Levanta-se, caminha lentamente até o
espelho, passa batom coral e sai às ruas.
Observou suas linhas de expressão, a
pele aveludada de tessitura adulta se fazia depoimento vivo: sorrir e chorar
geravam vincos e vínculos.
Lembrou-se do medo de falar e das
muitas vezes que lhe taparam a boca. Que havia chorado ao depositar seu
primeiro voto; de quando era adolescente e debutou como um pequeno ponto em sua primeira
multidão, fora em noite chuvosa e fria no centro de Porto
Alegre, não coloriu os lábios e vestiu-se de negro.
Na fronte, imagens difusas de
espinhos e pétalas. Ainda acreditava nas flores e no visto de ida ao país que
não conhecia, mas sentia saudades. Levantou-se, caminhou lentamente até
o espelho, passou batom coral e saiu às ruas de um Brasil que não era mais o
mesmo.
Alma II - giz de cera sobre papel Canson, por Ana Cecília Romeu
Se te quero é porque
és
meu amor minha
cúmplice e tudo
e na rua lado a lado
somos muito mais que
dois.
(fragmento de Te quiero – de
Mário Benedetti)
Não somos uma metade que procura outra
metade para se completar, somos um inteiro que procura outro inteiro para
transcender.
O amor nos acrescenta para além de mera
unidade, nos transformamos pelo olhar do outro, é quando se dá o complemento. Uma
matemática toda esquisita e subjetiva para além da lógica: quando um somado a
um é mais que dois, como nas sábias palavras do poeta uruguaio Benedetti.
Nessa equação sentimental, alguns dizem que o problema é que se acredita
no ‘romance rosa’; no que contraponho, penso que a questão é quando não se crê
nele. Temos direito a sermos princesas ou príncipes. Não matem a cinderela, por
favor! Como chegar à majestade de nosso reino amoroso, sem antes
experimentarmos ser filhos dele, e se deixar levar, simplesmente? É quase como
decorar o ato de contrição sem mesmo ter pecado. Entendendo que isso é uma
fase, pois que ela seja ‘eterna enquanto dure’, como disse o poeta.
A vivência do paraíso nos trará mais adiante
a certeza da continuidade, ou das trevas. Quem inventou essa coisa de amor
planejou para que o Gênesis fosse a paixão, que nem sempre significará prenúncio
de Apocalipse.
Quando amamos, olhamos para trás e não
conseguimos imaginar o que já fizemos sem ser com aquela pessoa. Até os
momentos de discussão foram os mais belos, nossa melhor atuação, mas porque foi
compartilhado com aquele ator, não com outro.
O amor não é morno, ele oscila, passa por
todas as estações, todos os nossos tempos. É como um morrer e permanecer vivo,
como dizia Quintana. E um saber-se acabar no outro para se reiniciar: “não
morro de amor, morro de ti, amor”, sentenciou o mexicano Jaime Sabines.
E é um sentimento exigente. O amor altruísta
é o fraternal; o amor a dois é troca, o famoso ‘dar e receber’ para além da
permuta de fluídos, e não perdura se não temos a contrapartida, é quando nos dispomos
a ser cadastrados numa espécie de fila do sopão, mas queremos que o outro
também tenha se credenciado.
Só amamos quem conhecemos o suficiente para
perceber que o som nos agrada quando ouvimos, e ansiamos por repetição, sonhando
ser possível o lado B nesse CD, pois o ser amado é como aquele seriado que
colocamos em horário nobre e aguardamos cada capítulo: ainda que alguns
episódios nos decepcionem, esperamos nova temporada.
O amor deixa nossa alma tão hipercalórica
que já não cabe mais no corpo, é quando somos mais que um. E mesmo que o tempo
desbote, aqui e ali, o frescor das primeiras cores, desejamos a aquarela
inteira: o ontem que queremos hoje, porque nos trará nova manhã. Isso para mim
é o que chamam de amor.
Crônica publicada também nos jornais: O DIA (Rio de Janeiro); NH (Novo Hamburgo);
Diário Popular - seção Análise (Pelotas) e site do jornal Correio Rural.
Um
comportamento tem me chamado a atenção nas redes sociais da internet, a necessidade das
pessoas em expor o lado bom da vida, ou o que elas julgam bom. Até aí não há
nenhum problema quando se quer socializar, angariar amigos ou contatos, se
divertir; a questão é quando isso se torna viral, o que é uma das
características do meio virtual, e temos então um efeito dominó ao som de La
vie en rose, numa busca incessante do parecer-se elegante ao alcance de um
clique.
A favor
disso, precisamos de escapes para deixar nossa vida mais leve, o que nos
define os afetos, as histórias que temos com as pessoas que amamos. E todos criamos
nossa própria política do “pão e circo” para poder respirar um pouco num mundo
que pode nos tirar o ar a qualquer momento. E assim nos apegamos ao lazer, em
algum hobby, no futebolzinho de fim de semana, o bar com amigos, uma saída às
compras, e isso é ótimo e necessário.
Todavia ainda
que a fronteira da comunicação não seja exata, tudo tem seu limite. Quando
fazemos um perfil público para nos socializarmos virtualmente, está ali nosso
rosto, nossas viagens, múltiplos happy-faces em todos os ângulos, mas também
tem que estar presente o que pode acrescentar a quem interagimos, nossas
indagações para além da crise existencial sobre qual marca de roupa é melhor,
ou qual iogurte frozen convém consumir.
Assinar para
receber atualizações da grife de alta costura, da boutique famosa de decoração,
do restaurante badalado, tudo bem; no entanto fazer suas atualizações apenas em
torno disso, enquanto que o país vive uma crise crônica, onde o cidadão não
se mobiliza, ou quando o faz não se leva a sério, - apenas para citar um exemplo -,
me diz sobre essa pessoa que a sociedade como está, se mantém graças a esse tipo
de atitude.
Como versa o
dito popular: “o que é moda não incomoda”; mas como seria bom que ter uma
opinião formada, levar adiante o que se pensa na voz e no ato também fosse
moda, para além da alta costura, da perfeição do corte, do uso do tecido, das
cores e adereços da nova estação.
Saber usar a
cabeça é uma arte: ter uma postura diante das coisas que não estão corretas em
nossa vida, na comunidade, no país, no mundo; focar no “fazer” sem imposições, mas
agregações. Desejar uma sociedade mais humana e vestir-se dela: não existe
atitude mais elegante à prêt à porter, seja se você está de salto alto ou
calçado esportivo.
Crônica publicada também nos jornais: Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul),
Diário de Cachoerinha/Sinos e Correio de Gravataí/Sinos.
La vie en rose - Iggy Pop
Agradecimentos............
Agradeço a minha amiga, a escritora Mariazita, Maria Caiano Azevedo, por ter colocado no banner de seu blog "A Casa da Mariquinhas - com Lírios e Histórias de Encantar", o último parágrafo da minha crônica: Domingo diferente.
A Mariazita é uma pessoa que tem se tornado muito especial para mim, alguém que sinto como uma forte e indispensável presença. E o além-mar se faz único oceano, perto, bem pertinho de nós.
Obrigada, querida amiga, por seres ponte e caminho!
28 de agosto de 1992 – Treino de
classificação do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, o francês Érik Comas
sofreu um acidente e seu carro ficou atravessado na pista ainda ligado. O
piloto que vinha atrás, quebrando o protocolo, parou e foi ao encontro de Érik,
desligando o motor para evitar uma explosão. Nome do piloto: Ayrton Senna.
1 de maio de 1994 – Curva Tamburello,
Grande Prêmio de San Marino. Um piloto, ao ver que Ayrton Senna havia se
acidentado gravemente, saiu do box com seu carro, chegou ao local passando a
barreira da segurança, mas foi impossibilitado de prestar socorro. Nome do
piloto: Érik Comas.
Mais tarde, Comas afirmou
em entrevista à rede francesa: “Ele salvou minha vida, mas cheguei muito tarde.
Fui o último piloto a vê-lo. Foi difícil aceitar que tive a honra de fazer a
última visita antes de ele ir embora. Para mim foi o fim do livro da Fórmula 1”
(fonte: globoesporte.com).
A consagração na
revista inglesa Autosport em 2009 por 217 ex-pilotos que o elegeram como o
maior de todos os tempos; o que também fez a britânica BBC em novembro passado
(fonte: Gazeta Press), legitimou o que todos seus fãs já percebiam.
Ao lembrar de Senna
pelo que mais me tocou, diria que ele proporcionou aos torcedores da Fórmula 1
um domingo diferente. Aquele em que acordávamos mais cedo para passar o café,
pois sabíamos que assistiríamos no mínimo a um espetáculo. E isso aconteceu a
diversas famílias do mundo, independente do continente ou fuso horário.
Ayrton fez um domingo
diferente no GP de Mônaco em 1984, quando seu limitado Tolemans saiu do 13º lugar no Grid e chegou em primeiro sob chuva torrencial; mas com a prova
paralisada, foi concedida a vitória à Alain Prost, que havia sido ultrapassado
pelo brasileiro momentos antes. Até que em 21 de abril de 1985 aconteceu sua primeira
vitória no autódromo de Estoril em Portugal, abaixo de mais chuva. Fora das
pistas, suas colocações inteligentes e energia na defesa da segurança dos
pilotos também se fez domingo diferente em qualquer dia da semana.
25 de outubro de 2012
– quinta-feira, chuva no autódromo de Estoril, e lá estava eu no cenário da
primeira vitória de Senna. Na noite anterior, a recepcionista do hotel, ao nos
perceber brasileiros, comentou sobre o piloto; depois foi o garçom e um rapaz
no autódromo, todos com saudosismo. E agora eu observava a pista e as arquibancadas
vazias. Não ouvia o ronco dos motores, nem a Lotus passar em primeiro na linha
de chegada, mas tive a certeza de que nosso brasileiro também era português,
japonês, italiano, francês..., era do mundo.
Muitas vezes me
perguntei por que algumas pessoas chegavam mais cedo para a festa lá no Céu,
quando ainda queríamos tanto a companhia delas. Hoje sei a resposta: porque Anjos
sempre voam mais rápido.
“Há um grande desejo em mim de sempre melhorar.
Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos,
que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja o que for, e então não fico
muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente como piloto, mas como
pessoa.” - Ayrton Senna
Senna salvando Érik Comas - 1992
Érik Comas vai à Tamburello - 1994
Primeira vitória de Senna em 1985 - Estoril, Portugal
*Crônica publicada também no Diário Popular de Pelotas, Diário de Viamão, VS (São Leopoldo).
Diversos
fatos que são noticiados nos levam a crer que o poder adquirido através de um
cargo político faz uma espécie de metamorfose, transformando sujeitos
aparentemente bem intencionados em alguém com propósitos no mínimo
questionáveis. Mas será que o poder corrompe?
É de
Abraham Lincoln a famosa frase: “se quiser colocar à prova o caráter de um
homem, dê-lhe poder”; para John Emerich Acton, conhecido como Lord Acton,
historiador liberal do século 19: “o poder tende a corromper e o poder absoluto
corrompe absolutamente”. Segundo o filósofo Nicolau Maquiavel em sua obra “O
Príncipe”, - escrita em 1513, no contexto do Renascimento, com o poder político
na Itália bastante dividido -, a natureza humana seria essencialmente má, e os
humanos almejariam obter o máximo de ganhos a partir do menor esforço, apenas
fazendo o bem quando forçados a isso; ainda afirmou que “mesmo as leis mais bem
ordenadas são impotentes diante dos costumes”, ou seja, colocando as possíveis
mudanças históricas em segundo plano sujeitas a essa natureza humana.
Ao se
deter em Maquiavel, pensei hipoteticamente que se é intrínseco uma natureza má,
desde os tempos das cavernas é provável que quem detinha o título de “melhor
caçador”, por exemplo, ganhasse regalias, e concedesse outras a quem
demonstrasse fidelidade, em uma espécie de “jetom da pedra lascada”. E assim,
se formaram os primeiros grupos, guetos, tribos..., partidos? E quem duvida
disso, não é mesmo?
Em
tempos atuais no Brasil, parecemos ter retornado a Versailles em época de
Revolução Francesa, onde a nobreza ignorava os apelos do povo. Impossível não fazer um paralelo com as ideias
de Maquiavel quando multidões protagonizam protestos de repúdio a nomeação de
Marcos Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, inclusive com manifestos
via redes sociais da internet. E o que se obtém em resposta? Ironias tal qual a
famosa frase de Maria Antonieta: “se não têm pão, comam brioches”. Ou seja, o
descaso em detrimento à opinião da maioria.
Por conta dessa
metamorfose que o poder exerceria ou da essência humana, seriam todos os que
chegam ao poder o inverso do herói que tanto queríamos que fossem? Como cantava
Cazuza: “meus inimigos estão no poder”. Mas não há exceções? De qualquer forma
temos responsabilidade nas escolhas.
Crônica publicada também nos jornais: Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul),
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te
espera! O Homem que nesta terra miserável Mora entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. (Augusto dos Anjos – in Versos Íntimos)
Notícias e mais notícias de vários casos de atrocidades
cometidos contra animais, crianças, mulheres, idosos..., enfim, do suposto mais
“forte” abusando do mais “fraco” que me deixam a pensar sobre o inevitável rumo
que nosso mundo está tomando ou que sempre tomou, e o quanto gostaria de não
acreditar que esses fatos fossem verdadeiros.
Não consigo entender o que move um ser humano a pensar que é
superior a outro, ou mesmo superior à natureza, aos animais que tantas vezes
nos oferecem lições incríveis. Qual o raciocínio, se existe algum, para que se
chegue à conclusão de que se pode maltratar outra vida e legitimar-se com
isso, muitas vezes postando publicamente suas “vitórias” em tempos de on-line,
onde o imediatismo do “clic” do mouse e da foto por celular parece reger as
atitudes mais torpes a serem expostas.
Um mundo tão diferente daquele que meus pais me apresentaram
ou dos sonhos de infância, onde a princesa linda e inteligente não pensava em
ser melhor que os outros, se destacava e sustentava o título de heroína porque era
alguém bom e justo.
Hoje as pessoas se
assustam se damos “bom dia”, “boa noite”, se perguntamos ao vizinho se está bem.
Como se fossemos todos invisíveis, além disso aquele em cujo momento está numa posição
dita subalterna parece ganhar visto de invisibilidade ad eternum com direito a passaporte à terra dos “comuns” e visto
bloqueado à festa dos VIPs.
Estive por estes dias no supermercado, e uma coisa que
poderia ser banal me colocou em reflexão. Na hora de pagar fui muito bem
atendida pela caixa e antes de sair a agradeci dizendo seu nome: “obrigada,
Sabrina”, - a moça levou um susto -, foi então que apontei para seu crachá de
onde fiquei sabendo como se chamava, ela sorriu envergonhada. Suponho que nunca
é chamada pelo nome. Pois, sim, as pessoas têm
nome, não são números em cartão ponto, não são estatísticas ou qualquer coisa
que se possa medir pela "força". Não devem ser mensuradas pela insígnia
de família perpetuada em testamento, ou ao contrário, pela ausência de herança a ser declarada
no imposto de renda. As pessoas apenas merecem e devem ter respeito. Quando o
ser humano entender alguns passos básicos, aqueles que estão no dia-a-dia
próximos da percepção, quem sabe o rumo do mundo seja menos previsível.
Supertramp - Better days
Aviso..........
Pessoal, troquei a apresentação do blog e o título nela para: Letras de Ana Cecília Romeu - a fim de confirmar a tendência neste espaço virtual de serem publicados textos variados de minha autoria, não só os com conteúdo de humor. No demais tudo permanece como estava.
Agradeço a minha irmã, Isabel Rodrigues, pelo design, e a todos pela presença!
Disse Maradona, argentino, ex-jogador de futebol, quando fez gol
de mão na copa de 1986 contra a Inglaterra, e jurou que foi a ‘mão de Deus’, referindo-se à uma ajuda divina.
Inevitável que eu fizesse uma analogia com a escolha do novo Papa, o sucessor
de Bento XVI.
Quando a fumaça branca do Vaticano sinalizou o “habemus
Papam”, eu e mais milhões de brasileiros entramos numa torcida ao vivo como em
final de Copa do Mundo, ainda que se tratasse de religião, e não de esporte. O
bem cotado para o cargo máximo da Igreja Católica, o brasileiro, gaúcho natural de Cerro Largo, Dom Odilo Scherer, parecia cada vez mais se encaixar
nas possibilidades.
Com a necessidade de uma renovação na Igreja Católica, coisa
que não se faz segredo a ninguém visto a perda em números de fieis, alguns
escândalos que vieram à tona nos últimos anos, a estagnação em diversas
questões; a renúncia de Bento XVI, mesmo assim, já tinha sido uma surpresa, o
que não acontecia há 600 anos. A escolha de um novo Papa que fosse alguém fora
da Europa, de um continente emergente como a América Latina, onde o número de
católicos é significativo, tendo no Brasil seu maior expoente, levou a crer
numa possibilidade real de um Papa brasileiro.
O que não esperávamos era o nome de Jorge Mario Bergoglio,
argentino, arcebispo de Buenos Aires, ser o novo Papa e primeiro da latino
América, o Francisco, como se autonomeou. Um drible surpreendente como se
Messi, o também argentino, e eleito o melhor jogador de futebol da atualidade,
nos tivesse roubado a bola num encanto de segundos e feito gol bem na frente de
nossos olhos inertes.
Mas o que a Argentina tem que nos dá a sensação de chegar
antes do Brasil em vários ‘títulos’? Não há dúvidas que os argentinos, em
especial os portenhos, dirigem rápido, o que faz o trânsito de Buenos Aires ser
muito “rápido”, aqui não existe outra palavra melhor para qualificá-lo; mas, para
além de Juan Manuel Fangio, o primeiro piloto de Fórmula 1 a vencer cinco
campeonatos, eles têm a linha de metrô mais antiga da América Latina. A
Argentina ainda carrega em suas conquistas cinco prêmios Nobel: dois da Paz,
dois da Medicina e um da Química. Por duas vezes, ganharam o Oscar de melhor
filme estrangeiro com: La historia oficial e El secreto de sus ojos.
Quem conhece a Argentina pode ainda atestar que no país
de Borges, Girondo, Gelman e Cortázar o pessoal lê muito, protesta quando
deve, não deixa passar em branco questões duvidosas na política, e ainda tem
uma das capitais mais apaixonantes do mundo.
A mão de Deus é para todos. E assim esperamos que o novo
Papa, um argentino, conduza os rumos da Igreja Católica a um maior
entendimento em diversas questões, e ele também seja uma mão a trazer um pouco
de segurança a tanta gente que ainda crê no principal campeonato: o da paz
mundial.
*Crônica publicada também no Jornal O DIA do Rio de Janeiro, Jornal do Comércio de Porto Alegre, Diário Popular de Pelotas, Jornal A Plateia de Sant'Ana do Livramento, NH de Novo Hamburgo e Gazeta do Sul de Santa Cruz do Sul.
Ao pensar
sobre o que motiva os compositores, poetas da música, a traçarem mensagens em
forma de melodia me questionei sobre o que é o “fogo que arde sem se ver”,
segundo Camões, tão imenso que deva ser revelado.
Conhecer o fado de Portugal, é mais que conhecer uma música é traduzir Portugal. Quando
por lá estive, me foi provado o que já diziam na máxima: “saudades é uma
palavra que só existe no idioma português”. E assim fez-se a doce melancolia em
forma de música, avisando a “bailarmos longe do mar”, e parece ele ser o grande
responsável por todas presenças e ausências, da deriva e da navegação, por
perder-se, encontrar-se e não encontrar, por desejarmos ser um anônimo errante,
um pirata sem bandeira.
No Uruguai, os
Pampas, tipo de relevo com pouquíssimas depressões em campos extensos, onde se visualiza
o sol cair na linha do horizonte, é o cenário da milonga. Parece que ninguém
sabe cantar tão bem a solidão como os uruguaios. “Tenho uma solidão tamanha que
posso organizá-la como uma procissão”, um dia disse Mário Benedetti. Assistir
ao pôr-do-sol nesse país é uma experiência única de solidão compartilhada,
aquela em que fizemos na presença da natureza, do cheiro da terra úmida, uma
terra que causa bradicardia ao ouvirmos Ana Prada: “gota a gota passam os
minutos caindo, o tempo corre até o mar, e eu vou terra adentro”.
O tango, ritmo
popularizado na Argentina, parece viver dos compassos e descompassos, do ar e
da asfixia, nos bons ares de Buenos Aires, essa capital apaixonada que poderia
estar em qualquer parte do planeta, mas está nesse país das “ganas”, dos
desejos, que não só tem um grande jogador de futebol, Messi; um grande ator,
Darín, (outras formas de se escrever poesia), mas também onde surgiu “El dia
que me quieras”, é certo, pelas mãos de um uruguaio, Gardel, e de um
brasileiro, Le Pera; não pela “mano de Diós” de Maradona. Essa dupla fez um gol
de placa ao imortalizar a melodia e os versos: “Acaricia meu sono, o
suave murmúrio do teu suspirar. Como ri a vida se os teus olhos negros me
querem olhar.”
E o Brasil,
“gigante pela própria natureza”, parece misturar tudo, mar, terra e ar: a
solidão dos Pampas gaúchos e também de todos os planaltos; o mar de um litoral
a perder de vista e que dá saudades; e o ar e a falta dele numa Amazonas impar.
E aqui nasceu o samba genuíno de quem ama muito, mas por vezes é benevolente em
excesso ao aceitar os “Renans” e os “Calheiros”, mas que não perde a esperança
quase nunca, como cantava Cartola: “bate outra vezcom esperanças o meu coraçãopois já vai terminando o verão,enfim.”
Saudades,
solidão, desejos, esperança: sentimentos universais por mar, terra e ar. Nossa
vida é toda mais bela quando ouvimos a música da alma, desses escritores da
melodia e das letras que fazem do seu concerto sem holofotes, o de quem ouve. Como
cantava Cazuza “faz parte do meu show”, esse show que quando sobe aos palcos
passa a ser propriedade afetiva de todos nós.
Pelas mãos dos
poetas-gente dos fados, milongas, tangos, sambas, da terra, do além-mar e do
além-fronteiras, conjugamos a paixão como sentados à mesa de um bar na nossa
esquina, conversa aqui e ali em ‘acordes’ primeiros. Dormir, para quê?
Dedico aos compositores de música-alma,
em especial a Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.
(Rio
de Janeiro – 1958/1990)
Faz parte do meu show
Composição:
Cazuza e Renato Ladeira
Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
O Peixe - nanquim sobre papel couchet - de Ana Cecíla Romeu*
Foi divulgado pelas redes sociais a comemoração de dois dias: o dia das saudades - 30 de janeiro (como se essa velha senhora tivesse um dia certo para aparecer); e o dia do publicitário - 01 de fevereiro, minha profissão desde meus 17 anos. Compartilhei fragmentos que por aqui também deixo.
Primeiro tempo: saudades
- Último parágrafo de uma crônica ainda em construção -
Sal-dades
Saudades se resolvem no cartão de crédito com saldo ilimitado, assim se viaja por ar, mar e terra; se ama, (re)ama e conjuga o verbo (a)mar, porque só no crédito incondicional temos mais tempero no prato do dia, aquele prato simples, o pronto que nada se espera, mas quando provamos, sentimos o gostinho de comida da mãe, - até se o arroz está um pouco empapado, ou o feijão grudou no fundo da panela -, mas a memória do paladar se transforma em saldo perene. E assim se cumprem as saudades: na presença da ausência que ainda se fará.
Segundo tempo: o publicitário
Essa profissão nos faz descobrir que podemos sobreviver apenas com 4 horas de sono, e às vezes nenhuma; que podemos contar o mundo em 15 segundos; que criatividade não é obrigação, é matrimônio; que público-alvo é a pessoa por quem nos apaixonamos e a única que devemos ouvir sem questionar; que as críticas devem ser selecionadas e quase sempre ignoradas; que as críticas sempre virão, então existe a palavra "foco" - com esta namoramos, noivamos, casamos, mas principalmente temos que fazer amor; que discutir a relação com o cliente sempre é uma coisa boa; que podemos escrever a qualquer hora e sob quaisquer condições; e que os rabiscos nem sempre precisam de uma arte-final; que muitas vezes a Grande Ideia vem sem avisar, e precisamos estacionar o carro no acostamento, ou sair da piscina correndo para buscar o bloco de anotações no vestiário; que devemos ler de tudo, prosa, poesia, bula de remédio e anedota de marciano, mas principalmente, ler pessoas, são elas as que mais nos ensinam; que o serviço não é para ontem, é para anteontem; e por fim, descobrimos que o relógio é sempre pontual.
Ser publicitário não é fácil, mas ninguém nos enganou, já sabíamos disso, pois amamos o difícil!
Prorrogação
E tanto em comum nos dois tempos, e quanto das saudades e do nosso trabalho pontuam esse tempo, o relógio que cronometra e o que esquece; o tempo passado que teima em ser futuro; o impossível, a luta contra o impossível e todos os possíveis que podem se fazer numa Grande Ideia, num Grande Amor ou tudo aquilo que for digno de saudades e o que for digno do ofício; ou o ofício das saudades, ou as saudades do ofício. E o foco: no trabalho, a concentração; nas saudades, a desconcentração e o desconcerto. Arrumando a vida em fusos e confusos, o trabalho e os sentimentos; em inverso, os sentimentos com e sem trabalho, a vocação, o ofício, a profissão, os amores, as amizades, o que gostamos e o que evitamos, o que apagamos e o que salvamos, tudo que nos compõe nesse encaixe de peças que chamamos de vida, em dois tempos ou mais.
*Mostrei essa ilustração, O Peixe, em entrevista para meu segundo emprego. Guardo ela como um pedaço daquele tempo de muitas tentativas.
(fragmento de Pedrinhas de beijo – de minha autoria)
Marat Safin, ex-tenista russo que fez sua aposentadoria em
2009, ainda hoje é lembrado por seu temperamento explosivo nas quadras que sempre
renderam um show à parte com direito a raquetes quebradas e toda sorte de
caretas e gritos que compunham verdadeiro espetáculo. Toda vez que Marat era
colocado à prova por um adversário forte, ou mesmo quando cometia uma sequência
de erros, o descontrole emocional ficava evidente, e não raras vezes perdia o
foco das jogadas. Isso não o impediu de ser um dos maiores jogadores de tênis
de todos os tempos.
Em muitos momentos da vida somos testados em nossos limites
emocionais, e como nesse esporte, isso pode ser decisivo.
Fiquei pensando sobre esses desafios e que cada um de nós tem
o seu ponto fraco, onde percebemos ali nossa linha fronteiriça entre o querer e
o poder, o que passa pelo autoconhecimento e pela vivência, mas como no dito
popular “a experiência é um pente que se usa quando se fica careca”, nem sempre
a solução vem a tempo e hora, e o desafio de melhorar torna-se ainda mais
difícil: o de ser mais vezes o Marat vencedor do que o quebrador de raquetes.
A verdade é que a dualidade forte/fraco, efeitos/defeitos nos
compõe e sermos ela por excelência é sermos nós.
Viver já nos oferece um contrato de pré-requisitos, uma bula
de remédios com posologia especificada em letras miúdas a cumprir, onde o fazer
se sobrepõe ao ser. Talvez apenas tentar amenizar nossas fraquezas já seja o
suficiente.
Pensando na frase de Millôr Fernandes: “todo homem nasce
original e morre plágio”, como achar o ponto de equilíbrio entre o superar
fraquezas e o não perder a identidade?
Creio que devamos analisar até onde elas podem prejudicar
outras pessoas, porque tentar a perfeição talvez seja beber do impossível em
doses homeopáticas.
Marat Safin não seria ele mesmo se não tivesse quebrado
tantas e tantas raquetes. Vamos nos permitir quebrá-las de vez em quando,
descer do salto, nos molhar na chuva, contanto que seja nossa própria chuva. Se
isso não prejudicar ninguém, será no mínimo porta aberta ao bom humor ou um
grito de “estou vivo” o que pode ser suficiente para nos eternizamos de forma
autêntica, e não sermos imagem e semelhança de clone perfeito: sem nome,
sobrenome e alma.
Crônica publicada nos jornais: NH (Novo Hamburgo), Diário Popular - seção Análise (Pelotas), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), Diário de Cachoeirinha/Sinos e Correio de Gravataí/Sinos.
"Quando a lua
estiver na sétima casa, e Júpiter alinhar-se com Marte, então a paz guiará os
planetas, e o amor dirigirá as estrelas".
Fragmento de Aquarius, música tema do filme Hair.
Hair, filme dirigido
por Milos Forman (EUA/1979), consegue materializar como película todos os anseios de uma geração. O roteiro conta a história de um
rapaz do interior que passa por Nova Iorque um dia antes de se alistar para a
Guerra do Vietnã, e conhece um grupo de hippies com os quais passa a conviver.
O filme marcou história,
mas não parou no tempo. Retrata a busca pela "paz mundial", a grande
utopia pregada desde o século passado, mas um acordo de cavalheiros com o
presente. Um nirvana de conceitos, onde o respeito ao diferente impera, tendo
consciência de que somos seres em constante transformação, absorvendo,
construindo; reconstrução e destruição, no acertar e errar, - a iconoclastia
cotidiana -; mas buscando nossas histórias nas pegadas em conjunto, na areia
marcada por outros pés. O respeito ao planeta, à natureza, ao próximo, até ao vizinho
que mora ao lado, que deve lá ter seu motivo de ser tão chato.
Tudo na vida pode dar
certo, mesmo que pareça que está errado, é o desafio constante. Se fosse fácil
e bonitinho, era só resolver algumas equações no café da manhã e teríamos um
dia perfeito.
O Hair é mais que
isso, propõe o desafio do dia-a-dia, o choque de gerações e até de nós com nós
mesmos, num constante divórcio do ir e vir individual: o descobrir suas
capacidades e testar seus limites, de outra forma não tem como evoluir.
A partir disso, se
pode pensar na metáfora da alma cabeluda, a que está disposta a novos
penteados, um dia quer prendê-los, em outro soltá-los, colocar adereços, lavar,
escovar. Por outro lado, almas com alopecia não se permitem opções, concebem
tudo em regras pré-determinadas, privilegiam a si próprias; ao coletivo, sem
opções de ter o privilégio de soltarem seus cabelos esvoaçantes numa brisa da
manhã.
É meus caros, quem
tem alma cabeluda reconhece nos outros todos os cabelos que têm, e propõe uma
marcha quase silenciosa em busca de uma magia, um "clic" do destino:
a grande utopia, a mística, que possa trazer melhor vida a todos. A verdadeira
lei da compensação: se eu fizer o bem, o bem retornará. Lei da física? Pode
ser, mas calcada no respeito, apesar do desafio. Ser pacífico, mas sem atitudes
estanques. "Viver, e não apenas aguentar". Esse é o Hair.
Aquarius - filme Hair
*Crônica reeditada - primeira crônica publicada no HumorEmConto há dois anos atrás.