotécnico por parte de um integrante da banda que se apresentava. O que iniciou pela imprudência, tomou proporções trágicas por falhas gravíssimas da segurança no local, gerando esta que é considerada a terceira maior tragédia em casas noturnas no mundo. (Fonte: portal G1. Globo)
Um ano da tragédia da Boate Kiss.
Impossível não relembrar do fato.
Quando eu era adolescente, também esperava a
semana inteira para que chegasse a balada do sábado. Ensaiava passos novos. Antes
de sair, ouvia a listinha: “Não se esquece do casaco” - é a única coisa de que
me lembro, porque era a primeira, mas pelo tempo que minha mãe falava acho que tinha mais umas dez ou onze. Nem sempre ficava feliz, esperar pela
música mais lenta e nada acontecer era muito chato, mas quando chegava a casa,
dormia e esquecia.
A turma de amigos era sempre a mesma, formávamos uma espécie
de “tribo da felicidade”, um happy-face compartilhado, se nem tudo estivesse
bom, ainda assim era divertido. Nunca pensávamos que poderia acontecer algo
fatal, não planejávamos o fim apenas os começos, queríamos vida e viver e era
isso a sua maneira que acontecia, às vezes menos, em outras mais, mas
voltávamos para casa para lembrar os fatos que julgávamos importantes e
censurar parte deles aos pais, “editar a matéria” de um jeito mais inocente, o
que sempre funcionava.
Foi assim que descobri que o bicho-papão da infância fora
promovido na adolescência para “estranho”: - “Não conversa com estranho”, “Não
beija um estranho”. E assim, todos meus namorados e amigos um dia, pelo menos
por algumas horas, me foram estranhos. Mais tarde aprendi que os únicos
estranhos perigosos eram os “culpados” e, desde então, passei a temer os
culpados. Os culpados que têm responsabilidade, mas se escondem na nomenclatura
“fatalidade”, como se as tragédias, aquelas que podem ser evitadas, ainda assim
fossem obra divina.
Não conheci nenhuma das vítimas da tragédia de Santa Maria,
mas é impossível não haver empatia, já fui adolescente, hoje sou mãe de alguém
que um dia será adolescente e quando se perde um filho, não se perde somente o
que se tem, se perde o que se é.
Nunca senti a fumaça negra, por isso hoje escrevo estas
quaisquer linhas, mas minhas asas estão encolhidas e meu voo se faz palavra
pequena, mesmo que somada a outras de tantas milhares de pessoas, porque
estamos num mundo onde da tragédia se faz grande audiência, até a próxima
notícia. Onde se trocam as palavras vida e futuro, por injustiça e fim.
Verão no Brasil. No comércio uma situação que, se analisarmos friamente, apesar de
parecer mero trocadilho, é dispare. Encontrei numa mesma loja de vestuário uma
calça jeans no valor de R$ 60,00 e uma bermuda por R$ 160,00, a de se considerar que
esta última deve ter uns 60% a menos de tecido do que a primeira.
Recordei-me de quando
morei em Rivera, cidade uruguaia fronteira com Sant’Ana do Livramento, Brasil; que havia uma sorveteria no verão, que na chegada do inverno, colocava à venda
também casacos de lã. Na minha visão de criança aquilo parecia mágica. Era como
se houvesse o verãoverno, uma nova
estação que mesclava o frio e o calor.
Ao observar esses
meandros do comércio, no que tangem aos produtos sazonais, transportei-os para o
aspecto pessoal sob a ótica dos relacionamentos de amor ou amizade, e da
efemeridade dessas relações.
Quem nunca teve um affaire
de verão que jogue o primeiro guarda-sol! Mas para além dos contatos que podem
ser compartilhados no calor do lazer ou do período de férias onde tudo parece
assim tão perfeito..., o ‘volta às aulas’ ou ao trabalho, que caracteriza o
nosso dia-a-dia, também está marcado pelos amores de estação.
Por vezes, as pessoas
se tornam como uma bermuda, própria apenas para o período mais quente; e quando
o relacionamento esfria, caem em desuso como se fossem peça a ser estocada
entre outras tantas num armário asfixiado por prateleiras cheias à espera de
atenção.
E o velho jeans,
apesar de peça clássica, será inadequado na estação mais quente onde tudo o
que é perecível parece ser a escolha certa: o sorvete a ser consumido
rapidamente antes que se desfaça. E assim, o jeans se torna obsoleto e
‘asfixiante’ ao querer compromisso e frequência.
As horas e suas
intempéries nos mostrarão quem veio para permanecer em nossa vida em todos os climas.
As cumplicidades que dividirão desde a capa de chuva até o óculos de sol.
Os dias passam muito rápido
para que se mensure pessoas e sentimentos via termômetro. Quem veio para ficar,
sequer precisou de bússola pra nos encontrar, pois assim se fazem as
inevitabilidades. E se somos de fato importantes ao outro, a nossa luz será compatível
ao seu protetor solar: uma parceria que não causa danos à pele nem à alma.
Sim, a vida é muito curta nos quatro tempos para
não dizermos a quem amamos: você é a minha melhor calça jeans em todas as
estações.
Juan Gelman - grande poeta argentino faleceu na noite do dia 14 de janeiro. Para quem é apaixonado pela literatura platina, fica um vazio... O vazio da certeza de que não haverá novas letras dele; ainda que seus poemas não tenham tempo, muito menos fim. Em sua vida pessoal, Juan Gelman foi duramente perseguido pela sangrenta ditadura argentina, onde o homem se fez menos que nada. Aqui deixo a vocês fragmento de "El libro de los abrazos"- pag.229, de Eduardo Galeano onde relata isso; e "Epitafio", poema de Juan Gelman.
Gelman - Eduardo Galeano -
El poeta Juan Gelman escribe alzándose sobre sus propias ruinas, sobre su polvo y su basura. Los militares argentinos, cuyas atrocidades hubieran provocado a Hitler un incurable complejo de inferioridad, le pegaron donde más duele. En 1976, le secuestraron a los hijos. Se los llevaron en lugar de él. A la hija, Nora, la torturaron y la soltaron. Al hijo, Marcelo, y a su compañera, que estaba embarazada, los asesinaron y los desaparecieron.
Epitafio - Juan Gelman -
Un pájaro vivía en mí. Una flor viajaba en mi sangre. Mi corazón era un violín.
Quise o no quise. Pero a veces me quisieron. También a mí me alegraban: la primavera, las manos juntas, lo feliz.
(...)
não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples,
você pode encontrá-la
e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
Mário Quintana in Felicidade Realista
O ser humano é um eterno insatisfeito. Dessas
insatisfações, por vezes, curiosidades, explorações e (re)começos se
‘descobriu’ as Américas, por exemplo; e conheci dona Vera, vizinha querida com quem
amplio os territórios da amizade.
Recordo-me que a professora de francês me
disse para nunca deixar a vida muito resolvida. (Ne laissez jamais votre vie très parfaite!). Em uma referência ao
pequeno caos como fluxo de longevidade: andar pela contramão, jogar
travesseiros por todos os lados. Mas a iconoclastia tem a fase da reconstrução,
do recomeço, e isso dá trabalho imenso tal qual remontar quebra-cabeças de
milhares de peças: o que mais nos edifica quase sempre não está na nossa linha
de conforto.
Talvez por isso se perceba tantos relacionamentos,
de amor ou de amizade, sendo regidos por decreto: instantâneo do mando-obediência-estabilidade,
do ‘felizes para sempre’ via corretor ortográfico, ou do ‘até que a tecla
delete nos separe’. Já a democracia é trabalhosa, exige diálogo, negociação,
diplomacia, é via de mão dupla.
Há um tempo criei o que chamo de sétima
gaveta. Um espaço imaginário onde coloco as tristezas, frustrações, perdas. E
que fiquem por lá. Para ser forte e tentar ser feliz, é necessário enxergar o
lado bom de tudo, e ele existe. Por vezes, a sétima gaveta abre involuntariamente soltando
todos esses monstros: as pendências, as ausências, a pessoa que tirou a vírgula
do “não, te amo”. E não nos resta muito
mais do que tentar desmitificar essas criaturas, as tornando mais parecidas com
o brincalhão e pouco assustador Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde.
Optar pela luz não é
ignorar a existência das sombras, até porque uma não sobrevive sem a outra, mas
é tentar recompor-se para recomeçar, avançar; pois a felicidade, mais do que um
processo, é uma opção.
A tristeza é valorizada como forma de auto descobrimento,
pré-requisito evolutivo. Não se enfatiza os momentos de felicidade como parte desse crescimento. Existe
a ditadura escamoteada do sofrimento. A tristeza como imagem de profundidade,
como se o contrário fosse bobo e superficial.
Que bom seria que
nunca nos esquecêssemos dos instantâneos mais felizes e das pessoas que
contracenaram conosco: a plenitude pela partilha em forma de circulo aberto.
Deveríamos ter uma parte do cérebro que impedisse apagar um olhar, aquele
olhar..., a pequena eternidade que possibilita a continuidade da vida e seus
recomeços.
La Paloma, Uruguay - Fotografia de Pedro Costa
[Retorno ao blog em 2014. Seguirei escrevendo aos jornais
e divulgando essas publicações também pelo facebook.]
Um novo ano mais leve, com muita paz e saúde.
Se conseguirmos dois 'sim' para cada 'não', já estaremos no lucro nessa matemática-desafio que é a própria existência. Pois, que assim seja.
Agradeço a todos pela companhia que me fez e faz crescer muito.
Seriado
televisivo famoso transmitido de 1979 a 1981, Buck Rogers foi um personagem
criado originalmente para história em quadrinhos por Philip Francis Nowlan em
1928. A história trata do congelamento acidental de um militar astronauta nos
anos 80 e o seu despertar no século 25, assumindo a função de patrulheiro. Na
ficção, tempo em que espaçonaves, naves de caça e viagens interplanetárias são
corriqueiras.
- 19 de setembro de 2012 - tive
experiência que nem mesmo Buck Rogers poderia prever, muito menos, vivenciar.
Devido ao ciclone extratropical que atingiu o Rio Grande do Sul, com formação a
partir do Uruguai, e rajadas próximas à marca de 100 km/h em pontos isolados,
boa parte de nós gaúchos de diversas localidades ficamos sem luz, sem internet
e com linha telefônica deficitária; celular, quando se conseguia sinal, pegava
ma... ma... mal.
Fiquei pensando na diferença entre a ficção
idealizada e a realidade quanto a tempo e geografia proposto, quando um escritor-roteirista
imagina uma época futura e a traduz numa obra, no caso de Buck Rogers, daqui a quatro séculos. E que, embora tudo pareça
evoluído a partir do advento da internet e celular, ainda dependemos da luz
como fonte de energia. Essas tecnologias, além dos benefícios, nos tornaram
dependentes, visto que pouco ou quase nada podemos fazer em termos comerciais –
e mesmo pessoais – sem o uso do que
dispomos na atualidade.
Neste momento, é provável que algum escritor
esteja criando roteiro baseado em fatos que acontecerão no próximo século, com
espaçonaves que se movimentam através do comando de voz ou de comando mental;
pílulas coloridas que extinguirão a fome na Terra; alojamentos de único
ambiente em poucos metros quadrados otimizados com tudo que uma família
necessite: a mesa que se transforma em cama que se transforma em computador e
por aí vai; mas talvez não se inclua na história que um ciclone ainda poderá nos
remeter ao passado, a atemporalidade da vida sem luz e internet.
Escrever esta crônica em manuscrito à luz de
velas, em pleno século 21, fez-me ter uma certeza: ainda temos muito que
evoluir. Parecemos grandes, mas talvez sempre sejamos pequenos frente às forças
da natureza.
O destino que se cumpra,
se o destino for
Eu apenas quero a flor
de uma última penumbra,
onde a sombra,
entendo eu,
é apenas o lugar
onde a luz
pode declarar-se
verdadeiramente.
Wilson Caritta Lopes
Todo vestido de preto, entrou no quarto
de hotel. Dirigiu-se até uma bancada sem acender as luzes. Do lado direito das
cortinas cor areia, um feixe recatado de luz pedia licença para lhe iluminar a
silhueta e protocolar pequeno testemunho. Sobre a bancada, remexeu em pastas
procurando dados entre os dedos, como quem colhia frutos de própria estação.
Deletou pensamentos, buscou arquivos e o abraço dos amigos. Recordou-se de
quando expelia arco-íris pelos poros, do sorriso fácil e que construía degraus
de nuvens entre os versos. Que um dia amou e no outro também.
[Em pedra-ferro, cravada à beira do
abismo, entre o temporal e o sol laranja, rezava a escritura:
é esta a
minha terra,
o lado norte
dos versos,
um país, uma
palavra
toda a
verdade.
terra branca
letra e poema
de tantos segredos
dentro e fora
de mim,
a semear
braços, horizontes de anis
e outras
moradas
onde escrevo,
aplaino rimas
e reinvento
silêncios
De entre as pastas, selecionou apenas
duas. Saúde e justiça são irmãs da mesma verdade e parceiras da mesma dor.
[Lenda, Poemas em Autoplágio ou apenas
imaginação. Cravada à pedra-ferro, rezava a escritura:
o poema corre-me
com a água
do canto
lava leve
lembra
é este o som
é este o sentido
porque as
estrelas de dedos longos sempre tocam
as portas e
os girassóis
que cabem no
mundo:
é aqui, no
verso,
que sou todos
os homens
é aqui, no
verso,
que me
esqueço do tempo
é aqui, no
verso,
que escavo o
fogo.
eis-me o
verso.
Com semblante seguro, passou pelo umbral
carregando as pastas em baixo do braço esquerdo e mais duas gotas de certeza:
homens de bem e poesia jamais falecem a causa da senhora realidade.
Foi quando o poeta tocou a primeira nota
sequencial para seus versos e ela espirrava como a alma.