sábado, 15 de dezembro de 2012

Fim-começo do nosso mundo!

    
Charge de autoria de Jaime Guimarães
- para visualizar melhor, clique na imagem -
   
   Segundo a cosmologia maia a Terra tem cinco ciclos, estaríamos nos último que culminaria no dia 21 de dezembro. Para o autor de “Maya Cosmogenese”, John Jenkins, a profecia maia baseia-se num emparelhamento astronômico muito raro, onde o sol de solstício se alinhará com o centro da nossa galáxia, e isso, somado ao fenômeno da precessão: uma mudança do eixo da Terra em relação à esfera celeste.
   A partir desse estudo, surgiram previsões para o fim do mundo nessa data, onde haveria a inversão dos polos da Terra devido a distúrbios nos campos magnéticos do sol, que ocasionariam “tormentas solares”.
   Muito tem se comentado sobre isso, assim como, se o mundo tivesse uma data específica para seu fim, como poderíamos aproveitar esse tempo derradeiro.
   Recordei-me do intenso filme da diretora Isabel Coixet, de 2003, que chegou aqui no Brasil com o título de “Minha vida sem mim”, onde uma jovem de 23 anos, sabendo-se portadora de doença terminal, faz uma lista de tudo que ainda quer realizar, coisas que sempre desejou, mas nunca lhe foram possíveis.
   Interessante como o ser humano parece ter isso intrínseco: colocar a tranca na porta somente depois que o ladrão invadiu a casa. A vida é breve, pensando assim, toda hora é tempo de realizar sem esperas. Independente de quando e se o mundo vai acabar mesmo, a vida é um ser/estar aqui e agora.
   O que você colocaria na lista de coisas ainda a realizar? 
   Na iminência ou não de um apocalipse, isso não seria a preparação para o fim, e, sim, a proposta de uma gênese pessoal, uma espécie de auto descobrimento. Ao descobrirmos o que nos realizaria, assim se faria nossa realização.
   Penso que concretizar isso, constitui nosso Ser-feliz, e a felicidade pessoal pode estar tão perto, como dizia Quintana, em “Da felicidade”: “Quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, por toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz.”.
   A felicidade pode ser matemática simples: a cada coisa que se faça por obrigação, se permitir fazer duas por opção, que seja comer um croissant recheado de doce de leite.
   Além disso, a realização é o que nos eterniza, e mesmo que supostamente o planeta findasse teríamos sido felizes, mais do que tristes e frustrados. E isso não é tudo que desejamos? Buum!

Crônica publicada nos jornais: NH (Novo Hamburgo), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul), 
Diário Popular (Pelotas), Diário de Cachoeirinha, Diário de Viamão e Correio de Gravataí.


Senza fine - Ornella Vanoni


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Pessoal, agradeço imenso pela companhia de todos neste ano! 
Desejo ótimas festas a vocês e suas famílias, 
e um próximo ano cheio de boas realizações. 
Que qualquer dificuldade, seja bem pequenina, sinceramente.




Um abraço grande a todos, nos vemos em 2013!

sábado, 8 de dezembro de 2012

Vo-voar é para pa-pássaro

Desenho de autoria da minha filha Luíse de 5 anos.

   Contam que um instrutor de voo que era gago falava com certa frequência: “vo-voar é para pa-pássaro”. Nunca con-concordei tanto com a-a-algo.
   Quem tem ‘respeito’ por avião tem certeza que voar é para pássaro. Na eminência de pegar um voo direto Porto Alegre-Lisboa no último dia 4 de outubro, para driblar esse ‘respeito’, comprei um colar com círculos de todos os tamanhos, logo pensei que na hora de decolar poderia ser boa estratégia para despistar meu inimigo interior, se ficasse contando as bolinhas, mas enquanto aquela coisa subia nem me lembrei se tinha pescoço, quanto mais colar.
   Dias antes, visitando amigos, um recomendou-me tomar um remedinho “você dorme e só acorda quando chega lá”, logo descartei isso, pois dizem que tudo que ingerimos tem o efeito dobrado lá no ar... humm.... pressão baixa, medo, e remedinho vezes dois? O outro amigo disse que eu não me importasse, porque se acontecer algo é tudo muito rápido... (rápido?... O quê?), foi quando marido assinalou com a fala definitiva: “Ana tu não vai acabar assim”, (mas existia essa possibilidade de... de...? SOCORRO!).
   É entrar no avião e começa a seção tortura: livrinho com ilustrações de “o que fazer em caso de emergência”, com bonequinhos sorridentes, - se as companhias aéreas fossem francas, seria um livro em branco. “Cairão máscaras de oxigênio”, “embaixo da poltrona você encontrará o colete salva-vidas”... (SOCORRO!)
   Nessa hora todas as frases clichês do tipo: “você tem que enfrentar seus medos”, parecem clichê em dobro, talvez efeito dos pés de altura. E ainda mais o voo teria 10h45 de duração, simmmm... significa ter medo de uma coisa e ter que ficar dentro dessa coisa todo esse tempo: o regulamentar, mais prorrogação e pênaltis.
   Entre decolar e até o avião emparelhar, se é que aquilo emparelha, tenho vertigem e descobri que existe um cardápio delas – vertigens para frente, para os lados..., e nada de sentir minha fisgadinha da sorte no joelho. Pois tenho há muitos anos “uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito” – foi assim que o ortopedista se referiu. Não sei por que, mas toda vez que sinto a dorzinha da lesão acontece algo bom, mas nada de senti-la... Depois de algumas horas de voo, ela começou. Aleluia! Para comemorar, levantei-me – sim eu caminhei no avião! – e me dirigi aos fundos para pegar um copo de suco ‘natural’ de laranja.
   O que me impressiona é como dormem dentro daquilo, tinha um sujeito atrás de mim que roncava! Será que tomou o remedinho? Lembrei-me de algumas milongas preferidas, esse ritmo dos pampas que sempre me acalma, e arrisquei ir ao toillet, foi quando descobri que não sentia medo dentro do banheiro do avião, por quê? E tornei-me assídua frequentadora.
   Nunca entendi também porque as turbulências se intensificam na hora da refeição. Será que só eu percebo isso? Mas..., não comer a sobremesa no último jantar do Titanic pode não ter sido a opção certa. Então, minha comida sumiu rapidinho.
   Durante o voo, não consegui assistir ao filme ‘El cuento chino’, com meu ator preferido Ricardo Darín, não me concentrei, - perdón, Darín. Então deixei no desenho dos Flintstone, e o “Yaba Daba Dooo” funcionou! Digamos..., mais de duzentas vezes.
   E finalmente o comandante anunciou os procedimentos de aterrissagem. De novo esqueci de contar as bolinhas do meu colar, mas me agarrei ao golfinho de pelúcia que minha filha levava, até ouvir o ruído do ‘puf’. Estamos em terra firme, é a glória do puf! Além disso, a certeza de que se vo-voar é para pa-pássaro, viver é para todos nós.
   Por terra, mar ou ar, nos agarremos às oportunidades sem pensar se serão únicas, porque tentar viver vale mais que muitos me-medos. Boa viagem!

Durante o voo, tentando disfarçar o me-medo,
enquanto um sujeito lá atrás dormia e ainda com a janela aberta (SOCORRO!)

Iahuuuu! Chegada no aeroporto de Lisboa! 
Viva à Terra-Mãe!
Recompensa: sentir a liberdade ao lado de um penhasco em Zambujeira do Mar,
ali, pertinho do céu!
Nem me lembrei que tenho medo de altura.

No penúltimo dia, em Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa,
foi quando me dei conta que não poderia regressar nadando...

Sugestão de música para tranquilizar - milonga uruguaia para a alma.

Amargo de caña - Ana Prada

sábado, 1 de dezembro de 2012

Garçom brega ou chique



   O cantor e compositor gaúcho Filipe Catto, um dos expoentes da nova geração da MPB, disse num programa de TV que não existe música brega. Para ele há apenas duas classificações de música, a que o comove e a que não o comove. Ousado, gravou em seu primeiro CD, “Garçom”, de Reginaldo Rossi, um dos ícones do chamado brega nacional.
   Concordo com Filipe, pois penso que a arte verdadeira se funda além-fronteiras, é democrática, rompe paradigmas: ela própria é o alicerce da vanguarda e abre novas possibilidades.
   Quando Andre Rieu, famoso regente e violinista holandês, conhecido como “embaixador das valsas”, veio ao Brasil, causou certo alvoroço no meio dito intelectual ao apresentar com arranjo erudito a música “Ai se eu te pego”, popularizada na voz de Michel Teló. Para além de um possível jogo de marketing, creio que Andre acertou na dose a proposta do que seja arte, ao transcender o preconceito e o transformar em música acessível, agradável e impecável.
   Não entrando aqui nos deméritos do lixo cultural, pois existem ruídos que sequer podem ser chamados de música; mas o que é brega ou não, talvez não tenha tanta importância mesmo. Impossível não reconhecer poesia, por exemplo, na música “Fio de cabelo”, da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó, onde um fio de cabelo comprido da amada encontrado no paletó “é um pedacinho dela que existe”, que sacramenta o amor vivido. É a síntese da perda, do desamor, da falta.
   Outro exemplo, na música “Sabanas frías”, do grupo mexicano Maná, a expressão “quisera viver, amor, amarrado a teus ossos”, pode parecer piegas ou de uma dramaticidade exagerada se compreendermos apenas a imagem literal, porém, se abstrairmos e pensarmos em existência, talvez não seja. Nessa ou em tantas músicas, as possibilidades estão abertas a vereditos, interpretações, mas também podem transcender a quem se comover com elas, e neste momento, estará se cumprindo a arte por excelência.
   Saber conviver e estar disponível à harmonia com o diferente, aberto às possibilidades da arte, às pessoas, à vida, isso é ser elegante. É pedir ao garçom uma cerveja, se é o que você quer beber; e não Veuve Clicquot apenas para impressionar. Eis a lição para nossa vida da música como arte: transcender-se, simplesmente.


 Garçom - interpretação de Filipe Catto

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   Pessoal, o blog completou dois anos no dia 18 de novembro. Agradeço imensamente a todos que fazem parte dessa história, acompanhando com a leitura, comentários e toda interação possível dentro dessa magia chamada blogosfera. Agradeço também aos amigos que fizeram parceria literária comigo, com certeza cresci muito com esses diálogos.
   A partir de agora, as postagens serão esporádicas, mas sempre preparadas com todo o carinho. Também decidi manter o nome de origem: Humor em Conto, apesar de que os textos serão bem variados, mas fieis a marca que sempre os caracterizou.
   Um abraço do tamanho do mundo para vocês!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Experiência offline


Pessoal, como o próprio título diz, estou entrando em uma experiência offline a partir de 01 de outubro.

Todos os comentários até e inclusive o dia 30 de setembro serão retribuídos prontamente; os demais, no retorno.

Deixo claro a vocês que não estou terminando o blog, 
apenas quero ter essa experiência em off que 
reservará surpresas e novidades; e espero, muitos fatos divertidos que compartilharei com vocês no retorno.

Agradeço a todos por fazerem parte da minha casa HumorEmConto, e tenham a certeza: 
sempre serão muito bem vindos!

Deixo a todos um abraço do tamanho do mundo!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Catar coquinho na Lapônia



   A Lapônia fica ao norte da Escandinávia e compreende parte do território da Noruega, Suécia, Finlândia e Federação Russa (península de Kola). De clima subártico, a vegetação é esparsa ao norte, e ao sul se situa a floresta boreal. A região foi popularizada no mundo inteiro por ser considerada o local onde reside o Papai Noel.
   Criei recentemente uma expressão para denotar coisas impossíveis: ‘catar coquinho na Lapônia’. Penso que nem o próprio Papai Noel acreditaria que existe algum coquinho a ser catado por lá, mesmo com todo o esforço do faz-de-conta, tendo em vista as características de clima, temperatura. Mesmo a espécie como o Jerivá (Syagrus Romanzoffiana), que tolera geadas, se adapta no máximo às baixas temperaturas de um clima subtropical.
   Assim, pensei nas coisas impossíveis e o quanto é difícil distinguir o que é ou não viável, tendo em vista que existem certas ilusões que nos induzem em expectativas.
   Como diz a música Causa y efecto do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler: “a vida cabe num clic. Em um abrir e fechar (...) Trata-se de distinguir o que vale e o que não vale a pena”. Esta poderia ser uma grande direção para o nosso caminho de vida, se pudéssemos avaliar tudo com lentes de aumento e diferenciarmos, por exemplo, o que é um mero desejo de um sonho, e ainda o que é ou não apenas uma miragem que se apresenta como uma linda propaganda de margarina ou um cartão de créditos sem limite.
   Penso que o próprio contraste da vida nos dará vários sinais que poderão nos tirar da distração de um caminho apenas bonitinho. O que nos faz feliz e a quem gostamos deveria ser prioridade se isso não fará alguém sentir o contrário. ‘Catar coquinho na Lapônia’ pode ser uma experiência inesquecível e dolorosa, o momento em que apostamos todas as fichas e percebemos tudo ir para o espaço sideral em tempos em que o deletar se tornou conjugação diária. E assim poderemos ver um sonho evaporar-se na tecla ‘del’, e sem chances sequer de estar na caixa de spam e muito menos ser compartilhado.
   Mas viver só se aprende vivendo, e ao viver é que se aprende. Então fica aqui minha sugestão, ao catar coquinhos na Lapônia nunca se esqueça de convidar o Papai Noel para essa empreitada, porque se existem coisas impossíveis, teremos que vencê-las com serenidade e humor, até a próxima tentativa.

Crônica publicada nos jornais:
Diário Popular (Pelotas), NH (Novo Hamburgo), 
Correio de Gravataí, Diário de Viamão e Diário de Cachoeirinha.

Meus agradecimentos ao amigo Jacques Beduhn
pela consultoria a respeito da existência ou não de 'coquinhos na Lapônia'
o Jacques também é biólogo.

sábado, 15 de setembro de 2012

Avatar das cavernas


Fotografia de Jorge Pimenta
   
   Avatar é um termo de origem sânscrita com raízes no Hinduísmo e significa ‘a descida à Terra de uma divindade do Paraíso’. Designação aplicada na informática para uma imagem digital que identifica um cibernauta em todos os espaços virtuais da rede.
   Ao imaginar uma situação hipotética de entrar numa máquina do tempo, fazer uma viagem há 40.000 anos, e chegar ao período Paleolítico Superior, considerado hoje como o primeiro da Humanidade onde há registros de representações artísticas, a chamada ‘arte rupestre’, provavelmente veríamos a confecção das pinturas e gravuras como as descobertas na Caverna da Altamira, na Espanha. Em sua maioria, representações de animais selvagens de forma muito realista, o que para muitos estudiosos representa a garantia do registro do êxito do caçador. O que penso ser uma espécie de rascunho do conceito de avatar, na medida em que exalta e promove o ser humano à categoria de divindade, ao detentor de um poder superior em relação aos animais e a própria natureza.
   Parece-me inerente a necessidade de auto representação simbólica no ser humano, a necessidade, mesmo que velada, de ser uma divindade do paraíso aqui na Terra, um ser celestial travestido de terráqueo; e desta forma sempre foi fundamental o uso das ferramentas que se dispunham em cada momento histórico para se efetivar essa representação. Seja na idade mecânica: nas gravuras ou pinturas desse período; ou na era tecnológica, a partir do instantâneo fotográfico e da digitalização.
   Creio que os símbolos, desde os primeiros registros da Humanidade, estão relacionados de certa forma à virtualidade, no momento em que materializam e capturam os desejos, o ideal de personificação, e que nem sempre coexistem com a realidade, ou a percepção alheia e tudo que envolve o mundo da codificação. A questão do natural ou artificial, real ou simulado, pode ser muito anterior à era digital, na época em que o hacker de hoje seria um animal selvagem.
   Desta forma, penso que muito antes, e o meu ‘antes’ refere-se a milhares de anos da era virtual; lá, no escuro e úmido mundo das cavernas, o ser humano já pensava em multiplicar seu próprio perfil, quem sabe para ser ‘a imagem e semelhança’ de seus próprios deuses, alimentando o imaginário da invencibilidade e imortalidade; um eu-avatar de todos os tempos. 

Crônica publicada nos jornais: 
A Plateia (Sant'Ana do Livramento), NH (Novo Hamburgo), 
VS (São Leopoldo), Diário Popular (Pelotas) e Diário de Viamão.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"A política é a Disney?"



Réplica do castelo de Neuschwanstein, no Minimundo em Gramado, RS.
Fotografia de Ana Cecília Romeu

   "A política é a Disney?". Essa foi a pergunta que minha filha Luíse, de cinco anos, fez quando passávamos de carro onde havia simpatizantes de vários partidos políticos com bandeiras e distribuindo propaganda.
   Naquele momento, pensei ser o razoável tentar explicar o que era voto e que existiam cargos políticos. Mas se formos observar, a resposta poderia ser diferente se não fosse para uma criança.
   Penso que, sim, a política é como se fosse a Disney. É-nos propagada a ideia de um mundo encantado no gesto contínuo de um ‘happy face’, em personagens políticos com carisma e destemidos, como o Pato Donald ou mesmo o Mickey Mouse que declara ter uma Minnie e assim formam um casal de heróis-família; ou os que exploram o que chamo de a ‘teoria do coitadismo da Disney’: personagens órfãos de mãe, que é um tema recorrente nessa grife, por exemplo, o peixinho Nemo; ou os 101 dálmatas desgarrados de seus pais e fugindo das peripécias de uma Cruella Maldita.
   E aqui, num sentido geral, essa teoria do coitadismo pode englobar todo buffet de princesas lindas e sofredoras, assoladas por madrastas malvadas; ou mesmo o príncipe que as salva num belo cavalo branco. Assim, o pretende ao cargo foi no passado uma princesa melancólica, e no presente, o príncipe herói: a salvação de si e de todos. O coitadismo é explorado pelo que levanta a bandeira da superação, porque já teve sérias dificuldades financeiras, ou foi viciado, ou doente, ou, ou... Saiu do inferno direto ao céu, tão rápido e mágico como a fada Sininho, sobrevoando com luzes e glitter o castelo da Cinderela, que, inspirado no de Neuschwanstein, próximo a cidade alemã de Füssen, bem poderia ser nossa Brasília. Talvez um pouco desse ideal tenha nascido nas mentes brilhantes de Niemayer e Lúcio Costa, mas se refletiu apenas no valor arquitetônico.
   A realidade não tem espaço ao vislumbre dos não tão bonzinhos assim, como o Bafo da Onça, e muito menos os irmãos Metralha, que só sabemos que existem e quem são algum tempo depois de assumirem seus cargos políticos.
   Nós eleitores poderíamos ser como os personagens sobrinhos do Pato Donald: garotos inteligentes que superam as expectativas do tio, e estão presentes em todos os fatos, sabem escolher e se expressar. Mas muitas vezes não passamos de alguém simpático e benevolente com fatos e voto, como na versão mais açucarada do personagem Pateta.


Crônica de autoria de Ana Cecília Romeu

*Publicada nos jornais: O Dia (Rio de Janeiro),
NH (Novo Hamburgo), Diário Popular (Pelotas), 
Diário de Viamão, VS (São Leopoldo) e site do Correio Rural.


Abertura do Disney Channel

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Enredados sociais

Fotografia de Ana Cecília Romeu

   Pessoal, no próximo post retorno com as Histórias do Condomínio. Neste, fiquem com uma crônica de minha autoria. Abração a todos!

   O filósofo e educador Marshall Mcluhan criou o conceito de ‘aldeia global’, onde o mundo estaria sujeito a se transformar em espécie de aldeia pelos efeitos da revolução tecnológica: computador, telecomunicações. O planeta passaria a ser integrado via satélite, o que estreitaria as relações políticas, econômicas e sociais.
   Partindo deste princípio, pensei na aldeia global sob a ótica de nossa vida, como grãos de areia dessa enorme praia, uma microunidade ligada a outro grão e outro, o que nos torna efetivamente índios que participam de única aldeia ou praia do tamanho do planeta terra.
   A partir da televisão, e com mais vigor após o advento da internet, celular, redes sociais, é impossível pensar-se como ser único e isolado. Revendo o ‘Oráculo de Bacon’, jogo na web onde o objetivo é começar com qualquer ator ou atriz e depois colocar o filme em que atuou até fazer o menor número possível de ligações ao ator Kevin Bacon, tive certeza disso. Exemplo do site Oracle of Bacon: Mary Pickford que trabalhou em ‘Coquette’ (1929) com Louise Beavers que fez ‘... young caniballs’ (1960), onde trabalhou com Robert Wagner que fez ‘wild things’ (1968), com Kevin Bacon.
   Penso nesse oráculo, apesar de um jogo, como uma espécie de materialização desse conceito de aldeia global, agora visto pelo aspecto pessoal, mas os efeitos da tecnologia e de um simples ‘clic’ nos podem colocar conectados com qualquer índio de outra aldeia, até mesmo os que vestem o porte de cacique ou celebridades Bacon.
   Suponho até que seria possível concluir o oráculo e ter meu nome ligado ao Kevin Bacon. No que intuo que poderia também estar ligada ao Kevin arquiteto, ao Kevin escritor de um país que nem domino o idioma, ou até mesmo ao Kevin pescador de outro continente, quando sequer sei ou gosto de pescar. Mas algum ponto de nosso mundo pessoal e/ou profissional nos liga a todos os outros índios, sejam Kevins, Bacons ou até ao próprio Kevin Bacon.
   A reflexão sob esse ponto de vista poderia ser produtiva no momento em que o ser humano, percebendo essa ligação natural e que os meios tecnológicos estreitaram, se tornassem um parte do outro no respeito mútuo. Afinal, se somos grãos da mesma praia, mesmo colocados em extremos, ainda somos grãos da mesma praia.

Crônica publicada nos jornais: O Dia (Rio de Janeiro), 
NH (Novo Hamburgo), Diário Popular (Pelotas), 
A Platéia (Sant'Ana do Livramento), 
Diário de Viamão e Correio de Gravataí.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Notícias do Uruguai

Fotografias de Ana Cecília Romeu
Praia de Atlántida - Uruguay

   Minha amiga Cissa veio me visitar, e quanto mais eu perguntava do galã Brad Júnior, que ela afirmou ter visto semana passada no Uruguai, menos me falava sobre ele. Quando fui um pouco mais firme, ela me disse:
   - Laura, calma! Olha aqui, tenho até uma foto com ele – disse Cissa
   E mostrou-me a tal foto:


   - Mas isto é só os pés do cara! – eu disse – E ainda uma foto toda desfocada.
   - Laura, este é ele, sim, no Uruguai. Você vai ter que acreditar em mim, este é ele! É muito difícil tirar uma foto com todas as fãs em volta. Ele está por lá promovendo uma participação num filme europeu.
   Logo a Cissa retornou ao assunto ‘Uruguai’, me mostrando uma crônica:

Uruguai ai ai*

    Conheço mais cidades do Uruguai do que propriamente do Rio Grande do Sul, onde nasci e me criei. Meu pai era o único brasileiro de uma família de uruguaios. Desde muito pequena ia por lá, além de morar alguns anos em Rivera, cidade na fronteira com o Brasil.
   Falar em Uruguai é falar de seus campos extensos e planos, de um país que ainda vive da agricultura e pecuária, tendo na indústria do arroz e láctea duas grandes frentes, além da carne e derivados.
   Destino certo das férias de uma parcela de brasileiros, é um país em geral seguro que atende com cordialidade estrangeiros de todo o mundo, tendo pelo Brasil um carinho especial.
   Ao observar o que poderia distinguir o Uruguai, percebi que existem coisas na dia-a-dia que provocam contrastes imensos do passado com o futuro.
 Foi lá pela primeira vez que vi um supermercado possuir acoplado nos carrinhos, máquinas de calcular, e isso foi nos anos 80. Com o advento da internet, é fácil encontrar wi-fi até em barzinhos de bairro. Um espetáculo à parte são os carros dos anos 50 e 60 em plena atividade, circulando nas ruas junto com lançamentos importados de grandes marcas, que ainda nem chegaram ao Brasil. Nas rádios o tango de Gardel e o Techno se misturam.


   Grande parte da população reside na capital, cidade com características e problemas comuns de um centro com um milhão e meio de habitantes. Na arquitetura, prédios do início do século passado em art decó, sobrados em estilo art noveau; contrastando com edificações modernas automatizadas até com aquecimento no piso. 

Praia de Pocitos - Montevideo




Rambla - Montevideo
Teatro Solis  - Montevideo
Rambla - Montevideo

   A outra parte da população encontra-se espalhada pelo país. Existem povoados de poucas ruas que lembram cidades fantasmas do velho oeste, como Tranqueras, onde o tempo parece que parou, embora a TV a cabo e a internet estejam em uso.
   Uruguai: passado, futuro. Não parece existir tempo presente por lá. Quando o vemos pela primeira vez, dizemos “gostei”; quando saímos, “voltarei”, nesse momento esse país se cumpre sem o momento agora.

*Crônica publicada nos jornais: VS (São Leopoldo), NH (Novo Hamburgo),
Diário Popular (Pelotas), Correio Rural (Viamão), 
Correio de Gravataí e Diário de Viamão.

Todo se transforma - Jorge Drexler

Dedico esta postagem ao meu pai, Oscar da Silva Rodrigues, que infelizmente não posso mais abraçar pessoalmente no dia dos pais, mas que amava intensamente este país, o Uruguai. 

Dedico também a todos os papais que lerem esta.

Praia de Piriápolis

Argentino Hotel - Piriápolis - Em domingo de corrida de automobilismo.

Porto de Piriápolis

Hotel Colón - antiga casa de praia do fundador da cidade: Francisco Piria

Castelo de Piria - Antiga residência de Francisco Piria

Santa no cerro (morro) San Antonio - Piriápolis

Churrasco uruguaio, a tradicional 'parrillada' feito à brasa de lenha.

Postre(sobremesa) com doce de leite!

Típico restaurante uruguaio, com coifa para o fogo de chão,
outra maneira de preparo do churrasco.

Punta Colorada - Piriápolis

Praia de Atlántida

Punta Ballena - ao fundo: Punta del Este

Casa Pueblo - em Punta Ballena

Marina de Punta del Este
Rambla de Punta del Este - ao fundo: ilha Gorritiz
No Cerro San Antonio - Piriápolis -
Foto de autoria da minha filha Luíse, então com 4 anos.

domingo, 15 de julho de 2012

Dê um passo à frente quem for mulher



Resultado da minha parceria literária com a amiga Luciana Santa Rita


"Não meça o trabalho até que o dia tenha acabado... e o trabalho concluído." 
(Elizabeth Barrett Browning autora de Sonnets from the Portuguese - 1847)

   Elizabeth Barret conhecia as peças de Shakespeare e outras obras clássicas antes dos 10 anos de idade, mas era apenas uma poetisa emotiva da época vitoriana. Talvez nunca percebesse que poderíamos ser agentes de nós mesmos, como pilotos de nosso próprio avião, assumindo o controle, definindo rumos, por meio da distinção dos desejos, em objetivos ou caprichos.
   Drummond poetizou a mulher de inúmeras formas, mas a diferença não está no gênero, mas na capacidade dessa mulher de olhar um caminho à direita; e outro à esquerda, e poder optar independente, pelo que parecer mais atraente no momento até onde a vista alcança.
   A mulher vanguardista pode ser interpretada como protótipo da gata borralheira, idealizada como uma mulher desprendida no ato de doar, de ofertar carinho.
   A mulher ao longo do tempo foi discriminada por razões de diferenças biológicas, sendo-lhes atribuído um papel social restrito à esfera da vida doméstica. Todavia com as mudanças sociais, a atuação do movimento feminista introduzindo a perspectiva de gênero, a diferença entre homens e mulheres ganhou nova dimensão: a cultural.  Sendo possível distinguir o que é um mero desejo, de um desejo que se transforma em um objetivo de vida, mesmo que sem maiores pretensões ou que represente uma pequena passagem de tempo. 
   Mesmo considerando a inserção da mulher no contexto urbano, ainda é notória a reduzida representação feminina em várias esferas. A fragilidade dos salários, os indicadores de violência doméstica, a mulher objeto, a compatibilização da cultura machista com as leis, entre tantas outras evidências disso.
   Neste período em que encontramos inúmeras possibilidades que podem nos transformar de Borralheiras a Cinderelas num escorregar de mouse, o gênero e a beleza ainda são igualmente utilizados para designar as relações sociais entre os sexos. Essa discussão revela que o estudo do gênero sempre serviu para desmitificar ideias construídas sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres.  E assim, lembrando a frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.
  À mulher é exigido o equilíbrio de relacionamentos que já estão esfacelados, onde houve mudanças e que talvez não devam ser mesmo eternos, isso mesclando à complexidade feminina que incorpora todo o cardápio de princesas: Bella, Cinderela, Branca de Neve, a Fiona, mas também a madrasta má, suas filhas, até o espelho mágico e o tapete do Aladim.
 Confinadas e multifacetadas, mais exigidas e fortes emocionalmente que os homens, talvez por isso, permitindo-se ser a madrasta má de vez em quando. Versáteis, pois cabem vários papéis ao longo da vida, até para quem não é mãe, mas é tia; para quem está desempregada, mas é do lar.
   Pensar em vanguarda é entender a ditadura do ‘sejam melhores em tudo’: tão interessante como a princesa, mas forte como a madrasta. Mas que deseja um Tiago Lacerda, embora pareça só existir os Shereks. Nesse contexto, ainda se faz presente a figura do Mr. Magoo (personagem-detetive, com grave deficiência visual) procurando a Mulher Maravilha, ou seja, exigindo uma super-heroína, embora não 'veja' a ponto de reconhecer ou valorizar uma. A verdade é que sapato de cristal quebra e não é confortável.
   Por um lado, sair da vanguarda nas relações amorosas pode significar passar a vida inteira substituindo o protagonista da estória, se repetindo na sessão da tarde por vontade ou falta de opção. Acreditando naqueles que pareçam confiáveis, repetindo o refrão de que ‘é preciso confiar’, mesmo quando o cara pede um tempo. Não percebe o amor à contra-gotas, granel ou em doses homeopáticas.
   Por outro, existe a vanguardista que não se conforma com ‘tanto faz’, nunca reclama se não há luz no inferno ou acredita no céu enfeitado, apenas entende o estado das reticências, do ponto final e dos complementos. Não lamenta a solidão em seus escritos, nem agoniza suspiros sobre o fim: jamais prevê a catástrofe. Tem conduta simples, rápida, pronta, entende o fim, e parece disposta a se libertar. Agir dessa forma, pode ser a crença no amor, sem ter certeza da alma gêmea como eterna ou única possibilidade: um tanto da nossa vida é reciclada, algumas coisas tiradas e outras vêm em acréscimo, inclusive nos sentimentos, e isso não altera a força par, mas pode alterar a dança dos casais.
   Dê um passo à frente quem for mulher. Dê um passo à frente quem busca a dignidade que a realização traz. A realização de ser independente na escolha, mesmo que com erros e incertezas, tristezas ou felicidades, mas com rumo certo: apenas, um passo à frente.



Luciana Santa Rita & Ana Cecília Romeu

Este texto também pode ser apreciado no blog da Luciana.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Do virtual ao real - 2: Eu e Luciana Santa Rita


   
   O primeiro amigo virtual que conheci no plano real foi o Jim Carbonera. No ano passado, fiz uma postagem sobre o encontro que coincidiu com o lançamento do seu primeiro livro: Divina Sujeira. Vocês podem conferir neste LINK.

   Dia 6 de julho, sexta-feira chuvosa em todo Rio Grande do Sul, frio de menos de 15 graus, quando há dois dias fazia máxima em torno de 32 graus. O cenário poderia não ser perfeito para essa alagoana acostumada a um “inverno” de 27 graus, mas isso não teve importância, pois encontrei pela primeira vez, pessoalmente, a amiga Luciana Santa Rita.
   Conheci a Luluzinha, como eu a chamo, virtualmente em janeiro, quando ela veio a meu blog em razão de uma parceria que eu fazia naquele momento com o amigo Jorge Pimenta. Percebi nela, alguém que comentava de forma inteligente, analítica, que acrescia a meu trabalho. Quando cheguei a seu espaço virtual, fiquei encantada pelas crônicas que quase dissecavam o tema. Como podia alguém conseguir visualizar três, até quatro dimensões em um único assunto? Aquilo me atraiu profundamente. Senti ali alguém especial,  disposta em generosidade a compartilhar sua inteligência com tanta gente diferente, como temos essa possibilidade aqui na blogosfera.
   E desenvolvemos uma amizade que agora se concretizou. Fiquei e estou muito feliz por ter conhecido alguém tão assim. Alguém tão...
   Ficar sem palavras ou perdê-las ao lado da Luciana não é muito difícil; o que é fácil é saborear cada momento, seja aqui em casa, no restaurante, na serra gaúcha. Momentos para não se esquecer.
   Luciana mostrou-se uma amiga disposta à partilha da vida e dos sentimentos. Uma pessoa aberta ao contato, que irradia comunicação em sua mais rica dialogia, pois me senti com ela, desde o primeiro momento, à vontade para o dar e receber, sem amarras na exposição das duas vias de acesso onde nos cumprimos plenos como ser humano. Onde a troca nos fundamenta e nos coloca sentido para além do conhecimento ou de qualquer informação. Um gesto, um olhar e nos sentimos realizados no reflexo do outro, como se conhecêssemos há muito tempo, e além do tempo. E isso me fez feliz, e por isso estou feliz, por ter a oportunidade de encontrar alguém com a alma tão generosa e aberta.
   Para você, Luluzinha, minha cara amiga, meu muito obrigada por tudo!
   Pretendo ainda conhecer muitos de vocês no plano real, e aqui concluo dizendo o mesmo que na outra vez: só é impossível aos olhos, o que nos é impossível ao coração.





Espaço virtual da Luciana: Navegando no Cotidiano