quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Santa Maria de todos os tempos

Foto-divulgação NCST/RS - Pedro Costa

Quem disse alguma vez: 
até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(Juan Gelman in Limites)



                                                                                                         *



A tragédia da boate Kiss - em Santa Maria, Rio Grande do Sul -  vitimou fatalmente 242 pessoas e feriu mais 116 na madrugada de 27 de janeiro de 2013, em incêndio causado pelo acendimento de um sinalizador para efeito pirotécnico por parte de um integrante da banda que se apresentava. O que iniciou pela imprudência, tomou proporções trágicas por falhas gravíssimas da segurança no local, gerando esta que é considerada a terceira maior tragédia em casas noturnas no mundo. (Fonte: portal G1. Globo)


    Um ano da tragédia da Boate Kiss. Impossível não relembrar do fato.
   Quando eu era adolescente, também esperava a semana inteira para que chegasse a balada do sábado. Ensaiava passos novos. Antes de sair, ouvia a listinha: “Não se esquece do casaco” - é a única coisa de que me lembro, porque era a primeira, mas pelo tempo que minha mãe falava acho que tinha mais umas dez ou onze. Nem sempre ficava feliz, esperar pela música mais lenta e nada acontecer era muito chato, mas quando chegava a casa, dormia e esquecia.
   A turma de amigos era sempre a mesma, formávamos uma espécie de “tribo da felicidade”, um happy-face compartilhado, se nem tudo estivesse bom, ainda assim era divertido. Nunca pensávamos que poderia acontecer algo fatal, não planejávamos o fim apenas os começos, queríamos vida e viver e era isso a sua maneira que acontecia, às vezes menos, em outras mais, mas voltávamos para casa para lembrar os fatos que julgávamos importantes e censurar parte deles aos pais, “editar a matéria” de um jeito mais inocente, o que sempre funcionava.
   Foi assim que descobri que o bicho-papão da infância fora promovido na adolescência para “estranho”: - “Não conversa com estranho”, “Não beija um estranho”. E assim, todos meus namorados e amigos um dia, pelo menos por algumas horas, me foram estranhos. Mais tarde aprendi que os únicos estranhos perigosos eram os “culpados” e, desde então, passei a temer os culpados. Os culpados que têm responsabilidade, mas se escondem na nomenclatura “fatalidade”, como se as tragédias, aquelas que podem ser evitadas, ainda assim fossem obra divina.
   Não conheci nenhuma das vítimas da tragédia de Santa Maria, mas é impossível não haver empatia, já fui adolescente, hoje sou mãe de alguém que um dia será adolescente e quando se perde um filho, não se perde somente o que se tem, se perde o que se é. 
   Nunca senti a fumaça negra, por isso hoje escrevo estas quaisquer linhas, mas minhas asas estão encolhidas e meu voo se faz palavra pequena, mesmo que somada a outras de tantas milhares de pessoas, porque estamos num mundo onde da tragédia se faz grande audiência, até a próxima notícia. Onde se trocam as palavras vida e futuro, por injustiça e fim.


Crônica publicada também nos jornais:
O DIA - Rio de Janeiro
Correio do Povo - Porto Alegre
A Razão - Santa Maria
NH - Novo Hamburgo
Diário Popular - Pelotas
E site do Correio Rural

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Circulo das bermudas

Fotografia de Ana Cecília Romeu

Diga-me como está meu amor no teu amor:
Frio, frio como a água do rio 
Ou quente como a água da fonte
Morno, morno como um beijo que se cala
e se acende,
caso queiras...
(da música: Frio, frio, -  Juan Luís Guerra)


   Verão no Brasil. No comércio uma situação que, se analisarmos friamente, apesar de parecer mero trocadilho, é dispare. Encontrei numa mesma loja de vestuário uma calça jeans no valor de R$ 60,00 e uma bermuda por R$ 160,00, a de se considerar que esta última deve ter uns 60% a menos de tecido do que a primeira.
   Recordei-me de quando morei em Rivera, cidade uruguaia fronteira com Sant’Ana do Livramento, Brasil; que havia uma sorveteria no verão, que na chegada do inverno, colocava à venda também casacos de lã. Na minha visão de criança aquilo parecia mágica. Era como se houvesse o verãoverno, uma nova estação que mesclava o frio e o calor.
   Ao observar esses meandros do comércio, no que tangem aos produtos sazonais, transportei-os para o aspecto pessoal sob a ótica dos relacionamentos de amor ou amizade, e da efemeridade dessas relações.
   Quem nunca teve um affaire de verão que jogue o primeiro guarda-sol! Mas para além dos contatos que podem ser compartilhados no calor do lazer ou do período de férias onde tudo parece assim tão perfeito..., o ‘volta às aulas’ ou ao trabalho, que caracteriza o nosso dia-a-dia, também está marcado pelos amores de estação.
   Por vezes, as pessoas se tornam como uma bermuda, própria apenas para o período mais quente; e quando o relacionamento esfria, caem em desuso como se fossem peça a ser estocada entre outras tantas num armário asfixiado por prateleiras cheias à espera de atenção.
   E o velho jeans, apesar de peça clássica, será inadequado na estação mais quente onde tudo o que é perecível parece ser a escolha certa: o sorvete a ser consumido rapidamente antes que se desfaça. E assim, o jeans se torna obsoleto e ‘asfixiante’ ao querer compromisso e frequência.
   As horas e suas intempéries nos mostrarão quem veio para permanecer em nossa vida em todos os climas. As cumplicidades que dividirão desde a capa de chuva até o óculos de sol.
   Os dias passam muito rápido para que se mensure pessoas e sentimentos via termômetro. Quem veio para ficar, sequer precisou de bússola pra nos encontrar, pois assim se fazem as inevitabilidades. E se somos de fato importantes ao outro, a nossa luz será compatível ao seu protetor solar: uma parceria que não causa danos à pele nem à alma.
   Sim, a vida é muito curta nos quatro tempos para não dizermos a quem amamos: você é a minha melhor calça jeans em todas as estações.


Blue Jean - David Bowie


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Adios muchacho

Fotografia da internet - sem referência autoral

Juan Gelman - grande poeta argentino faleceu na noite do dia 14 de janeiro. Para quem é apaixonado pela literatura platina, fica um vazio... O vazio da certeza de que não haverá novas letras dele; ainda que seus poemas não tenham tempo, muito menos fim. Em sua vida pessoal, Juan Gelman foi duramente perseguido pela sangrenta ditadura argentina, onde o homem se fez menos que nada.
   Aqui deixo a vocês fragmento de "El libro de los abrazos"- pag.229, de Eduardo Galeano onde relata isso; e "Epitafio", poema de Juan Gelman.

Gelman
- Eduardo Galeano -

   El poeta Juan Gelman escribe alzándose sobre sus propias ruinas, sobre su polvo y su basura.
   Los militares argentinos, cuyas atrocidades hubieran provocado a Hitler un incurable complejo de inferioridad, le pegaron donde más duele. En 1976, le secuestraron a los hijos. Se los llevaron en lugar de él. A la hija, Nora, la torturaron y la soltaron. Al hijo, Marcelo, y a su compañera, que estaba embarazada, los asesinaron y los desaparecieron.


Epitafio 
- Juan Gelman -

Un pájaro vivía en mí.
Una flor viajaba en mi sangre.
Mi corazón era un violín.

Quise o no quise. Pero a veces
me quisieron. También a mí
me alegraban: la primavera,
las manos juntas, lo feliz.

¡Digo que el hombre debe serlo!

Aquí yace un pájaro.
Una flor.
Un violín.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sétima gaveta e recomeços

Fotografia de Ana Cecília Romeu

(...) não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, 
você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
Mário Quintana in Felicidade Realista


   O ser humano é um eterno insatisfeito. Dessas insatisfações, por vezes, curiosidades, explorações e (re)começos se ‘descobriu’ as Américas, por exemplo; e conheci dona Vera, vizinha querida com quem amplio os territórios da amizade.
   Recordo-me que a professora de francês me disse para nunca deixar a vida muito resolvida. (Ne laissez jamais votre vie très parfaite!). Em uma referência ao pequeno caos como fluxo de longevidade: andar pela contramão, jogar travesseiros por todos os lados. Mas a iconoclastia tem a fase da reconstrução, do recomeço, e isso dá trabalho imenso tal qual remontar quebra-cabeças de milhares de peças: o que mais nos edifica quase sempre não está na nossa linha de conforto.
   Talvez por isso se perceba tantos relacionamentos, de amor ou de amizade, sendo regidos por decreto: instantâneo do mando-obediência-estabilidade, do ‘felizes para sempre’ via corretor ortográfico, ou do ‘até que a tecla delete nos separe’. Já a democracia é trabalhosa, exige diálogo, negociação, diplomacia, é via de mão dupla.
   Há um tempo criei o que chamo de sétima gaveta. Um espaço imaginário onde coloco as tristezas, frustrações, perdas. E que fiquem por lá. Para ser forte e tentar ser feliz, é necessário enxergar o lado bom de tudo, e ele existe. Por vezes, a sétima gaveta abre involuntariamente soltando todos esses monstros: as pendências, as ausências, a pessoa que tirou a vírgula do “não, te amo”.  E não nos resta muito mais do que tentar desmitificar essas criaturas, as tornando mais parecidas com o brincalhão e pouco assustador Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde.
   Optar pela luz não é ignorar a existência das sombras, até porque uma não sobrevive sem a outra, mas é tentar recompor-se para recomeçar, avançar; pois a felicidade, mais do que um processo, é uma opção.
   A tristeza é valorizada como forma de auto descobrimento, pré-requisito evolutivo. Não se enfatiza os momentos de felicidade como parte desse crescimento. Existe a ditadura escamoteada do sofrimento. A tristeza como imagem de profundidade, como se o contrário fosse bobo e superficial.
   Que bom seria que nunca nos esquecêssemos dos instantâneos mais felizes e das pessoas que contracenaram conosco: a plenitude pela partilha em forma de circulo aberto. Deveríamos ter uma parte do cérebro que impedisse apagar um olhar, aquele olhar..., a pequena eternidade que possibilita a continuidade da vida e seus recomeços.


La Paloma, Uruguay - Fotografia de Pedro Costa

[Retorno ao blog em 2014. Seguirei escrevendo aos jornais 
e divulgando essas publicações também pelo facebook.]

Um novo ano mais leve, com muita paz e saúde.
Se conseguirmos dois 'sim' para cada 'não', já estaremos no lucro nessa matemática-desafio que é a própria existência. Pois, que assim seja.
Agradeço a todos pela companhia que me fez e faz crescer muito.
Abraço do tamanho dos Pampas!

No litoral do Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Buck Rogers não previu o ciclone

Fotografia de Ana Cecília Romeu

Seriado televisivo famoso transmitido de 1979 a 1981, Buck Rogers foi um personagem criado originalmente para história em quadrinhos por Philip Francis Nowlan em 1928. A história trata do congelamento acidental de um militar astronauta nos anos 80 e o seu despertar no século 25, assumindo a função de patrulheiro. Na ficção, tempo em que espaçonaves, naves de caça e viagens interplanetárias são corriqueiras.
- 19 de setembro de 2012 - tive experiência que nem mesmo Buck Rogers poderia prever, muito menos, vivenciar. Devido ao ciclone extratropical que atingiu o Rio Grande do Sul, com formação a partir do Uruguai, e rajadas próximas à marca de 100 km/h em pontos isolados, boa parte de nós gaúchos de diversas localidades ficamos sem luz, sem internet e com linha telefônica deficitária; celular, quando se conseguia sinal, pegava ma... ma... mal.
Fiquei pensando na diferença entre a ficção idealizada e a realidade quanto a tempo e geografia proposto, quando um escritor-roteirista imagina uma época futura e a traduz numa obra, no caso de Buck Rogers, daqui a quatro séculos. E que, embora tudo pareça evoluído a partir do advento da internet e celular, ainda dependemos da luz como fonte de energia. Essas tecnologias, além dos benefícios, nos tornaram dependentes, visto que pouco ou quase nada podemos fazer em termos comerciais – e mesmo pessoais – sem o uso do que  dispomos na atualidade.
Neste momento, é provável que algum escritor esteja criando roteiro baseado em fatos que acontecerão no próximo século, com espaçonaves que se movimentam através do comando de voz ou de comando mental; pílulas coloridas que extinguirão a fome na Terra; alojamentos de único ambiente em poucos metros quadrados otimizados com tudo que uma família necessite: a mesa que se transforma em cama que se transforma em computador e por aí vai; mas talvez não se inclua na história que um ciclone ainda poderá nos remeter ao passado, a atemporalidade da vida sem luz e internet.
Escrever esta crônica em manuscrito à luz de velas, em pleno século 21, fez-me ter uma certeza: ainda temos muito que evoluir. Parecemos grandes, mas talvez sempre sejamos pequenos frente às forças da natureza.

Crônica publicada também nos jornais:
A Platéia (Sant'Ana do Livramento)
Diário Popular (Pelotas)
NH (Novo Hamburgo)
Diário de Cachoeirinha
Diário de Viamão


Buck Rogers - Trailer

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Nota sequencial para versos de outrora

Fotografia de Jorge Pimenta


O destino que se cumpra,
se o destino for
Eu apenas quero a flor
de uma última penumbra,
onde a sombra,
entendo eu,
é apenas o lugar
onde a luz
pode declarar-se
verdadeiramente.


Wilson Caritta Lopes

Todo vestido de preto, entrou no quarto de hotel. Dirigiu-se até uma bancada sem acender as luzes. Do lado direito das cortinas cor areia, um feixe recatado de luz pedia licença para lhe iluminar a silhueta e protocolar pequeno testemunho. Sobre a bancada, remexeu em pastas procurando dados entre os dedos, como quem colhia frutos de própria estação. Deletou pensamentos, buscou arquivos e o abraço dos amigos. Recordou-se de quando expelia arco-íris pelos poros, do sorriso fácil e que construía degraus de nuvens entre os versos. Que um dia amou e no outro também.

[Em pedra-ferro, cravada à beira do abismo, entre o temporal e o sol laranja, rezava a escritura:

é esta a minha terra,
o lado norte dos versos,
um país, uma palavra
toda a verdade.
terra branca
letra e poema de tantos segredos
dentro e fora de mim,
a semear braços, horizontes de anis
e outras moradas
onde escrevo,
aplaino rimas
e reinvento silêncios

De entre as pastas, selecionou apenas duas. Saúde e justiça são irmãs da mesma verdade e parceiras da mesma dor.

[Lenda, Poemas em Autoplágio ou apenas imaginação. Cravada à pedra-ferro, rezava a escritura:

o poema corre-me com a água
do canto
lava leve lembra
é este o som é este o sentido
porque as estrelas de dedos longos sempre tocam
as portas e os girassóis
que cabem no mundo:

é aqui, no verso,
que sou todos os homens
é aqui, no verso,
que me esqueço do tempo
é aqui, no verso,
que escavo o fogo.

eis-me o verso.

Com semblante seguro, passou pelo umbral carregando as pastas em baixo do braço esquerdo e mais duas gotas de certeza: homens de bem e poesia jamais falecem a causa da senhora realidade.

Foi quando o poeta tocou a primeira nota sequencial para seus versos e ela espirrava como a alma.

Em memória do poeta Wilson Caritta Lopes
(1964 – 2013)


Jorge Pimenta & Ana Cecília Romeu

The Cinematic Orchestra - To build a home


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sobre o nada

Fotografia de Pedro Costa - Reserva ecológica do Taim - RS

Procuro a voz do sereno
Nesses versos que componho;
Não sou grande, nem pequeno:
Meu tamanho é do meu sonho!
(fragmento de Milonga de andar caminhos, de Marcelo Dávila).


   Hoje decidi escrever sobre o nada. Nada não é o algarismo 1, nem sua escala negativa, o -1. Nada é como se fosse o zero que apesar de ser um número, coisa alguma representa. Mas como tudo é relativo, um zero à esquerda é o próprio número; e à direita, outro número.
   Recordo que quando cursei a oficina de contos do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, houve exercício literário em que precisávamos descrever um molho de chaves caindo de uma mesa e deveríamos usar o máximo de palavras para essa única cena que, em tempo real, não dura mais que alguns segundos. Maravilhoso exercício de forma, tecer letras em urdidura de um quase-nada que me rendeu em torno de duas laudas de... quase-nada.
   Por falar em quase-nada, fiquei pensando em quantas amizades de anos e votos de amores eternos terminam por quase-nada. Porque um disse tudo sobre nada; e o outro disse nada sobre tudo, gerando desproporções de algarismos sensoriais para além do número zero, ao criar vácuos de linguagem e abismos sem passagem. Prenúncio de fim até a fossilização do sentimento que talvez seja redescoberto na escavação arqueológica do próximo relacionamento, e dimensionado com cuidado em carbono-14 para não haver repetições dos ‘quase’ definitivos.


Fotografia de Pedro Costa - Reserva ecológica do Taim - RS
   
   O nada também pode ser um silêncio, a ausência de palavras, a ausência de carinho, a ausência em si. É quando deixamos de ser plenos porque sentimos falta, e o que sobra não sustenta a existência. As reticências mudas abrem inúmeras interpretações: não existe palavra mais cruel do que a que não é dita. Não existe maior tortura do que um carinho esperado que não chega.
   O nada pode ser a falta de ousadia, de projetos, de objetivos. Se não damos um passo à frente, ou mesmo um passo atrás para dar dois à frente, estamos estagnados. É quando assistimos a nossa vida sem perceber que todos os capítulos são iguais: o roteiro é o mesmo da novela anterior, repleto de clichês e bordões.
   O verdadeiro preencher do ser talvez esteja numa pequena soma aqui e ali de realizações quase imperceptíveis, quando tomamos a decisão de sermos mais que nada, de fazer valer os números do dia: minutos, segundos. Ainda que partamos sempre da mesma hora zero, nossa vida valerá mais que nada sem despender de calculadora científica para essa grande matemática-desafio que é a própria existência.
   Somos do tamanho dos nossos sonhos, e isso é mais do que nada: é tudo que podemos.

Crônica também publicada nos jornais: 
NH (Novo Hamburgo)
Diário de Cachoeirinha/Sinos
Correio de Gravataí/Sinos

Jorge Drexler - Todo se transforma

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   Não irei anunciar pausa, porque cheguei a conclusão de que a vida é assim mesmo: uma sucessão de coisas imprevisíveis. As pausas imaginadas com duração de meses, podem se transformar em dias; o adeus, apenas um breve tchau, para na manhã seguinte se compartilhar o café. Então deixo a todos, como diz meu amigo Felisberto Júnior: bom dia, boa tarde, boa noite! Pelas dúvidas, mas, principalmente, pelas certezas! 

Em Punta Ballena, Uruguay

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ser humano, eis a questão

   
Fotografia de Pedro Costa


Pensemos nos bichinhos como iguais a nós. Cada ser vivo é uma bênção sobre o mundo 
e deve ser cuidado, seja ele gente, animal, ou vegetal.
(Isabel Rodrigues)


   Uma coisa que sempre me incomodou é o desrespeito com os animais. Jamais entenderei o que motiva o dito ser humano a cometer crimes, seções de torturas e atrocidades, e o abandono de seres tão indefesos. Difícil ser humanista e ao mesmo tempo acreditar no ser humano.
   Retornando a casa, dia muito chuvoso e frio, testemunhei uma cena: um cachorro com dificuldade para caminhar atravessava a rua. Parei o carro, e percebi que uma senhora o esperava do outro lado. Disse-me ela que era um cão que perambulava pela região há dias, e decidiu por adotá-lo e, exatamente no momento em que eu passava, ela o atraia para dentro de sua casa. Ainda assisti aos dois entrando pelo portão: novo lar de um; antigo lar de outro.
   Se existe um prazo de validade para a felicidade de se presenciar uma cena assim, penso que serei feliz por alguns dias.
  



   Gestos como esse nos dão uma espécie de sobrevida de ânimo frente ao ceticismo que por vezes instala-se de forma inevitável, tendo em vista tudo o que se presencia, ou se fica sabendo: crimes contra os animais que são crimes contra nossa própria espécie.
   Pessoas que não valorizam os animais não valorizam outras pessoas. Quem interage em perfeita harmonia e respeito com toda a natureza é mais altruísta e evoluído, consegue distinguir a essência dos sentimentos e das relações, e entregar-se ao código de um idioma reconhecido em todo Universo.
   Ser humano transcende o estar humano, é quando consideramos o outro como uma vida também, em outro corpo e alma. Alguém a quem devemos consideração seja quem for, e muito dessa postura passa pela questão de termos o mesmo respeito pelos outros seres vivos que diariamente nos trazem lições preciosas.
   Quando o gato faz seu assédio felino, nem sempre seu pratinho está vazio, por vezes ele só quer carinho. Quando o cachorro abana o rabo e sorri, porque algo na boca dele modifica e parece um sorriso, nem desconfiem, é sorriso mesmo. Mas quantos seres humanos estão prontos para pedir ou dar carinho e sorrirem uns para os outros?
   Ser humano, eis a questão. Temos de honrar todos os dias o fato de termos nascido com o que se chama de "raciocínio". Que ele sirva então para considerarmos todas as vidas, não somente a nossa, como algo pleno. Afinal, quem não respeita a vida, não merece dela o respeito, simples assim.




*Crônica publicada também nos jornais:
Jornal do Comércio (Porto Alegre)
VS (São Leopoldo)
Diário Popular (Pelotas)
NH (Novo Hamburgo)



**A todos os bichinhos, em especial ao Lito, meu filho-gato. 
Com ele aprendi o "miadês", idioma que me ensinou a ser mais humana.
(02-02-2000/27-08-2013)

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Aviso: 
Neste momento, terei de fazer uma pausa. Visitarei a todos que vierem nesta postagem, e seguirei contato via facebook, embora com menos frequência, onde também continuarei postando meus textos. Até o retorno! Grande abraço!
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Às três horas

Fotografia de Pedro Costa
Aos 'desaparecidos' pela ditadura militar.


Lustre escuro
estrelas opacas
regurgitam hélices
líquido
arrebenta e esvazia
coral e ouriços

Ele desapareceu às três horas.

Ninguém mais ouviu suas nuvens
sentiu perfume dos tantos
dos prantos
acariciou suas digitais

Ele desapareceu às três horas.

des...
apare
o
Céu
às três

Pálpebras cerradas
suas digitais
amaciou coral
ouriços
no mar respingou
líquido se fez pó
Desapareceu,
e foi às três horas.

Nadie más ha visto a su cuerpo
sus nubes
sus llantos
Desapareció
a las tres.

Sentiu perfume dos tantos
dos prantos
tocou em estrelas:
lustres-ilustres-escuras.

Às três horas,
desapareceu...


- Ana Cecília Romeu -

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1 grau: Montevideo - New York

Fotografias de Pedro Costa

- Histórias de Viagem - Episódio 2 -

   21 de julho, 2013 - domingo - Cidade de Montevidéu, capital do Uruguai.

   Ainda pela manhã, próximo ao meio-dia e um frio de 1 grau centígrado com sensação térmica de bem menos..., o suficiente para doer os dentes ao sorrir. Nuvens escuras, um vento forte vindo do Mar del Plata (Rio da Prata – que emoldura toda cidade).
   Montevidéu é uma capital peculiar, com um centro de arquitetura clássica em art-deco e art-noveau, convivendo com prédios mais modernos e ecléticos. Apesar de concentrar praticamente a metade da população de todo o país, incluindo a região metropolitana, conserva recantos de cidade do interior, por vezes; e um centro de grande cidade, que bem pode lembrar Nova Iorque, mas... será que não é?






  Caminhando na principal avenida, a 18 de Julio, observei que algumas quadras estavam fechadas ao trânsito. Havia uma grua com luz, fumaça de gelo seco, luz, câmera..., ación? Mas o que é isso?
   Sim, era o que eu pensava, um set de filmagens em plena 18 de Julio. Coisa possível nesta cidade que é grande, comporta o status de capital, mas ainda assim não fica em caos tendo algumas quadras fechadas. Não, se isso for num domingo de 1 grau centígrado.




  

   Soubemos que se tratava das gravações de uma propaganda do café de uma indústria Suíça muito conhecida. Qualquer publicitário adoraria acompanhar essas filmagens, e por acaso, eu estava lá.
   Ainda nos inteiramos que têm sido realizados com certa frequência comerciais de grandes empresas mundiais de diversos segmentos ambientados no centro de Montevidéu. Recentemente, passa um no Brasil de marca famosa de calçados esportivos que foi feito na Plaza Independencia.
   Entrando nas duas quadras fechadas ao trânsito, mas não aos pedestres curiosos, parecia que se estava caminhando mesmo em Nova Iorque. As placas das ruas, dos carros e outras das calçadas foram trocadas por simulações norte-americanas.



   Quietinhos mas nem tanto, observamos: a cena consistia na filmagem do casal protagonista no trânsito movimentado. Ao ouvir o chamado do diretor, os mesmos figurantes atravessavam a avenida, os automóveis davam a partida, o guarda de trânsito fazia os sinais. Tudo do mesmo jeito nas várias tomadas que acompanhamos. E algumas curiosidades: os figurantes usavam roupas de meia-estação, dispensa dizer que não era tarefa fácil naquele frio todo. Além disso, o carro dos protagonistas não pegou num primeiro momento, para riso geral.

Figurantes na pausa das gravações.
Automóvel com os protagonistas.

   
   A sensação foi de estar em Nova Iorque ou qualquer outra grande cidade dos Estados Unidos. O cuidado com os detalhes na produção, por instantes, me fez pensar em ter viajado para um país e chegado em outro. Quase uma viagem dentro de outra. Sensação quebrada pela conversa aqui e ali com os simpáticos figurantes uruguaios. Nesse momento, voltei ao Uruguai, ainda que ali tudo parecesse ter sotaque mais longínquo, tínhamos o vento charrua, o sorriso e a disposição de quem não tem medo do frio. E a certeza: Montevidéu é uma capital tão especial que nela cabe o mundo.


Dedico ao Pedro, meu companheiro de todas viagens.