quinta-feira, 16 de maio de 2013

A marca da elegância

Fotografia de Ana Cecília Romeu


   Um comportamento tem me chamado a atenção nas redes sociais da internet, a necessidade das pessoas em expor o lado bom da vida, ou o que elas julgam bom. Até aí não há nenhum problema quando se quer socializar, angariar amigos ou contatos, se divertir; a questão é quando isso se torna viral, o que é uma das características do meio virtual, e temos então um efeito dominó ao som de La vie en rose, numa busca incessante do parecer-se elegante ao alcance de um clique.
   A favor disso, precisamos de escapes para deixar nossa vida mais leve, o que nos define os afetos, as histórias que temos com as pessoas que amamos. E todos criamos nossa própria política do “pão e circo” para poder respirar um pouco num mundo que pode nos tirar o ar a qualquer momento. E assim nos apegamos ao lazer, em algum hobby, no futebolzinho de fim de semana, o bar com amigos, uma saída às compras, e isso é ótimo e necessário.
   Todavia ainda que a fronteira da comunicação não seja exata, tudo tem seu limite. Quando fazemos um perfil público para nos socializarmos virtualmente, está ali nosso rosto, nossas viagens, múltiplos happy-faces em todos os ângulos, mas também tem que estar presente o que pode acrescentar a quem interagimos, nossas indagações para além da crise existencial sobre qual marca de roupa é melhor, ou qual iogurte frozen convém consumir.
   Assinar para receber atualizações da grife de alta costura, da boutique famosa de decoração, do restaurante badalado, tudo bem; no entanto fazer suas atualizações apenas em torno disso, enquanto que o país vive uma crise crônica, onde o cidadão não se mobiliza, ou quando o faz não se leva a sério, - apenas para citar um exemplo -, me diz sobre essa pessoa que a sociedade como está, se mantém graças a esse tipo de atitude.
   Como versa o dito popular: “o que é moda não incomoda”; mas como seria bom que ter uma opinião formada, levar adiante o que se pensa na voz e no ato também fosse moda, para além da alta costura, da perfeição do corte, do uso do tecido, das cores e adereços da nova estação.
   Saber usar a cabeça é uma arte: ter uma postura diante das coisas que não estão corretas em nossa vida, na comunidade, no país, no mundo; focar no “fazer” sem imposições, mas agregações. Desejar uma sociedade mais humana e vestir-se dela: não existe atitude mais elegante à prêt à porter, seja se você está de salto alto ou calçado esportivo. 


Crônica publicada também nos jornais: Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário de Cachoerinha/Sinos e Correio de Gravataí/Sinos.


La vie en rose - Iggy Pop 


Agradecimentos............
   Agradeço a minha amiga, a escritora Mariazita, Maria Caiano Azevedo, por ter colocado no banner de seu blog "A Casa da Mariquinhas - com Lírios e Histórias de Encantar", o último parágrafo da minha crônica: Domingo diferente. 
   A Mariazita é uma pessoa que tem se tornado muito especial para mim, alguém que sinto como uma forte e indispensável presença. E o além-mar se faz único oceano, perto, bem pertinho de nós.
   Obrigada, querida amiga, por seres ponte e caminho!
   Convido vocês a conhecerem seu blog: http://acasadamariazita.blogspot.com.br/

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Domingo diferente

Fotografias de Pedro Costa - Autódromo de Estoril, Portugal

"...da quando Senna non corre più... non è più domenica e non si dimentica."

Desde que Senna não corre mais... não é mais domingo, e não se esquece.
(música de Cesare Cremonini – Marmellata #25)

   28 de agosto de 1992 – Treino de classificação do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, o francês Érik Comas sofreu um acidente e seu carro ficou atravessado na pista ainda ligado. O piloto que vinha atrás, quebrando o protocolo, parou e foi ao encontro de Érik, desligando o motor para evitar uma explosão. Nome do piloto: Ayrton Senna.
   1 de maio de 1994 – Curva Tamburello, Grande Prêmio de San Marino. Um piloto, ao ver que Ayrton Senna havia se acidentado gravemente, saiu do box com seu carro, chegou ao local passando a barreira da segurança, mas foi impossibilitado de prestar socorro. Nome do piloto: Érik Comas.
   Mais tarde, Comas afirmou em entrevista à rede francesa: “Ele salvou minha vida, mas cheguei muito tarde. Fui o último piloto a vê-lo. Foi difícil aceitar que tive a honra de fazer a última visita antes de ele ir embora. Para mim foi o fim do livro da Fórmula 1” (fonte: globoesporte.com).
   A consagração na revista inglesa Autosport em 2009 por 217 ex-pilotos que o elegeram como o maior de todos os tempos; o que também fez a britânica BBC em novembro passado (fonte: Gazeta Press), legitimou o que todos seus fãs já percebiam.
   Ao lembrar de Senna pelo que mais me tocou, diria que ele proporcionou aos torcedores da Fórmula 1 um domingo diferente. Aquele em que acordávamos mais cedo para passar o café, pois sabíamos que assistiríamos no mínimo a um espetáculo. E isso aconteceu a diversas famílias do mundo, independente do continente ou fuso horário.
   Ayrton fez um domingo diferente no GP de Mônaco em 1984, quando seu limitado Tolemans saiu do 13º lugar no Grid e chegou em primeiro sob chuva torrencial; mas com a prova paralisada, foi concedida a vitória à Alain Prost, que havia sido ultrapassado pelo brasileiro momentos antes. Até que em 21 de abril de 1985 aconteceu sua primeira vitória no autódromo de Estoril em Portugal, abaixo de mais chuva. Fora das pistas, suas colocações inteligentes e energia na defesa da segurança dos pilotos também se fez domingo diferente em qualquer dia da semana.



   


   25 de outubro de 2012 – quinta-feira, chuva no autódromo de Estoril, e lá estava eu no cenário da primeira vitória de Senna. Na noite anterior, a recepcionista do hotel, ao nos perceber brasileiros, comentou sobre o piloto; depois foi o garçom e um rapaz no autódromo, todos com saudosismo. E agora eu observava a pista e as arquibancadas vazias. Não ouvia o ronco dos motores, nem a Lotus passar em primeiro na linha de chegada, mas tive a certeza de que nosso brasileiro também era português, japonês, italiano, francês..., era do mundo.
   Muitas vezes me perguntei por que algumas pessoas chegavam mais cedo para a festa lá no Céu, quando ainda queríamos tanto a companhia delas. Hoje sei a resposta: porque Anjos sempre voam mais rápido.


   “Há um grande desejo em mim de sempre melhorar. Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos, que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja o que for, e então não fico muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente como piloto, mas como pessoa.” - Ayrton Senna     


Senna salvando Érik Comas - 1992

Érik Comas vai à Tamburello - 1994

Primeira vitória de Senna em 1985 - Estoril, Portugal


*Crônica publicada também no Diário Popular de Pelotas,
Diário de Viamão, VS (São Leopoldo).

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobre metamorfose, Maquiavel e infelicianos


   
Fotografia de Pedro Costa
   
   Diversos fatos que são noticiados nos levam a crer que o poder adquirido através de um cargo político faz uma espécie de metamorfose, transformando sujeitos aparentemente bem intencionados em alguém com propósitos no mínimo questionáveis. Mas será que o poder corrompe?
   É de Abraham Lincoln a famosa frase: “se quiser colocar à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”; para John Emerich Acton, conhecido como Lord Acton, historiador liberal do século 19: “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Segundo o filósofo Nicolau Maquiavel em sua obra “O Príncipe”, - escrita em 1513, no contexto do Renascimento, com o poder político na Itália bastante dividido -, a natureza humana seria essencialmente má, e os humanos almejariam obter o máximo de ganhos a partir do menor esforço, apenas fazendo o bem quando forçados a isso; ainda afirmou que “mesmo as leis mais bem ordenadas são impotentes diante dos costumes”, ou seja, colocando as possíveis mudanças históricas em segundo plano sujeitas a essa natureza humana.
   Ao se deter em Maquiavel, pensei hipoteticamente que se é intrínseco uma natureza má, desde os tempos das cavernas é provável que quem detinha o título de “melhor caçador”, por exemplo, ganhasse regalias, e concedesse outras a quem demonstrasse fidelidade, em uma espécie de “jetom da pedra lascada”. E assim, se formaram os primeiros grupos, guetos, tribos..., partidos? E quem duvida disso, não é mesmo?
   Em tempos atuais no Brasil, parecemos ter retornado a Versailles em época de Revolução Francesa, onde a nobreza ignorava os apelos do povo. Impossível não fazer um paralelo com as ideias de Maquiavel quando multidões protagonizam protestos de repúdio a nomeação de Marcos Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, inclusive com manifestos via redes sociais da internet. E o que se obtém em resposta? Ironias tal qual a famosa frase de Maria Antonieta: “se não têm pão, comam brioches”. Ou seja, o descaso em detrimento à opinião da maioria.
   Por conta dessa metamorfose que o poder exerceria ou da essência humana, seriam todos os que chegam ao poder o inverso do herói que tanto queríamos que fossem? Como cantava Cazuza: “meus inimigos estão no poder”. Mas não há exceções? De qualquer forma temos responsabilidade nas escolhas.

Crônica publicada também nos jornais:
Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário Popular (Pelotas), 
NH (Novo Hamburgo), Diário de Cachoeirinha/Sinos 
e Correio de Gravataí/Sinos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O susto do crachá

Foto-montagem de Ana Cecília Romeu

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que nesta terra miserável
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
(Augusto dos Anjos – in Versos Íntimos)


 Notícias e mais notícias de vários casos de atrocidades cometidos contra animais, crianças, mulheres, idosos..., enfim, do suposto mais “forte” abusando do mais “fraco” que me deixam a pensar sobre o inevitável rumo que nosso mundo está tomando ou que sempre tomou, e o quanto gostaria de não acreditar que esses fatos fossem verdadeiros.
   Não consigo entender o que move um ser humano a pensar que é superior a outro, ou mesmo superior à natureza, aos animais que tantas vezes nos oferecem lições incríveis. Qual o raciocínio, se existe algum, para que se chegue à conclusão de que se pode maltratar outra vida e legitimar-se com isso, muitas vezes postando publicamente suas “vitórias” em tempos de on-line, onde o imediatismo do “clic” do mouse e da foto por celular parece reger as atitudes mais torpes a serem expostas.
   Um mundo tão diferente daquele que meus pais me apresentaram ou dos sonhos de infância, onde a princesa linda e inteligente não pensava em ser melhor que os outros, se destacava e sustentava o título de heroína porque era alguém bom e justo.
   Hoje as pessoas se assustam se damos “bom dia”, “boa noite”, se perguntamos ao vizinho se está bem. Como se fossemos todos invisíveis, além disso aquele em cujo momento está numa posição dita subalterna parece ganhar visto de invisibilidade ad eternum com direito a passaporte à terra dos “comuns” e visto bloqueado à festa dos VIPs.
   Estive por estes dias no supermercado, e uma coisa que poderia ser banal me colocou em reflexão. Na hora de pagar fui muito bem atendida pela caixa e antes de sair a agradeci dizendo seu nome: “obrigada, Sabrina”, - a moça levou um susto -, foi então que apontei para seu crachá de onde fiquei sabendo como se chamava, ela sorriu envergonhada. Suponho que nunca é chamada pelo nome.
   Pois, sim, as pessoas têm nome, não são números em cartão ponto, não são estatísticas ou qualquer coisa que se possa medir pela "força". Não devem ser mensuradas pela insígnia de família perpetuada em testamento, ou ao contrário, pela ausência de herança a ser declarada no imposto de renda. As pessoas apenas merecem e devem ter respeito. Quando o ser humano entender alguns passos básicos, aqueles que estão no dia-a-dia próximos da percepção, quem sabe o rumo do mundo seja menos previsível.



Supertramp - Better days


Aviso..........
   Pessoal, troquei a apresentação do blog e o título nela para: Letras de Ana Cecília Romeu -  a fim de confirmar a tendência neste espaço virtual de serem publicados textos variados de minha autoria, não só os com conteúdo de humor. No demais tudo permanece como estava. 
   Agradeço a minha irmã, Isabel Rodrigues, pelo design, e a todos pela presença!

sexta-feira, 15 de março de 2013

"Fué la mano de Diós"

Fotografia de Pedro Costa - no Vaticano

Somente a esperança tem os joelhos nítidos.
(Juan Gelman - em Límites)

   Disse Maradona, argentino, ex-jogador de futebol, quando fez gol de mão na copa de 1986 contra a Inglaterra, e jurou que foi a ‘mão de Deus’, referindo-se à uma ajuda divina. Inevitável que eu fizesse uma analogia com a escolha do novo Papa, o sucessor de Bento XVI.
   Quando a fumaça branca do Vaticano sinalizou o “habemus Papam”, eu e mais milhões de brasileiros entramos numa torcida ao vivo como em final de Copa do Mundo, ainda que se tratasse de religião, e não de esporte. O bem cotado para o cargo máximo da Igreja Católica, o brasileiro, gaúcho natural de Cerro Largo, Dom Odilo Scherer, parecia cada vez mais se encaixar nas possibilidades.
   Com a necessidade de uma renovação na Igreja Católica, coisa que não se faz segredo a ninguém visto a perda em números de fieis, alguns escândalos que vieram à tona nos últimos anos, a estagnação em diversas questões; a renúncia de Bento XVI, mesmo assim, já tinha sido uma surpresa, o que não acontecia há 600 anos. A escolha de um novo Papa que fosse alguém fora da Europa, de um continente emergente como a América Latina, onde o número de católicos é significativo, tendo no Brasil seu maior expoente, levou a crer numa possibilidade real de um Papa brasileiro.
   O que não esperávamos era o nome de Jorge Mario Bergoglio, argentino, arcebispo de Buenos Aires, ser o novo Papa e primeiro da latino América, o Francisco, como se autonomeou. Um drible surpreendente como se Messi, o também argentino, e eleito o melhor jogador de futebol da atualidade, nos tivesse roubado a bola num encanto de segundos e feito gol bem na frente de nossos olhos inertes.
   Mas o que a Argentina tem que nos dá a sensação de chegar antes do Brasil em vários ‘títulos’? Não há dúvidas que os argentinos, em especial os portenhos, dirigem rápido, o que faz o trânsito de Buenos Aires ser muito “rápido”, aqui não existe outra palavra melhor para qualificá-lo; mas, para além de Juan Manuel Fangio, o primeiro piloto de Fórmula 1 a vencer cinco campeonatos, eles têm a linha de metrô mais antiga da América Latina. A Argentina ainda carrega em suas conquistas cinco prêmios Nobel: dois da Paz, dois da Medicina e um da Química. Por duas vezes, ganharam o Oscar de melhor filme estrangeiro com: La historia oficial e El secreto de sus ojos.
   Quem conhece a Argentina pode ainda atestar que no país de Borges, Girondo, Gelman e Cortázar o pessoal lê muito, protesta quando deve, não deixa passar em branco questões duvidosas na política, e ainda tem uma das capitais mais apaixonantes do mundo.
   A mão de Deus é para todos. E assim esperamos que o novo Papa, um argentino, conduza os rumos da Igreja Católica a um maior entendimento em diversas questões, e ele também seja uma mão a trazer um pouco de segurança a tanta gente que ainda crê no principal campeonato: o da paz mundial.


*Crônica publicada também no Jornal O DIA do Rio de Janeiro, 
Jornal do Comércio de Porto Alegre, 
Diário Popular de Pelotas,
Jornal A  Plateia de Sant'Ana do Livramento, 
NH de Novo Hamburgo 
e Gazeta do Sul de Santa Cruz do Sul.


Mariposa Techinicolor - Fito Páez

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Fados, tangos e outros tantos


melodias por mar, terra e ar

Há um pedaço de solidão em cada música,
e uma nota de sol-lidão nos descompassos. 
(Ana Cecília Romeu)

Fotografia de Pedro Costa - em Zambujeira do Mar
   
   Ao pensar sobre o que motiva os compositores, poetas da música, a traçarem mensagens em forma de melodia me questionei sobre o que é o “fogo que arde sem se ver”, segundo Camões, tão imenso que deva ser revelado.
   Conhecer o fado de Portugal, é mais que conhecer uma música é traduzir Portugal. Quando por lá estive, me foi provado o que já diziam na máxima: “saudades é uma palavra que só existe no idioma português”. E assim fez-se a doce melancolia em forma de música, avisando a “bailarmos longe do mar”, e parece ele ser o grande responsável por todas presenças e ausências, da deriva e da navegação, por perder-se, encontrar-se e não encontrar, por desejarmos ser um anônimo errante, um pirata sem bandeira.
   No Uruguai, os Pampas, tipo de relevo com pouquíssimas depressões em campos extensos, onde se visualiza o sol cair na linha do horizonte, é o cenário da milonga. Parece que ninguém sabe cantar tão bem a solidão como os uruguaios. “Tenho uma solidão tamanha que posso organizá-la como uma procissão”, um dia disse Mário Benedetti. Assistir ao pôr-do-sol nesse país é uma experiência única de solidão compartilhada, aquela em que fizemos na presença da natureza, do cheiro da terra úmida, uma terra que causa bradicardia ao ouvirmos Ana Prada: “gota a gota passam os minutos caindo, o tempo corre até o mar, e eu vou terra adentro”.
   O tango, ritmo popularizado na Argentina, parece viver dos compassos e descompassos, do ar e da asfixia, nos bons ares de Buenos Aires, essa capital apaixonada que poderia estar em qualquer parte do planeta, mas está nesse país das “ganas”, dos desejos, que não só tem um grande jogador de futebol, Messi; um grande ator, Darín, (outras formas de se escrever poesia), mas também onde surgiu “El dia que me quieras”, é certo, pelas mãos de um uruguaio, Gardel, e de um brasileiro, Le Pera; não pela “mano de Diós” de Maradona. Essa dupla fez um gol de placa ao imortalizar a melodia e os versos: “Acaricia meu sono, o suave murmúrio do teu suspirar. Como ri a vida se os teus olhos negros me querem olhar.”
   E o Brasil, “gigante pela própria natureza”, parece misturar tudo, mar, terra e ar: a solidão dos Pampas gaúchos e também de todos os planaltos; o mar de um litoral a perder de vista e que dá saudades; e o ar e a falta dele numa Amazonas impar. E aqui nasceu o samba genuíno de quem ama muito, mas por vezes é benevolente em excesso ao aceitar os “Renans” e os “Calheiros”, mas que não perde a esperança quase nunca, como cantava Cartola: “bate outra vez com esperanças o meu coração pois já vai terminando o verão, enfim.”
   Saudades, solidão, desejos, esperança: sentimentos universais por mar, terra e ar. Nossa vida é toda mais bela quando ouvimos a música da alma, desses escritores da melodia e das letras que fazem do seu concerto sem holofotes, o de quem ouve. Como cantava Cazuza “faz parte do meu show”, esse show que quando sobe aos palcos passa a ser propriedade afetiva de todos nós.
   Pelas mãos dos poetas-gente dos fados, milongas, tangos, sambas, da terra, do além-mar e do além-fronteiras, conjugamos a paixão como sentados à mesa de um bar na nossa esquina, conversa aqui e ali em ‘acordes’ primeiros.  Dormir, para quê?

Dedico aos compositores de música-alma,
em especial a Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.
(Rio de Janeiro – 1958/1990)




Faz parte do meu show
Composição: Cazuza e Renato Ladeira

Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom

Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão



Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num 'clip' sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e 'rock'n roll'

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Meu amor, meu amor, meu amor..


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Saudades publicitárias em dois tempos

O Peixe - nanquim sobre papel couchet - de Ana Cecíla Romeu*

Foi divulgado pelas redes sociais a comemoração de dois dias: o dia das saudades - 30 de janeiro (como se essa velha senhora tivesse um dia certo para aparecer); e o dia do publicitário - 01 de fevereiro, minha profissão desde meus 17 anos. Compartilhei fragmentos que por aqui também deixo.


Primeiro tempo: saudades
- Último parágrafo de uma crônica ainda em construção -

Sal-dades

   Saudades se resolvem no cartão de crédito com saldo ilimitado, assim se viaja por ar, mar e terra; se ama, (re)ama e conjuga o verbo (a)mar, porque só no crédito incondicional temos mais tempero no prato do dia, aquele prato simples, o pronto que nada se espera, mas quando provamos, sentimos o gostinho de comida da mãe, - até se o arroz está um pouco empapado, ou o feijão grudou no fundo da panela -, mas a memória do paladar se transforma em saldo perene. E assim se cumprem as saudades: na presença da ausência que ainda se fará.



Segundo tempo: o publicitário

   Essa profissão nos faz descobrir que podemos sobreviver apenas com 4 horas de sono, e às vezes nenhuma; que podemos contar o mundo em 15 segundos; que criatividade não é obrigação, é matrimônio; que público-alvo é a pessoa por quem nos apaixonamos e a única que devemos ouvir sem questionar; que as críticas devem ser selecionadas e quase sempre ignoradas; que as críticas sempre virão, então existe a palavra "foco" - com esta namoramos, noivamos, casamos, mas principalmente temos que fazer amor; que discutir a relação com o cliente sempre é uma coisa boa; que podemos escrever a qualquer hora e sob quaisquer condições; e que os rabiscos nem sempre precisam de uma arte-final; que muitas vezes a Grande Ideia vem sem avisar, e precisamos estacionar o carro no acostamento, ou sair da piscina correndo para buscar o bloco de anotações no vestiário; que devemos ler de tudo, prosa, poesia, bula de remédio e anedota de marciano, mas principalmente, ler pessoas, são elas as que mais nos ensinam; que o serviço não é para ontem, é para anteontem; e por fim, descobrimos que o relógio é sempre pontual.
   Ser publicitário não é fácil, mas ninguém nos enganou, já sabíamos disso, pois amamos o difícil!


Prorrogação


   E tanto em comum nos dois tempos, e quanto das saudades e do nosso trabalho pontuam esse tempo, o relógio que cronometra e o que esquece; o tempo passado que teima em ser futuro; o impossível, a luta contra o impossível e todos os possíveis que podem se fazer numa Grande Ideia, num Grande Amor ou tudo aquilo que for digno de saudades e o que for digno do ofício; ou o ofício das saudades, ou as saudades do ofício. E o foco: no trabalho, a concentração; nas saudades, a desconcentração e o desconcerto. Arrumando a vida em fusos e confusos, o trabalho e os sentimentos; em inverso, os sentimentos com e sem trabalho, a vocação, o ofício, a profissão, os amores, as amizades, o que gostamos e o que evitamos, o que apagamos e o que salvamos, tudo que nos compõe nesse encaixe de peças que chamamos de vida, em dois tempos ou mais.


*Mostrei essa ilustração, O Peixe, em entrevista para meu segundo emprego. 
Guardo ela como um pedaço daquele tempo de muitas tentativas.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Desafio Marat


Interferência em imagem retirada da internet.
   
   No cansaço iminente,
sem querer mais me esconder
assim reencontrei a vida,
e foi no espelho,
em duas pedrinhas nos olhos que sorriam.
(fragmento de Pedrinhas de beijo – de minha autoria)

   Marat Safin, ex-tenista russo que fez sua aposentadoria em 2009, ainda hoje é lembrado por seu temperamento explosivo nas quadras que sempre renderam um show à parte com direito a raquetes quebradas e toda sorte de caretas e gritos que compunham verdadeiro espetáculo. Toda vez que Marat era colocado à prova por um adversário forte, ou mesmo quando cometia uma sequência de erros, o descontrole emocional ficava evidente, e não raras vezes perdia o foco das jogadas. Isso não o impediu de ser um dos maiores jogadores de tênis de todos os tempos.
   Em muitos momentos da vida somos testados em nossos limites emocionais, e como nesse esporte, isso pode ser decisivo.
   Fiquei pensando sobre esses desafios e que cada um de nós tem o seu ponto fraco, onde percebemos ali nossa linha fronteiriça entre o querer e o poder, o que passa pelo autoconhecimento e pela vivência, mas como no dito popular “a experiência é um pente que se usa quando se fica careca”, nem sempre a solução vem a tempo e hora, e o desafio de melhorar torna-se ainda mais difícil: o de ser mais vezes o Marat vencedor do que o quebrador de raquetes.
   A verdade é que a dualidade forte/fraco, efeitos/defeitos nos compõe e sermos ela por excelência é sermos nós.
   Viver já nos oferece um contrato de pré-requisitos, uma bula de remédios com posologia especificada em letras miúdas a cumprir, onde o fazer se sobrepõe ao ser. Talvez apenas tentar amenizar nossas fraquezas já seja o suficiente.
   Pensando na frase de Millôr Fernandes: “todo homem nasce original e morre plágio”, como achar o ponto de equilíbrio entre o superar fraquezas e o não perder a identidade?
   Creio que devamos analisar até onde elas podem prejudicar outras pessoas, porque tentar a perfeição talvez seja beber do impossível em doses homeopáticas.
   Marat Safin não seria ele mesmo se não tivesse quebrado tantas e tantas raquetes. Vamos nos permitir quebrá-las de vez em quando, descer do salto, nos molhar na chuva, contanto que seja nossa própria chuva. Se isso não prejudicar ninguém, será no mínimo porta aberta ao bom humor ou um grito de “estou vivo” o que pode ser suficiente para nos eternizamos de forma autêntica, e não sermos imagem e semelhança de clone perfeito: sem nome, sobrenome e alma.


Crônica publicada nos jornais: NH (Novo Hamburgo), 
Diário Popular - seção Análise (Pelotas),
Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário de Cachoeirinha/Sinos e Correio de Gravataí/Sinos.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Alma cabeluda




"Quando a lua estiver na sétima casa, e Júpiter alinhar-se com Marte, então a paz guiará os planetas, e o amor dirigirá as estrelas". 
Fragmento de Aquarius, música tema do filme Hair.

   Hair, filme dirigido por Milos Forman (EUA/1979), consegue materializar como película todos os anseios de uma geração. O roteiro conta a história de um rapaz do interior que passa por Nova Iorque um dia antes de se alistar para a Guerra do Vietnã, e conhece um grupo de hippies com os quais passa a conviver.
   O filme marcou história, mas não parou no tempo. Retrata a busca pela "paz mundial", a grande utopia pregada desde o século passado, mas um acordo de cavalheiros com o presente. Um nirvana de conceitos, onde o respeito ao diferente impera, tendo consciência de que somos seres em constante transformação, absorvendo, construindo; reconstrução e destruição, no acertar e errar, - a iconoclastia cotidiana -; mas buscando nossas histórias nas pegadas em conjunto, na areia marcada por outros pés. O respeito ao planeta, à natureza, ao próximo, até ao vizinho que mora ao lado, que deve lá ter seu motivo de ser tão chato.
   Tudo na vida pode dar certo, mesmo que pareça que está errado, é o desafio constante. Se fosse fácil e bonitinho, era só resolver algumas equações no café da manhã e teríamos um dia perfeito.
   O Hair é mais que isso, propõe o desafio do dia-a-dia, o choque de gerações e até de nós com nós mesmos, num constante divórcio do ir e vir individual: o descobrir suas capacidades e testar seus limites, de outra forma não tem como evoluir.
   A partir disso, se pode pensar na metáfora da alma cabeluda, a que está disposta a novos penteados, um dia quer prendê-los, em outro soltá-los, colocar adereços, lavar, escovar. Por outro lado, almas com alopecia não se permitem opções, concebem tudo em regras pré-determinadas, privilegiam a si próprias; ao coletivo, sem opções de ter o privilégio de soltarem seus cabelos esvoaçantes numa brisa da manhã.
   É meus caros, quem tem alma cabeluda reconhece nos outros todos os cabelos que têm, e propõe uma marcha quase silenciosa em busca de uma magia, um "clic" do destino: a grande utopia, a mística, que possa trazer melhor vida a todos. A verdadeira lei da compensação: se eu fizer o bem, o bem retornará. Lei da física? Pode ser, mas calcada no respeito, apesar do desafio. Ser pacífico, mas sem atitudes estanques. "Viver, e não apenas aguentar". Esse é o Hair.


Aquarius - filme Hair

*Crônica reeditada - primeira crônica publicada no HumorEmConto há dois anos atrás. 
A todos uma feliz sequência de dias!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Fim-começo do nosso mundo!

    
Charge de autoria de Jaime Guimarães
- para visualizar melhor, clique na imagem -
   
   Segundo a cosmologia maia a Terra tem cinco ciclos, estaríamos nos último que culminaria no dia 21 de dezembro. Para o autor de “Maya Cosmogenese”, John Jenkins, a profecia maia baseia-se num emparelhamento astronômico muito raro, onde o sol de solstício se alinhará com o centro da nossa galáxia, e isso, somado ao fenômeno da precessão: uma mudança do eixo da Terra em relação à esfera celeste.
   A partir desse estudo, surgiram previsões para o fim do mundo nessa data, onde haveria a inversão dos polos da Terra devido a distúrbios nos campos magnéticos do sol, que ocasionariam “tormentas solares”.
   Muito tem se comentado sobre isso, assim como, se o mundo tivesse uma data específica para seu fim, como poderíamos aproveitar esse tempo derradeiro.
   Recordei-me do intenso filme da diretora Isabel Coixet, de 2003, que chegou aqui no Brasil com o título de “Minha vida sem mim”, onde uma jovem de 23 anos, sabendo-se portadora de doença terminal, faz uma lista de tudo que ainda quer realizar, coisas que sempre desejou, mas nunca lhe foram possíveis.
   Interessante como o ser humano parece ter isso intrínseco: colocar a tranca na porta somente depois que o ladrão invadiu a casa. A vida é breve, pensando assim, toda hora é tempo de realizar sem esperas. Independente de quando e se o mundo vai acabar mesmo, a vida é um ser/estar aqui e agora.
   O que você colocaria na lista de coisas ainda a realizar? 
   Na iminência ou não de um apocalipse, isso não seria a preparação para o fim, e, sim, a proposta de uma gênese pessoal, uma espécie de auto descobrimento. Ao descobrirmos o que nos realizaria, assim se faria nossa realização.
   Penso que concretizar isso, constitui nosso Ser-feliz, e a felicidade pessoal pode estar tão perto, como dizia Quintana, em “Da felicidade”: “Quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, por toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz.”.
   A felicidade pode ser matemática simples: a cada coisa que se faça por obrigação, se permitir fazer duas por opção, que seja comer um croissant recheado de doce de leite.
   Além disso, a realização é o que nos eterniza, e mesmo que supostamente o planeta findasse teríamos sido felizes, mais do que tristes e frustrados. E isso não é tudo que desejamos? Buum!

Crônica publicada nos jornais: NH (Novo Hamburgo), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário Popular (Pelotas), Diário de Cachoeirinha, Diário de Viamão e Correio de Gravataí.


Senza fine - Ornella Vanoni


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Pessoal, agradeço imenso pela companhia de todos neste ano! 
Desejo ótimas festas a vocês e suas famílias, 
e um próximo ano cheio de boas realizações. 
Que qualquer dificuldade, seja bem pequenina, sinceramente.




Um abraço grande a todos, nos vemos em 2013!

sábado, 8 de dezembro de 2012

Vo-voar é para pa-pássaro

Desenho de autoria da minha filha Luíse de 5 anos.

   Contam que um instrutor de voo que era gago falava com certa frequência: “vo-voar é para pa-pássaro”. Nunca con-concordei tanto com a-a-algo.
   Quem tem ‘respeito’ por avião tem certeza que voar é para pássaro. Na eminência de pegar um voo direto Porto Alegre-Lisboa no último dia 4 de outubro, para driblar esse ‘respeito’, comprei um colar com círculos de todos os tamanhos, logo pensei que na hora de decolar poderia ser boa estratégia para despistar meu inimigo interior, se ficasse contando as bolinhas, mas enquanto aquela coisa subia nem me lembrei se tinha pescoço, quanto mais colar.
   Dias antes, visitando amigos, um recomendou-me tomar um remedinho “você dorme e só acorda quando chega lá”, logo descartei isso, pois dizem que tudo que ingerimos tem o efeito dobrado lá no ar... humm.... pressão baixa, medo, e remedinho vezes dois? O outro amigo disse que eu não me importasse, porque se acontecer algo é tudo muito rápido... (rápido?... O quê?), foi quando marido assinalou com a fala definitiva: “Ana tu não vai acabar assim”, (mas existia essa possibilidade de... de...? SOCORRO!).
   É entrar no avião e começa a seção tortura: livrinho com ilustrações de “o que fazer em caso de emergência”, com bonequinhos sorridentes, - se as companhias aéreas fossem francas, seria um livro em branco. “Cairão máscaras de oxigênio”, “embaixo da poltrona você encontrará o colete salva-vidas”... (SOCORRO!)
   Nessa hora todas as frases clichês do tipo: “você tem que enfrentar seus medos”, parecem clichê em dobro, talvez efeito dos pés de altura. E ainda mais o voo teria 10h45 de duração, simmmm... significa ter medo de uma coisa e ter que ficar dentro dessa coisa todo esse tempo: o regulamentar, mais prorrogação e pênaltis.
   Entre decolar e até o avião emparelhar, se é que aquilo emparelha, tenho vertigem e descobri que existe um cardápio delas – vertigens para frente, para os lados..., e nada de sentir minha fisgadinha da sorte no joelho. Pois tenho há muitos anos “uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito” – foi assim que o ortopedista se referiu. Não sei por que, mas toda vez que sinto a dorzinha da lesão acontece algo bom, mas nada de senti-la... Depois de algumas horas de voo, ela começou. Aleluia! Para comemorar, levantei-me – sim eu caminhei no avião! – e me dirigi aos fundos para pegar um copo de suco ‘natural’ de laranja.
   O que me impressiona é como dormem dentro daquilo, tinha um sujeito atrás de mim que roncava! Será que tomou o remedinho? Lembrei-me de algumas milongas preferidas, esse ritmo dos pampas que sempre me acalma, e arrisquei ir ao toillet, foi quando descobri que não sentia medo dentro do banheiro do avião, por quê? E tornei-me assídua frequentadora.
   Nunca entendi também porque as turbulências se intensificam na hora da refeição. Será que só eu percebo isso? Mas..., não comer a sobremesa no último jantar do Titanic pode não ter sido a opção certa. Então, minha comida sumiu rapidinho.
   Durante o voo, não consegui assistir ao filme ‘El cuento chino’, com meu ator preferido Ricardo Darín, não me concentrei, - perdón, Darín. Então deixei no desenho dos Flintstone, e o “Yaba Daba Dooo” funcionou! Digamos..., mais de duzentas vezes.
   E finalmente o comandante anunciou os procedimentos de aterrissagem. De novo esqueci de contar as bolinhas do meu colar, mas me agarrei ao golfinho de pelúcia que minha filha levava, até ouvir o ruído do ‘puf’. Estamos em terra firme, é a glória do puf! Além disso, a certeza de que se vo-voar é para pa-pássaro, viver é para todos nós.
   Por terra, mar ou ar, nos agarremos às oportunidades sem pensar se serão únicas, porque tentar viver vale mais que muitos me-medos. Boa viagem!

Durante o voo, tentando disfarçar o me-medo,
enquanto um sujeito lá atrás dormia e ainda com a janela aberta (SOCORRO!)

Iahuuuu! Chegada no aeroporto de Lisboa! 
Viva à Terra-Mãe!
Recompensa: sentir a liberdade ao lado de um penhasco em Zambujeira do Mar,
ali, pertinho do céu!
Nem me lembrei que tenho medo de altura.

No penúltimo dia, em Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa,
foi quando me dei conta que não poderia regressar nadando...

Sugestão de música para tranquilizar - milonga uruguaia para a alma.

Amargo de caña - Ana Prada